ANO IV

13/07/2026

HojePR

agenor

Álvaro Dias, o comício e a memória que tropeça

22/04/2026

A carreira de jornalista não é para os fracos. Não é ofício de conforto, nem de rotina previsível. É profissão de nervos expostos, de horas mal dormidas, de pressão constante e, sobretudo, de responsabilidade permanente. Vive-se sob o risco do erro, e não qualquer erro banal, mas aquele que ecoa, que se espalha e que contamina a percepção pública. Como diria Albert Camus, “a integridade não precisa de regras”; o problema é quando ela depende de fontes que não as têm.

E aqui começa o constrangimento maior. O jornalista não trabalha sozinho, ele depende de fontes. Confia nelas. Precisa confiar. A relação deveria ser quase sacerdotal, baseada em verdade, precisão e boa-fé. Mas, como já alertava Thomas Hobbes, o homem é o lobo do homem, e algumas fontes parecem determinadas a provar isso diariamente.

Há as mal informadas, as levianas, as que confundem lembrança com imaginação e, claro, aquelas que, como dizia o ex-governador Roberto Requião, padecem de “ignorância córnea ou má-fé cínica”.

Nesse vasto zoológico, o ex-senador Álvaro Dias recentemente ofereceu um exemplar digno de estudo. Torço, sinceramente, para que esteja apenas no grupo dos traídos pelo tempo e pela memória. Porque foi dele que partiram informações que levaram um jornalista a cometer um erro daqueles que fazem a profissão ranger os dentes.

Em plena campanha eleitoral pelo Senado, Álvaro resolveu puxar para si um feito histórico: a realização do comício das Diretas Já em Curitiba, em 12 de janeiro de 1984. Segundo a versão apresentada, com uma desenvoltura quase literária, teria sido ele o grande articulador, o homem que reuniu políticos, convenceu o então prefeito Maurício Fruet, montou palanque, acendeu luzes e, quem sabe, também alinhou os astros. Um verdadeiro semideus da redemocratização.

A narrativa avança ainda mais. Diz-se que o então governador José Richa teria hesitado, temido um fiasco e, numa espécie de crise de coragem, se omitido da organização. Álvaro, claro, teria salvado o dia, como convém aos heróis tardios.

Reprodução de matéria do jornal Gazeta do Povo de 13 de janeiro de 1984

Pois bem.

Se no início deste texto falei das agruras do jornalismo, é justo reconhecer que ele também oferece momentos raros: o de corrigir a história, de desfazer versões mal contadas e de recolocar os fatos em seus devidos lugares. Como diria Marco Aurélio, “a verdade não se desgasta pelo tempo”.

E a verdade é bem menos épica e muito mais consistente.

O movimento Diretas Já foi uma mobilização nacional pela retomada das eleições diretas para presidente da República, em pleno regime militar. Não nasceu de um impulso individual, tampouco de uma articulação isolada. Foi resultado de um processo político amplo, coletivo e cuidadosamente construído.

Meses antes do comício de Curitiba, em outubro de 1983, José Richa reuniu governadores de oposição em Foz do Iguaçu. Estavam lá nomes como Franco Montoro, Tancredo Neves e Leonel Brizola. Foi nesse encontro que surgiu a estratégia de levar comícios pelas capitais, consolidando a pressão popular por eleições diretas.

Você leu o nome do Alvaro Dias como participante dessa reunião? Não, pois ele não estava em Foz. Era coisa de alto coturno.

Curitiba entrou nesse roteiro, não por acaso, nem por improviso.

Richa articulou a vinda das principais lideranças políticas. Estiveram presentes figuras como Ulysses Guimarães e Luiz Inácio Lula da Silva, então líder do poderoso Sindicato dos Metalúrgicos, além de prefeitos, deputados e lideranças diversas. A mobilização envolveu prefeitos do interior, vereadores, bases partidárias e organizações sociais. Não foi obra de um homem só. Foi, como deveria ser e ao estilo de Richa, um movimento de muitos.

E quanto à suposta hesitação de Richa? Os registros da época, inclusive da Gazeta do Povo de 13 de janeiro de 1984, mostram outra coisa.

O governador estava no Palácio Iguaçu, reunido com Ulysses, Tancredo e Affonso Camargo Neto, discutindo os rumos políticos do país. A chegada ao comício foi posterior porque havia, antes, uma articulação política em curso. Nada de medo. Nada de omissão.

Aliás, a ideia de que alguém precisou telefonar para convencer Richa a comparecer ao evento é tão frágil quanto um castelo de cartas em dia de vento. Bastaria uma checagem básica, aquela lição que qualquer professor de jornalismo repete à exaustão, para evitar o constrangimento.

Reprodução de reportagem publicada pelo jornal Gazeta do Povo em 13 de janeiro de 1984

A mesma edição da Gazeta do Povo de 13 de janeiro de 1984 registra que a comitiva aguardava, no Palácio Iguaçu, a chegada do então governador de São Paulo, Franco Montoro, cuja aterrissagem em Curitiba ocorreu apenas no início da noite. Foi esse atraso, e não qualquer súbita crise de coragem, que reteve José Richa e as demais lideranças no Palácio por mais tempo, em reuniões políticas que antecederam a ida ao comício. Ou seja, enquanto alguns imaginavam telefonemas dramáticos e salvadores da pátria, a realidade era bem mais prosaica. Uma agenda cheia, articulações em curso e um avião que não chegou na hora.

Quando Montoro chegou, dirigiu-se ao Palácio Iguaçu, onde foi inteirado das tratativas dos seus companheiros e só então, sem nenhuma hesitação, Richa e os demais foram para a Boca Maldita.

Quanto a Álvaro, senador à época, fontes indicam que sua participação, quando muito, se deu na condição de presidente estadual do PMDB, autorizando despesas estruturais do evento. Importante? Sim. Decisiva? Nem de longe.

Mas a história está cheia dos chamados “engenheiros de obra pronta”, ou, como diria Jean-Paul Sartre, daqueles que preferem a narrativa à realidade. São os pais de filhos já criados, os donos de vitórias alheias, os heróis de memória flexível.

Álvaro, ao que tudo indica, apenas entrou para essa galeria. Nada de surpreendente. Apenas mais um capítulo de um velho hábito nacional, o de reescrever o passado conforme as conveniências do presente.

E vale lembrar, ainda, que foram realizados outros comícios pelas Diretas, em outras cidades e Richa participou de todos.

A nós, jornalistas, resta o dever essencial de fazer aquilo que Roma já ensinava há milênios: dar a César o que é de César.

Leia outras colunas do Agenor aqui.

Leia outras notícias no HojePR.
• Siga o HojePR no Instagram.