Desde logo esclareço que a palavra “perdi” não significa as que seleção brasileira perdeu, mas aquelas das quais não tenho lembranças – ou seja, as cinco primeiras.
Cheguei atrasado às Copas de 1930, 1934 e 1938, pelo simples e justificado motivo de ter dado as caras neste mundo em 1948, dez anos depois da Copa da França, onde tivemos excelente desempenho.
No dia 16 de julho de 1950, data da fatídica derrota para o Uruguai, eu tinha um ano e 11 meses, ainda filho único. Conforme relato da minha mãe, fomos para a casa dos meus avós maternos, Ernani/Anita, para o churrasco comemorativo. No grupo presente, um amigo do meu avô, chamado Walter.
Devo ter infernizado a paciência do tal Walter, a quem comecei a chamar de Váti. No pequeno gramado existente nos fundos da casa, passei a tarde e pedir que ele devolvesse as bolas que eu lhe mandava:
– Chuta, Váti.
A Seleção tinha perdido, estava todo mundo de cabeça quente e o pequeno pentelho não desistia: “Chuta, Váti!”
Nunca mais ouvi falar do pobre Váti, que hoje deve habitar alguma urna a sete palmos.
Em 1954 a Seleção viajou para a Suíça com pretensões de, enfim, vencer a Copa do Mundo. Havia razões para tanto, o terceiro lugar de 1938 e o vice de 1950. Três, dois, um – a contagem regressiva fazia sentido.
Vencemos o México de 5 x 0 na estreia e empatamos com a Iugoslávia na segunda partida. Estávamos classificados para as quartas-de-final, contra a Hungria, o time a ser batido. Máquina de jogar futebol, diziam todos.
No dia do jogo, meus pais se reuniram na sala de casa para ouvir a partida. Com quase seis anos, eu saracoteava por ali, enquanto a nossa Seleção sofria. Os húngaros estavam na frente, quando anunciei:
– Quero fazer cocô!
Minha mãe me levou ao banheiro, deixou-me sentado no trono e voltou para a sala. Minutos depois, berrei:
– Estou pronto!
Meu pai foi escalado para resolver a questão. Acontece que no momento de puxar a descarga o Brasil fez um gol. Ele puxou com toda força, de alegria, um descarrego literal. A descarga despregou da sustentação e o banheiro tornou-se um oceano.
O final do jogo foi um desastre, perdemos de 4 x 2. Houve briga, agressões. Nosso treinador deu sapatadas nos húngaros e o árbitro brasileiro Mário Vianna, ex-policial, um dos selecionados para apitar jogos naquela Copa, aproveitou seu dia de folga e saiu dando safanões no exército inimigo, digo, na seleção adversária. Foi suspenso pela Fifa e nunca mais apitou um jogo internacional.
Mas disso tudo só soube depois. Minha memória só começou a funcionar para Copas do Mundo em 1958, quando eu já ia sozinho ao banheiro.
Imagem: gerada por IA
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