A fronteira ensina coisas que nenhum mapa consegue explicar. Ela mostra que é possível morar em um país e, ao mesmo tempo, aprender a sentir o coração do outro. Talvez por isso eu tenha acordado hoje com a estranha e agradável sensação de viver entre duas pátrias de chuteiras.
De um lado da Ponte da Amizade, o Paraguai experimenta um daqueles momentos que marcam uma geração. O crescimento econômico devolveu autoestima ao país e a classificação para as quartas de final da Copa do Mundo, conquistada depois de eliminar a Alemanha nos pênaltis, ampliou esse sentimento de pertencimento. Não foi apenas uma vitória no futebol. Foi a confirmação de que um povo inteiro passou a acreditar que também pode ocupar lugar entre os protagonistas do mundo.
Do lado de cá, a história parecia caminhar em sentido oposto. O Brasil encontrava pela frente um Japão disciplinado, organizado e fiel à cultura do coletivo que transformou sua seleção em uma das mais competitivas do planeta. Há muito da semente plantada por Zico naquela equipe que aprendeu que talento sem método não basta, mas método sem talento também não faz milagres.
Durante boa parte do jogo, parecia que a disciplina japonesa venceria novamente. Só que o futebol brasileiro, quando resolve reencontrar sua essência, costuma desafiar qualquer roteiro. Nos acréscimos, a Seleção virou a partida não apenas pela qualidade técnica, mas pela insistência de quem se recusa a aceitar a derrota antes do último segundo. Foi uma vitória construída com coragem, obstinação e aquela velha teimosia brasileira que tantas vezes fez parte da nossa identidade.
Talvez por isso a manhã tenha amanhecido diferente por estas bandas da fronteira. Há alegria espalhada dos dois lados da ponte. Os paraguaios celebram uma conquista que alimenta sonhos cada vez maiores. Nós, brasileiros, respiramos aliviados ao perceber que ainda sabemos reagir quando tudo parece perdido.
A fronteira também ensina que não existe contradição em comemorar a felicidade do vizinho. Ao contrário, ela amplia a nossa própria alegria. Quem vive por aqui descobre que o orgulho nacional não precisa nascer da rivalidade permanente. Ele pode conviver com a admiração, com o respeito e até com a torcida silenciosa pelo sucesso de quem atravessa a mesma ponte todos os dias.
No fim das contas, talvez essa seja a maior vitória desta Copa para quem vive entre Brasil e Paraguai. Descobrir que o futebol continua sendo capaz de unir povos antes mesmo de separar torcidas e que, às vezes, a alegria não conhece fronteiras. Ela simplesmente atravessa a ponte.



