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24/06/2026

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As estranhas companhias de Moro

24/06/2026
lucas dorini

Existe um velho ditado que nunca sai de moda: diga-me com quem andas e te direi quem és. Talvez seja exagero. Mas, na política, há outro igualmente conhecido que parece mais apropriado: a mulher de César não basta ser honesta. Tem que parecer honesta.

E é justamente aí que mora, sem trocadilho, um problema cada vez mais difícil de explicar para o senador Sergio Moro.

Afinal, quem fez carreira empunhando a bandeira da tolerância zero contra a corrupção, contra o crime e contra toda forma de malfeito deveria ser ainda mais rigoroso na escolha das companhias. Não apenas por prudência. Por coerência.

Nesta semana surgiu mais um capítulo dessa curiosa coleção.

Lucas Dorini Sabbato, ex-assessor do gabinete de Moro no Senado, foi denunciado pelo Ministério Público do Paraná por lavagem de dinheiro no desdobramento da investigação sobre um suposto esquema de rachadinha envolvendo o deputado estadual Ricardo Arruda, do mesmo partido de Moro e entusiasta fervoroso da candidatura do ex-juiz ao governo do Paraná. A revelação foi publicada pelo blog do Lauro Jardim, do jornal O Globo.

Curiosamente, Sabbato foi contratado pelo ex-juiz da Lava Jato justamente no período abrangido pelas investigações do Ministério Público sobre o suposto esquema instalado no gabinete de Ricardo Arruda.

Transparência do Senado Federal

Segundo a denúncia, ele teria atuado na intermediação de valores e em operações de câmbio destinadas à entrega de dinheiro em espécie.

Sabbato permaneceu por cerca de três meses no gabinete de Moro, onde recebia remuneração próxima de R$ 24 mil mensais. Conforme revelou O Globo, ele deixou o cargo “a pedido” após virem à tona publicações em redes sociais nas quais aparecia ao lado do ex-presidente Jair Bolsonaro e aliados, além de posar com armas de fogo.

É importante registrar que trata-se de uma denúncia, que ainda será analisada pela Justiça, e cada acusado tem direito à ampla defesa e ao contraditório.

O problema político, porém, não está na culpa ou na inocência de ninguém. Está no constrangimento recorrente.

Porque este não é um episódio isolado.

Antes dele, Moro já teve que conviver com outro desgaste quando gravou um vídeo comemorando a entrada no PL do vice-prefeito de Doutor Camargo, Aldalto Pezzotti Bernardino, preso em 2025 durante uma blitz da Polícia Militar conduzindo uma motocicleta com registro de furto.

Também não deixa de ser curioso que o principal fiador partidário de sua candidatura seja justamente Valdemar Costa Neto, presidente nacional do PL, personagem conhecido do noticiário policial e judicial brasileiro há muitos anos, com um histórico de condenações e investigações amplamente divulgadas.

Separadamente, cada caso pode ser tratado como mera coincidência.

Mas coincidências têm um defeito. Quando começam a se repetir, deixam de parecer tão coincidentes assim.

Moro talvez alegue que não tinha conhecimento dos fatos. É um argumento possível. Também poderá dizer que ninguém escolhe previamente quem será investigado ou denunciado amanhã. Verdade.

Só que esse tipo de compreensão costuma valer para políticos comuns. Sergio Moro nunca vendeu a imagem de político comum.

Sua trajetória foi construída justamente sobre a promessa de ser diferente. Mais rigoroso, mais exigente, mais intransigente.

Durante anos, ouviu-se que era preciso afastar qualquer suspeita, qualquer sombra, qualquer dúvida.

Agora, curiosamente, as sombras parecem insistir em frequentar os arredores de seu próprio grupo político.

E isso produz um efeito inevitável.

Quem transformou a moralidade em principal ativo eleitoral passa a ser cobrado por um padrão moral igualmente elevado.

Não basta não cometer irregularidades. É preciso evitar situações que permitam dúvidas. É preciso cercar-se de pessoas cuja ficha não produza constrangimentos sucessivos. É preciso praticar, na vida política, aquilo que durante tanto tempo exigiu dos outros.

Porque credibilidade não se perde apenas por escândalos próprios. Às vezes ela vai embora de carona com as más companhias.

(Foto: reprodução Facebook)

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