Lealdade, confiança e respeito aos parceiros não garantem, sozinhos, uma vitória eleitoral. Política exige também estratégia, capacidade de articulação e, por vezes, uma dose considerável de astúcia. Sem aqueles princípios básicos, porém, alianças se desfazem, compromissos perdem valor e projetos construídos durante anos podem ruir em poucos meses.
A partir da eleição de Ratinho Junior, em 2018, formou-se no Paraná um dos grupos políticos mais poderosos da história recente do Estado. A aliança garantiu ao governador dois mandatos, o segundo conquistado em primeiro turno, com quase 70% dos votos válidos. Sob sua administração, o Paraná viveu um ciclo de expansão econômica, atração de investimentos e estabilidade política que conferiu ao governo ampla aprovação e grande influência sobre os municípios.
A eleição de 2026 colocará à prova não apenas a capacidade do PSD de conservar o Palácio Iguaçu. Estará em julgamento o próprio método utilizado por Ratinho Junior para construir e administrar seu grupo político.
Dois personagens foram fundamentais para a consolidação desse projeto. Eduardo Pimentel assegurou ao governador uma presença sólida em Curitiba ao vencer, em 2024, uma eleição municipal difícil. Alexandre Curi, por sua vez, transformou a Assembleia Legislativa em um dos principais pontos de sustentação política do governo e estabeleceu uma extensa rede de relacionamento com prefeitos, vereadores e lideranças regionais.
Eduardo não poderia ser o candidato à sucessão estadual. Acabara de ser eleito prefeito da capital, com 57,64% dos votos válidos, derrotando Cristina Graeml no segundo turno.
Alexandre Curi, entretanto, preparou-se para disputar o governo. Chegou a reunir o apoio público de 189 prefeitos e contava com respaldo expressivo entre os deputados estaduais.
Seria, portanto, um caminho previsível. Não necessariamente obrigatório, mas coerente com a trajetória do grupo.
Ratinho Junior preferiu outro nome. Escolheu Sandro Alex, seu antigo aliado e secretário de Infraestrutura e Logística. O governador tem o direito de defender o candidato em quem mais confia. Sandro Alex o acompanha há muitos anos e participou diretamente de sua administração. O problema não está na legitimidade da escolha, mas nas consequências políticas que ela produziu. A própria definição do candidato foi descrita como um movimento que aprofundou divisões na base governista.
A aliança que ajudou a eleger Ratinho Junior duas vezes já não existe com a mesma configuração. O PL rompeu com o governador e lançou Sergio Moro ao Palácio Iguaçu. O Novo integrou-se à composição que inclui Deltan Dallagnol como candidato ao Senado. O MDB apresentou a pré-candidatura de Rafael Greca. A federação formada por União Brasil e PP ainda é disputada pelos diferentes grupos, mas a chance de estar em outro palanque é grande.
Enquanto isso, Moro lidera as pesquisas. Em levantamento divulgado no início de julho, apareceu com 39,9% das intenções de voto, enquanto Sandro Alex permaneceu atrás dos principais adversários ou tecnicamente empatado nas posições seguintes, conforme o cenário testado. Pesquisa não determina resultado eleitoral, mas ignorar tendências consistentes também não constitui estratégia.
Esse quadro já seria suficientemente complicado. Ratinho Junior, porém, decidiu introduzir um novo elemento na equação ao filiar Cristina Graeml ao PSD.
A movimentação surpreendeu parte significativa do mundo político paranaense. Cristina deixara o União Brasil e chegara ao partido governista com a perspectiva de concorrer ao Senado ou ocupar a vaga de vice na chapa estadual.
Nesta terça-feira (21), reuniu os deputados estaduais do PSD para um almoço, num momento em que cresce nos bastidores a possibilidade de uma chapa formada exclusivamente pelo partido, com Sandro Alex ao governo e Cristina como vice.
A filiação não pode ser analisada apenas pelo número de votos obtidos por Cristina em Curitiba. Ela saiu da eleição municipal com 390.254 votos e demonstrou possuir um eleitorado expressivo. Esse patrimônio político, no entanto, já não existe mais e o problema criado é o custo imposto à coesão do grupo.
A campanha de 2024 entre Cristina e Eduardo foi marcada por ataques, acusações e confrontos pessoais. Não se tratou de uma disputa protocolar, cujas divergências desapareceriam naturalmente depois da apuração. As agressões deixaram marcas. Alexandre Curi, coordenador da campanha de Eduardo no segundo turno, também foi atingido politicamente por aquele embate.
Ao receber Cristina no PSD e reservar a ela uma posição privilegiada na chapa majoritária, Ratinho Junior submeteu dois de seus aliados mais importantes a uma situação constrangedora. Eduardo vê sua antiga adversária transformada em protagonista do grupo que ajudou a eleger. Alexandre, depois de recuar em suas pretensões ao governo, passa a conviver com uma concorrente por uma vaga que, até então, parecia destinada a só ele.
Não se questiona o direito de Cristina de pleitear um cargo majoritário. Questiona-se a lógica política de uma composição que, para acomodar uma nova aliada, ameaça afastar companheiros que sustentaram o projeto desde o início.
Caso Cristina seja candidata a vice, o PSD poderá apresentar uma chapa pura. Com isso, perderá uma das ferramentas mais valiosas de qualquer articulação eleitoral: a vaga destinada a atrair outro partido e ampliar o tempo, a estrutura e a capilaridade da coligação. Caso seja candidata ao Senado, o compromisso político construído com Alexandre Curi será colocado em xeque.
Foi assim que botaram o bode na sala.
Agora, todos precisam se acomodar ao redor dele. Eduardo deve fingir que a campanha de 2024 não existiu. Alexandre precisa aceitar que os entendimentos anteriores podem ser revistos. Sandro Alex terá de administrar uma vice com capital eleitoral próprio e conhecida disposição para defender publicamente suas posições. Os demais partidos precisarão acreditar que haverá espaço numa composição praticamente preenchida pelo PSD.
A política permite reconciliações. Adversários de ontem podem tornar-se aliados de amanhã. Isso faz parte do jogo democrático. Reconciliação, entretanto, não significa apagamento da memória nem dispensa explicações aos parceiros que permaneceram leais quando a aliança ainda não parecia invencível.
Ratinho Junior construiu sua força reunindo lideranças diferentes em torno de um projeto comum. Para fazer um sucessor, precisará recuperar precisamente essa capacidade. Não bastará associar Sandro Alex às realizações do governo. Será necessário reconstruir pontes, estabelecer critérios compreensíveis e demonstrar que compromissos políticos ainda possuem algum valor.
É possível rever posições, reorganizar a chapa e retirar o bode da sala. Quanto mais a decisão for adiada, porém, maiores serão os danos à confiança que sustentou o grupo nos últimos oito anos. Eleição se vence com aliados dispostos a permanecer no palanque quando surgem as dificuldades. E ainda há tempo de reunir aliados dispersos.



