O Brasil foi eliminado da Copa do Mundo. Perdeu para a Noruega por 2 a 1 nas oitavas de final e voltou mais cedo para casa. Não foi um vexame nas proporções daquele 7 a 1 contra a Alemanha, é verdade. Mas talvez seja justamente aí que esteja o problema. O país já se acostumou tanto com derrotas que nem toda eliminação parece tragédia. Algumas viram apenas mais uma notícia ruim no meio de tantas outras.
Durante algumas semanas, a Copa cumpriu seu papel histórico entre nós. Suspendeu conversas difíceis, adiou angústias, empurrou para depois aquilo que já estava ruim antes de a bola rolar. O país vestiu camisa, escolheu escalação, discutiu atacante, reclamou de técnico, procurou culpados e fingiu, por alguns jogos, que o grande problema nacional era saber por que o Brasil não consegue mais ser o Brasil dentro de campo.
Agora acabou.
Acabou a cortina de fumaça. Acabou o intervalo emocional. Acabou a ilusão de que a próxima partida resolveria alguma coisa. O Brasil real volta a entrar em campo, e esse time é muito mais difícil de assistir.
Volta a educação que não ensina como deveria. Volta a saúde que adoece antes de atender. Volta a segurança pública que transforma medo em rotina. Volta o custo de vida, volta a burocracia, volta a sensação de que o cidadão trabalha muito, recebe pouco e ainda precisa agradecer quando o básico funciona. Volta o país que, diferente da seleção, não tem intervalo, não tem substituição providencial e não pode esperar quatro anos para tentar de novo.
A eliminação na Copa dói porque toca no orgulho. Mas o Brasil vive derrotas mais profundas todos os dias. Cada escola abandonada é um 7 a 1. Cada hospital lotado é um 7 a 1. Cada família trancada em casa com medo da violência é um 7 a 1. Cada jovem que desiste do futuro porque o presente já parece impossível é um 7 a 1. Cada eleição em que o país é empurrado para escolher entre ressentimentos, fanatismos e promessas recicladas é outro 7 a 1.
O futebol, ao menos, ainda tem placar. A política brasileira muitas vezes nem isso oferece. Perde-se muito, comemora-se pouco e quase ninguém assume a derrota.
Com o Brasil fora da Copa, volta ao centro da mesa a eleição. E volta também a velha pergunta que o país insiste em evitar: é só isso mesmo que temos a oferecer? De um lado, lulistas tratando qualquer crítica como ameaça à democracia. Do outro, bolsonaristas tratando qualquer discordância como traição à pátria. No meio, milhões de brasileiros cansados, desconfiados e cada vez menos representados por essa disputa que parece enorme na televisão, mas pequena diante dos problemas reais do país.
O Brasil político se tornou uma arquibancada dividida. Não se debate projeto, grita-se torcida. Não se discute solução, escolhe-se inimigo. Não se admite erro, culpa-se o juiz, a imprensa, o adversário, o sistema, o passado, o presente ou qualquer um que impeça a narrativa de continuar de pé. É como se a nação tivesse aprendido com seus piores torcedores: quando falta futebol, sobra grito.
E grito não constrói escola. Grito não reduz fila de hospital. Grito não melhora a segurança. Grito não gera emprego, não aumenta produtividade, não qualifica mão de obra, não moderniza o Estado, não salva a próxima geração. Grito apenas ocupa espaço. E o Brasil tem sido especialista em ocupar espaço com barulho enquanto perde tempo com o essencial.
A seleção foi eliminada pela Noruega, mas o país já vinha sendo eliminado há muito tempo de várias competições mais importantes. Foi eliminado da competição pela qualidade da educação. Foi eliminado da disputa por uma segurança pública minimamente civilizada. Foi eliminado da capacidade de planejar o futuro com seriedade. Foi eliminado, sobretudo, da coragem de exigir mais de seus próprios líderes.
Talvez a derrota na Copa sirva, ao menos, para devolver o Brasil ao espelho. Não ao espelho do futebol, onde ainda procuramos Pelé, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e tantos fantasmas gloriosos. Mas ao espelho da vida pública, onde o reflexo é bem menos confortável. Ali aparece um país que reclama dos políticos, mas muitas vezes aceita ser tratado como torcida. Um país que se diz cansado dos extremos, mas continua alimentando os extremos. Um país que quer renovação, desde que ela não mexa em suas próprias certezas.
O problema é que 2026 não será decidido apenas nas urnas. Será decidido também na capacidade de o brasileiro abandonar a preguiça cívica. Não basta dizer que todos são ruins. Não basta repetir que nada presta. Não basta votar com raiva, com medo ou por vingança. Um país que escolhe mal paga caro. E o Brasil já tem boletos demais vencidos.
A derrota para a Noruega passará. Amanhã haverá análise tática, memes, entrevistas, pedidos de reformulação e mais uma rodada de especialistas explicando o que deu errado. Depois virá outro ciclo, outro técnico, outra convocação, outra esperança. No futebol, o Brasil sempre encontra um jeito de recomeçar.
Na política, o recomeço é mais difícil. Porque ali a escalação depende de nós. E, convenhamos, faz tempo que o eleitor brasileiro entra em campo aceitando opções ruins como se fossem inevitáveis.
Cada dia é um 7 a 1 diferente porque o placar da decadência não aparece todo de uma vez. Ele vai sendo construído aos poucos, em silêncio, na sala de aula sem professor, no pronto-socorro sem vaga, na rua dominada pelo medo, no debate público reduzido a ofensa, na eleição transformada em guerra santa.
O Brasil saiu da Copa. A pergunta, agora, é se um dia conseguirá sair também desse campeonato interminável de mediocridade.
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