Por Fernando Simonetti, psicólogo
Ficar bêbado não é a vibe do momento, sugere a sondagem “Copo Meio Cheio”, conduzida pela Go Magenta e Offerwise, escritórios brasileiros que trabalham com estratégias de marca e marketing. Cerca de 62% dos jovens de 18 a 24 anos entrevistados consideraram reduzir o consumo de álcool no último ano e devem seguir nesse propósito depois do carnaval.
Enquanto os millennials se preocupam com os impactos na saúde e na performance física, os jovens evitam o álcool pelo receio de perder o controle e serem julgados. Em resumo, ficar bêbado ou entorpecido não é mais cool.
Entre os argumentos aparecem o temor do julgamento de terceiros – uma característica emergente na geração Z, formada pela turminha nascida entre 1995 e 2009 – e a boa e velha ressaca moral.
O que esses dados podem nos dizer – mesmo não tendo rigor científico – quando trabalhamos com saúde mental, alcoolismo, compulsões e adicções?
Arrisco dizer que eles anunciam algo para além do importante enfrentamento às drogas e ao álcool. Eles trazem a possibilidade de um frescor, de uma nova onda, na busca por autoconhecimento e descobertas que desmistifiquem a trajetória ilusória do abuso de substâncias.
Talvez o que pensa a geração que já não considera tão cool o entorpecimento seja justamente a possibilidade de descoberta de pequenos traços de sentido nos momentos de sobriedade.
Freud já enunciava o entorpecimento como possível facilitador na busca por felicidade desenfreada do sujeito – uma das designações do paciente na perspectiva da psicanálise. Isso, em algum ponto, inevitavelmente falhava, quando enlaçada pelo retorno compulsivo.
Nós, profissionais de saúde, no combate ao abuso de álcool e de outras drogas, buscamos a desconstrução progressiva de uma condição doentia, muitas vezes também progressiva. É um trabalho de grande complexidade que passa por acolhimento, escuta e aprofundamento pessoal para que, sem beber, se encontre graça no mesmo episódio normalmente embalado pela bebida.
Ao contrário do que se imagina, nos casos em que o uso ultrapassa a recreação, o trajeto de saída não passa somente pela vontade de quem não consegue encontrar o ajuste. Passa pelo diálogo e pelo trabalho de uma equipe multidisciplinar. Passa também pelo aprofundamento e análise das raízes do comportamento compulsivo e obsessivo.
Ou seja, impõe trabalhar em soluções fornecidas por uma equipe multidisciplinar que perpassa a contenção da repetição do evento danoso, o ajuste necessário do corpo e da mente e a insistência no trabalho interno.
Há duas perspectivas fortes para o tratamento de adictos. A via da abstinência total – a via ideal – e a possibilidade de trabalhar com redução de danos – a via possível. Ambas podem quebrar o círculo vicioso e a escolha é mais que uma questão de orientação profissional. Demanda humanidade e entendimento do quanto aquele adicto suporta e que parte dos serviços de saúde chegam até ele.
O caminho da sobriedade absoluta ainda é o que se defende em termos de saúde biopsicossocial. Mas a via da redução de danos talvez seja um trajeto possível para que se adotem os cuidados mínimos que ajudem as pessoas a encontrar a felicidade de ser “careta”.
Deve-se tratar o sujeito a partir de um olhar em que o uso não parece configurar um adoecimento em si. Muitas vezes, o entorpecimento é um remédio solucionando o mal-estar que se verifica no laço social e na formação identitária.
Já para o caminho da prevenção, se a modinha diz que ser careta é cool, por que não aproveitá-la?
O dia 20 de fevereiro foi eleito como a data nacional contra o uso indiscriminado de álcool e outras drogas, questão de saúde que afeta milhões de pessoas e traz consigo prejuízos graves que atravessam o sujeito de forma biológica, psicológica e social.
Não à toa, a data coincide, na maioria das vezes, com o calendário do Carnaval, uma festa nacional em que tudo concorre para a liberação sem limites dos costumes. É um momento importante para essa reflexão porque quem sofre da doença da adicção pode e deve se divertir, desde que a sobriedade seja seu maior barato.
Fernando Simonetti é psicólogo pela PUCPR e bacharel em Direito pela Faculdade UniCuritiba. Sua caminhada prática na Psicologia se iniciou, ainda que não soubesse, logo após a primeira graduação. “Aos 22 concluí minha primeira formação, em Direito, e ainda que não pudesse imaginar cada passo decisivo que me traria até aqui, as experiências somadas ao longo do tempo fizeram com que me indagasse sobre meu lugar na vida profissional. Era no diálogo, na capacidade de organizar a palavra e a escrita, nas disciplinas chamadas propedêuticas, na filosofia e no questionamento que me sentia confortável e realizado. Outra parte das experiências que tive nesse período me deu a oportunidade de trabalhar com algo totalmente diferente. Pude conhecer na prática o sofrimento psíquico e o trabalho de profissionais que apreendiam a história de um sujeito para então ajudá-lo através da palavra. Ali soube definitivamente qual era o meu lugar. Doze anos depois do primeiro bacharelado, chego ao segundo certo sobre a minha contribuição para o mundo. A Psicologia em que acredito tem relação com o trabalho integral da pessoa, com o respeito e a ética irrenunciáveis na compreensão do que atravessa o sujeito e, principalmente, na capacidade de reconhecer o espaço do outro, respeitá-lo e conduzi-lo a um lugar mais seguro. O trabalho clínico que começo passa pela construção de um espaço acolhedor na escuta e operador da mudança através da elaboração da palavra. Sejam bem-vindos!”




3 comentários em “Caretas são felizes… Modinha pode prevenir doença da adicção?”
Agradeço por iluminar questões que, até então, não eram muito compreensíveis para mim.
Nos convida à reflexão. Excelente leitura
Parabéns por este convite à reflexão e pela sua entrega ao lugar de escuta.
Os comentários estão encerrado.