ANO IV

23/06/2026

HojePR

manoel

Case Pernambucanas

26/03/2026
pernambucanas

Um dos casos contemporâneos mais relevantes envolvendo empresas familiares no Brasil é o da Pernambucanas, tradicional rede varejista fundada em 1908. Ao longo de mais de um século, a empresa consolidou-se como uma das principais referências no setor, com forte capilaridade nacional e posicionamento voltado ao consumo das famílias brasileiras.

Apesar de sua trajetória sólida e longeva, o grupo enfrentou, a partir de 2016, uma crise de natureza essencialmente sucessória. Naquele ano, Anita Harley, herdeira e principal acionista da rede, sofreu um acidente vascular cerebral que a deixou incapacitada para a tomada de decisões. A ausência de definições claras sobre governança patrimonial, curatela e sucessão abriu espaço para disputas entre familiares, executivos e representantes legais acerca do controle dos bens e da gestão dos interesses envolvidos.

Com um patrimônio estimado em aproximadamente R$ 1,85 bilhão, a situação rapidamente evoluiu para uma complexa batalha judicial, envolvendo temas como herança, legitimidade familiar e autoridade decisória. O caso ultrapassou o âmbito privado e passou a impactar diretamente a esfera empresarial, afetando a confiança de fornecedores, a estabilidade da gestão executiva, o relacionamento com investidores e a reputação institucional da companhia.

A crise evidencia que, mesmo em organizações consolidadas, a ausência de instrumentos formais de planejamento sucessório e proteção patrimonial pode gerar vulnerabilidades significativas. Quando não há definição prévia sobre quem deve decidir em situações de incapacidade, nem sobre como os ativos devem ser organizados e transmitidos, cria-se um ambiente propício a conflitos prolongados e de difícil resolução.

É razoável supor que a adoção de mecanismos estruturados de governança poderia ter mitigado tais impactos. A definição antecipada de regras claras sobre sucessão, beneficiários e poderes de decisão tende a reduzir incertezas e evitar disputas judiciais.

Instrumentos como diretivas formais, acordos familiares e estruturas jurídicas adequadas poderiam ter conferido maior previsibilidade ao processo.

Adicionalmente, a instituição de um protocolo familiar permitiria alinhar expectativas entre os membros da família empresária, estabelecendo critérios objetivos para participação, tomada de decisão e resolução de conflitos. Esse tipo de instrumento contribui para separar, de forma mais clara, as esferas familiar, patrimonial e empresarial.

Outro elemento relevante seria a organização dos ativos por meio de estruturas societárias adequadas, como holdings patrimoniais, capazes de disciplinar a relação entre os diferentes núcleos familiares e facilitar a gestão do patrimônio ao longo do tempo.

Em síntese, o caso demonstra que a ausência de planejamento sucessório claro e juridicamente estruturado pode transformar situações de vulnerabilidade pessoal em crises institucionais de grande escala. Mais do que um episódio isolado, a experiência da
Pernambucanas reforça que a perenidade de empresas familiares depende da capacidade de antecipar cenários, definir regras e institucionalizar mecanismos que garantam continuidade, independentemente das circunstâncias individuais de seus membros.

Leia outras colunas do Manoel Knopfholz aqui.

Leia outras notícias no HojePR.
• Siga o HojePR no Instagram.