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ESCÂNDALO DO MASTER

Caso Master: como atuavam os servidores do Banco Central que recebiam ‘mesada’ de Vorcaro

05/03/2026

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O forte crescimento do Banco Master, de 2019 a 2025, só foi possível porque dentro do Banco Central havia dois servidores cooptados pelo banqueiro Daniel Vorcaro para ajudar a instituição financeira a burlar a fiscalização do órgão regulador.

Segundo a Polícia Federal, Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização, e Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão bancária, receberam “mesada” para trabalhar em conjunto como “consultores informais” do banco. Procurados, Souza e Santana não se manifestaram.

Dessa forma, enquanto deveriam vigiar e fiscalizar o Master, passaram a ajudá-lo a esconder inconsistências técnicas, contornar as regras e até atrasar o envio de documentos exigidos pela Polícia Federal durante as investigações. Eles chegaram a participar de um grupo de troca de mensagens para facilitar a comunicação direta com Vorcaro.

Ambos receberam recursos por meio de empresas de fachada usadas por Vorcaro, coordenadas pelo seu cunhado Fabiano Zettel: a Super Participações, de onde saíam os recursos, passando pela Varajo Consultoria Empresarial, que atuava como uma conta de passagem, até chegar às contas bancárias dos dois servidores.

Paulo Sérgio Neves de Souza

Na hierarquia entre os dois, Paulo Sérgio foi o que ocupou o cargo mais elevado durante boa parte de crescimento do Master. De 2017 a 2023, foi diretor de Fiscalização do Banco Central, um dos cargos mais altos da autarquia, a ponto de ter cadeira na diretoria colegiada do órgão e votar sobre a decisão da taxa básica de juros nas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom). Coube a ele assinar e recomendar para a cúpula do BC a autorização da transferência do então Banco Máxima para Daniel Vorcaro em 2019.

Foi nesse período em que Paulo Sérgio ocupava a Diretoria de Fiscalização que o Master deixou de ser um banco muito pequeno dentro do sistema financeiro e aumentou em 10 vezes o seu tamanho: saiu de R$ 3,5 bilhões em passivos, em 2019, para R$ 33,9 bilhões, em 2023. Os passivos, nesse caso, são um dado mais confiável, uma vez que os ativos eram em geral inflados artificialmente.

Esse crescimento já era baseado na emissão de Certificado de Depósitos Bancários (CDBs) com remuneração muito acima da praticada pelo mercado, e com a compra de ativos de baixa liquidez, como precatórios e ações de empresas com problemas, que depois eram reprecificados no balanço do banco para que ele permanecesse dentro das regras prudenciais do sistema financeiro brasileiro.

Quando deixou o cargo de diretor, em julho de 2023, Paulo Sérgio passou a ser chefe-adjunto do Departamento de Supervisão Bancária (Desup), subordinado à própria Diretoria de Fiscalização. Nesse momento, comunicou a Vorcaro sobre o novo cargo e recebeu como resposta “Parabéns”, segundo relatório da PF.

Assim, ele descia dois degraus na estrutura do órgão, mas passava, em compensação, a ter uma atuação mais próxima do balanço do Master, um banco ainda de pequeno porte e que não deveria ser objeto de maior atenção pelo primeiro escalão do BC, devido ao seu baixo risco sistêmico.

Segundo a PF, Paulo Sérgio mantinha interlocução direta com Vorcaro, prestando consultoria contínua ao banqueiro. Isso incluía orientações estratégicas sobre como o banco deveria se comportar em processos administrativos, revisão de documentos e minutas que seriam enviados ao BC e revisão de comunicados institucionais que seriam feitos pelo Master ao mercado financeiro.

A PF também aponta que ele buscava influenciar análises internas do Banco Central sobre o Master, e chegou a alertar Vorcaro sobre movimentações financeiras suspeitas que teriam sido descobertas pelo órgão regulador.

Internamente, Paulo Sérgio era a pessoa que mais defendia os números do banco, e chegou a ter discussões acaloradas com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, ao longo de 2025. Foi nesse período que o BRB fez uma proposta para a compra o Master, em março daquele ano, o que obrigou o BC a se debruçar sobre os números para avaliar o negócio.

Como Paulo Sérgio havia sido diretor de Fiscalização por seis anos, os seus posicionamentos tinham peso internamente, mesmo ele tendo caído na hierarquia do órgão. Por diversos momentos, ele fez defesas consideradas “desproporcionais” sobre o Master, mas que eram vistas como uma defesa do próprio trabalho, já que ele havia sido diretor de Fiscalização.

Segundo as investigações, além da mesada que recebia do Master, em valores ainda não revelados, ele também recebia favores indiretos. Quando Vorcaro soube que ele e a família fariam uma viagem à Disney, mandou providenciar “um guia para essas pessoas”.

Belline Santana

A atuação de Paulo Sérgio, mesmo tendo descido de cargo, contava com a ajuda de Belline Santana, que virou o seu chefe na Desup. Ambos passaram a responder a Ailton de Aquino, indicado por Lula para a Diretoria de Fiscalização, e que passou a receber informações dos subordinados cooptados pelo Master.

Aquino, quando começou a desconfiar dos dados, determinou a criação de uma outra equipe para se debruçar sobre a venda de carteiras de crédito por parte do Master. Em setembro de 2025, o Banco Central determinou que a Auditoria Interna (Audit) revisasse o trabalho feito pelo Departamento dos dois servidores.

Como mostrou o Estadão, Belline chegou a atrasar o envio de documentos exigidos pela Polícia Federal para embasar o pedido de prisão de Vorcaro, em novembro do ano passado. Só depois de ter sido alertado pelos investigadores de que poderia responder judicialmente é que ele repassou as informações.

De acordo com o PF, a atuação de Belline se assemelhava à de Paulo Sérgio. Ele prestava consultoria a Vorcaro, revisava documentos do Master e tinha encontros privados com o dono do banco fora das dependências do BC. Em diversas ocasiões, em vez da troca de mensagens, ele solicitava contato telefônico com o banqueiro sobre assuntos sensíveis para evitar registro das comunicações.

Belline também passou a receber uma “mesada”, por meio de contratos fictícios de prestação de consultoria. Em um deles, foi contratado pelo empresário Leonardo Palhares, administrador da Varajo Consultoria, para participar de um suposto projeto de elaboração de estudo técnico relacionado à inserção de jovens no mercado financeiro.

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