ANO IV

13/07/2026

HojePR

sergio

Christopher Marlowe

02/04/2026
marlowe

Dando sequência à série de biografias de artistas com vidas trágicas e mortes precoces, que tenho publicado nas primeiras quintas-feiras de cada mês, chegamos a Christopher Marlowe (batizado a 26 de fevereiro de 1564, e assassinado em 30 de maio de 1593). Em pesquisa na Enciclopédia Britânica, fiquei sabendo, entre outras coisas, que ele foi dramaturgo, poeta e tradutor e viveu no Período Elizabetano. É considerado o maior renovador da forma do teatro do período pela introdução dos versos brancos, estrutura que será empregada por Shakespeare, seu contemporâneo. Inclusive especula-se que ele seria o próprio, como uma segunda identidade, e senão for assim, pelo menos parece ter sido provado que terão trabalhado em conjunto na composição de algumas peças de teatro.

Por falar no bardo inglês, não perca o filme “Hamnet: a vida antes de Hamlet”. Premiado no Globo de Ouro 2026 como Melhor Filme de Drama e com oito indicação ao Oscar 2026, incluindo Melhor Filme e Melhor Atriz para Jessie Buckley (merecidamente ganho por ela). É uma produção dirigida por Chloé Zhao, que transforma um dos episódios menos documentados e mais sofridos da vida de William Shakespeare em um drama intimista, com foco na esposa do autor e em sua relação com a família.

Voltando a Christofer, ele era filho de John Marlowe, um mestre-artífice da guilda dos sapateiros, e Elizabeth Archer, filha de clérigo anglicano, e foi batizado em 26 de fevereiro de 1564 na cidade de Cantuária em Kent na Inglaterra, apenas dois meses mais velho que Shakespeare. Documentos locais que sobreviveram daquele período contêm inúmeras ocorrências acerca do que se supõe um comportamento agressivo de John. Essa personalidade irascível certamente foi passada adiante para Marlowe, uma vez que mais tarde o poeta viria a se envolver em uma série de conflitos violentos. Em 1589, por exemplo, Marlowe filho foi brevemente preso após um entrevero no qual um homem acabou morto. Tempos depois, foi novamente preso após uma briga de rua.

Restaram poucas informações relativamente à infância de Marlowe, mas é certo que, em 14 de janeiro de 1579, ele foi estudar na The King’s School da Cantuária. Kit Marlowe, como ele também era conhecido, recebia uma bolsa anual no valor de quatro libras, pagas a “jovens pobres, mas dotados de grande aptidão para aprender”. Durante o período em que frequentou a King’s School, Marlowe estudou sob a orientação de John Greeshop, então diretor da escola. Ali fez o bacharelado e o mestrado. Estudou teologia, os grandes teóricos do cristianismo, as características da igreja inglesa, além de latim, francês, grego e um pouco de direito e medicina. Um inventário da biblioteca de Greeshop, elaborado em 1580, oferece um vislumbre do material acadêmico apresentado a Marlowe na King’s School. Em meio a mais de 300 volumes, encontravam-se exemplares de Ovídio, Petrarca, Chaucer e Bocaccio.

A bolsa foi subvencionada pelo arcebispo da Cantuária Matthew Parker e condicionava o suporte à capacidade do candidato de demonstrar proficiência em gramática latina e talento para a poesia, além da capacidade de compor e cantar. Uma vez que Marlowe recebeu a única bolsa entre tantos candidatos, é possível ter uma ideia em relação às suas realizações acadêmicas.

Kit Marlowe aparece pela primeira vez nos registros de Cambridge por meio dos livros que detalham os gastos dos estudantes com comida e bebida, que sobreviveram desde aquele período. Esse documento indica que ele pode ter chegado à universidade em 10 de dezembro de 1580, em um sábado, embora sua matrícula tenha sido feita apenas em 17 de março de 1581. Marlowe recebeu seu Bachelor of Arts não muito mais tarde, em março de 1584, embora sem grandes distinções. Na ordem de formação, ele aparece como o 199º de 231 alunos. Após dar início a seu Master of Arts, em 1585, a frequência de Marlowe se tornou muito irregular e, devido a isto, a universidade não quis lhe dar o título de mestre. Foi então que a instituição recebeu uma carta formal do Conselho Privado da rainha Elizabeth I, ordenando que lhe concedessem tal título já que suas ausências se deram por conta de importantes serviços prestados à Coroa. Quais foram os serviços? Não se sabe ao certo, mas há algumas pistas. Nos últimos anos da universidade suas despesas com alimentação aumentaram significativamente, graças a uma renda inesperada. Acredita-se que essa renda extracurricular proviesse de atividades governamentais de espionagem para a Coroa inglesa.

Embora não haja consenso quanto à ordem cronológica da obra de Marlowe, há uma tradição estabelecida de que tenha começado em Cambridge, com as traduções das “Elegias de Ovídio” e dos poemas sombrios de Lucano. Saindo da universidade, já era conhecido como um grande poeta e tinha escrito “The Tragedy of Dido, Queen of Carthage” (A Tragédia de Dido, Rainha de Cartago), infelizmente uma peça perdida. Nesse período, mudou-se para Londres, onde escrevia suas peças para a companhia “The Admiral’s Men”. O primeiro empreendimento teatral exitoso de Marlowe foi o drama sobre ambição e conquista “Tamburlaine”, escrito em duas partes e baseado na vida do guerreiro e imperador mongol Tamerlão, o Grande. A data exata de sua elaboração é incerta, mas a primeira publicação da peça ocorreu em 1590, de modo que se estima ter sido a obra escrita por volta de 1587. Não existe o nome do autor em nenhuma edição da época e nenhuma referência a Marlowe, no entanto foi a comparação entre seus trabalhos que comprovou sua autoria.

O primeiro registro de montagem da peça remonta a 1587, tendo sido encenada pela trupe de teatro. Com o sucesso, sobrevieram as inúmeras controvérsias nas quais Marlowe se envolveu em seu curto período de atividade em Londres. Em 1588, por exemplo, o dramaturgo Robert Greene, invejoso da posição literária de prestígio alcançada por Kit, escreveu sobre o jovem autor:

“Eu tenho tomado [Marlowe] para mim com zombaria, pois eu não seria capaz de fazer meus versos jorrarem no palco daquela forma […], desafiando o próprio Deus como aquele Tamburlaine ateísta”.

Greene também se refere a Marlowe como um autor “blasfemando como aquele louco padre do sol”, possivelmente referindo-se a Giordano Bruno. E continua dizendo tratar-se Marlowe de um dos “loucos e zombadores poetas que têm o espírito profético da estirpe de Merlin”.

Também se tem notado que em tais ataques velados a Marlowe, invocando ateísmo e magia, Greene possa estar se baseando não apenas em “Tamburlaine”, como também na tragédia “Doctor Faustus”, cuja data de composição é incerta e de difícil precisão. O mais antigo registro de montagem da peça remonta a 30 de setembro de 1594, mais de um ano após a morte de Marlowe.

Originada de “A História do Dr. Fausto”, de Johann Spies, escrita por volta de 1587, “Dr. Fausto” de Marlowe é um marco literário. A peça teve um impacto importante na literatura, influenciando uma miríade de adaptações, incluindo a renomada versão de Goethe no século XIX. Esta peça de Marlowe, destacando-se como uma das interpretações mais influentes da lenda, é comparável apenas à de Goethe.

Sua carreira de dramaturgo durou apenas seis anos.

Morando na capital inglesa, levava uma vida de farras e brigas. Ocasionalmente tinha problemas com as autoridades por causa de seu comportamento violento e de má reputação. Para piorar a situação, eventualmente também se envolvia em tarefas a serviço de Walsinghan (chefe de espionagem inglesa).

Em 1589 foi acusado de assassinar William Bradley e passou duas semanas preso; julgado, ele foi inocentado do crime. Seu último problema com a lei foi o mais sério: Marlowe foi julgado por ateísmo e impiedade, acusações gravíssimas para a época. Thomas Kyd, que dividia moradia com Christopher, foi preso e também acusado de ateísmo por conta de uma série de documentos achados onde moravam. Sob tortura, Kyd confessou que tais documentos eram do amigo. Mas as piores acusações foram feitas por Richard Bains, um agente duplo de má fama, atribuindo-lhe uma série de práticas que implicavam em traição, homossexualidade e heresia. Bains disse ter conseguido notas feitas por Marlowe para serem apresentadas em uma “conferência ateísta”, um grupo de livres pensadores. O caso foi julgado em 1593 e Christopher foi inocentado, provavelmente pelo fato de ter amigos importantes, como Thomas Walsingham.

Ainda no que concerne às atividades de espionagem, especula-se que Marlowe seria um acadêmico de nome “Morley”, cujas atividades envolviam a de preceptor de Arbella Stuart. “Morley” (uma das diferentes grafias utilizadas para se referirem a Marlowe em sua época) foi descrito pela guardiã legal de Arbella, a Condessa de Shrewsbury, como alguém que esperava o pagamento de £40 (quarenta libras) pelos seus trabalhos com Arbella, uma vez que ele se encontrava em desgraça desde que deixara a universidade. A Condessa declarou que ele tomava conta da pequena Arbella já fazia três anos, mas que era um acadêmico de atitudes suspeitas, possivelmente um simpatizante papista, o que converge para as circunstâncias sabidas a respeito de Marlowe. A possibilidade de que esse “Morley” tenha sido Marlowe foi levantada pela primeira vez pelo periódico literário Times Literary Supplement e posteriormente foi sustentada também por John Baker em um jornal acadêmico intitulado Notes and Queries. Segundo Baker, apenas Marlowe poderia ser esse “Morley” mencionado, dada a falta de documentação que indique a existência de outro “Morley” naquela ocasião, que, acima de tudo, possuísse o grau de Master of Arts. Se Marlowe realmente serviu como tutor de Arbella, então é possível que tenha agido na condição de agente secreto. Arbella era sobrinha de Mary, Rainha da Escócia e de James VI da Escócia, mais tarde Rei James I da Inglaterra, e a menina era uma forte candidata à sucessão ao trono de Elizabeth I.

No verão de 1589, Kit Marlowe e o poeta Thomas Watson viviam juntos em Norton Folgate, nos subúrbios de Shoreditch, na região central de Londres, onde também vivia o jovem e recém-chegado à cidade Wiliam Shakespeare. Na tarde de 18 de setembro daquele ano, Marlowe veio a altercar-se com um William Bradley usando espadas e adagas. Aparentemente a contenda envolvia Bradley e Watson, pois que à vista de Watson, Bradley lhe teria gritado: “Só agora você vem? Então vou lutar com você”. Nesse ínterim, contudo, Bradley foi morto; Kit e Watson foram detidos pelo condestável local, que os enviou à prisão de Newgate. Após o devido inquérito, concluiu-se que Marlowe agiu em estado de legítima defesa, sendo ele logo posto em liberdade a 1º de outubro daquele ano, sob a prestação de caução no valor de £ 40 libras (o mesmo valor que o acadêmico “Morley” exigiu, na mesma época, da cuidadora de Arbella Stuart, como foi mencionado no parágrafo anterior).

Durante esses doze dias em que esteve preso em Newgate, Marlowe parece ter travado contato com certo John Poole, um católico preso sob a suspeita de que falsificava moedas. Mais tarde, Marlowe seria acusado pelo agente duplo Richard Baines da prática de falsificação de moedas junto com John Poole. E, de fato, Kit veio a ser preso em 1592 na cidade de Flessingue, na Holanda, acusado de estar envolvido na cunhagem ilegal de moedas. Ele foi deportado para a Inglaterra e enviado para o conselheiro da Rainha, Sir William Cecil, o 1º Barão de Burghley. Contudo, não lhe foi aplicada nenhuma punição, tampouco lhe sobrevieram consequências dos crimes a ele imputados, embora fosse grave a pena para os crimes envolvendo falsificação de moedas.

Em 30 de maio de 1593, o dramaturgo passou o dia em uma taverna em Deptford na companhia de três amigos: Ingram Frizer, Nicholas Skeres e Robert Poley. Depois de horas de diversão, Marlowe e Frizer começaram uma discussão por causa da conta. Foi aí que Christopher sacou um punhal da bainha de seu amigo e o atacou causando alguns ferimentos em Frizer, que teria lhe tomado a arma e o atacado na cabeça. Provavelmente o golpe acertou um dos olhos de Marlowe, o que o matou imediatamente. Marlowe tinha 29 anos, e até hoje ninguém tem uma alternativa “verdadeira” para o estranho episódio de sua morte.

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