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É possível disparar alertas de previsão de chuva, mas não dá para antecipar o volume exato de precipitação, mesmo com todos os avanços tecnológicos da meteorologia. Isso é o que aponta José Antonio Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), órgão ligado ao Ministério da Ciência.
Segundo o pesquisador, as mudanças climáticas impulsionam episódios como o de Juiz de Fora e Ubá, onde houve pelo menos 23 mortes por causa do temporal, mas é a ocupação irregular de encostas e beiras de rio que contribui para as tragédias.
“Parece que os governos não consultam a ciência ou não têm memória de que nessas áreas deveria se pensar duas vezes antes de construir”, disse Marengo ao Estadão.
O que aconteceu em Juiz de Fora pode ter a ver com as mudanças climáticas?
Chuvas intensas como as que geraram o desastre em Juiz de Fora são eventos típicos da variabilidade natural do clima. Ainda estamos no verão e as chuvas nessa região são esperadas. O problema foi o volume. Estudos mostram que, com a tendência do aquecimento global, os extremos estão aumentando. Para São Paulo e Rio, por exemplo, já sabemos que esses extremos de chuva têm aumentado de frequência e intensidade. Estamos vendo isso lá (em Juiz de Fora) agora. Obviamente isso aumenta também o risco de desastres.
Em todo lugar do mundo o aumento da temperatura acelera o ciclo hidrológico, ou seja, os ventos passam a ser mais intensos e as frentes frias mais rápidas. A tendência de chuvas extremas se observa em todo lugar. Em São Paulo, por exemplo, a partir dos anos 2000 os volumes de chuva praticamente quadruplicaram quando você compara com as décadas de 60 e 70. Além do aquecimento global, também temos os efeitos da urbanização, das ilhas de calor, toda uma conjunção de fatores que podem determinar esse aumento na frequência de chuvas.
Então desastres como este agora são inevitáveis?
As chuvas fazem parte do risco de desastre, mas temos que falar também da vulnerabilidade da população, da exposição ao risco. Quando se tem áreas que foram muito urbanizadas, com o solo exposto, qualquer chuvinha faz com que o solo sature. Fazer uma previsão meteorológica do volume exato de chuva em qualquer área do mundo, incluindo Juiz de Fora, é praticamente impossível. Você prevê 100 milímetros em uma área, mas pode chover 200 e ali ter uma encosta habitada. É quando acontece um desastre.
A cidade não estava preparada para tanta chuva?
Não tem cidade preparada para esse tipo de desastre. Aconteceu em Petrópolis em 2022, em que a parte baixa foi afetada por inundações de córregos e a parte alta por deslizamentos de terra. O volume de chuva que caiu não foi o previsto. A gente acerta que vai chover, mas não exatamente quanto vai chover, não só no Brasil, mas em todo mundo. Se a chuva cai em áreas vulneráveis, perto de morro, com solo encharcado, qualquer chuvinha faz com que tudo venha abaixo. Isso aconteceu em Juiz de Fora e as pessoas morreram. A chuva tem potencial, mas o que aumenta o risco de tragédia são justamente moradias em áreas de risco, em áreas perto de córregos e de morros. Esses morros e encostas estão ocupados, muitas vezes irregularmente, mas também regularmente. As prefeituras não deveriam permitir a ocupação de encostas. Aparentemente, as prefeituras não escutam porque têm de cobrar IPTU de alguém.
Esses desastres têm se repetido. O que pode ser feito?
Realmente, os governos muitas vezes acham que, gastando milhões resolvem, mas não resolve, porque continuam construindo em área de risco. Em janeiro de 2011 algumas áreas foram destruídas em Petrópolis. Em 2022, as casas tinham sido reconstruídas no mesmo lugar e voltaram a ser destruídas, 11 anos depois. Parece que os governos não consultam a ciência ou não têm memória de que nessa área deveria se pensar duas vezes antes de construir. Se fosse num mundo perfeito, se não construíssemos em áreas de risco, se a população não estivesse exposta e se houvesse rotas de fuga para todas as pessoas, inclusive deficientes, o impacto seria menor. Na situação atual, a ameaça, a vulnerabilidade e a exposição ao risco estão aumentando. E aí vêm desastres como este de Juiz de Fora, como em São Sebastião em 2023, como Porto Alegre em 2024, como Petrópolis e Recife em 2022. Ou seja, além dos aumentos no risco de acontecerem chuvas extremas, estamos vendo também aumento na vulnerabilidade. Por mais que a Cemaden emita alertas do risco de desastre, pessoas continuam morrendo. É algo que não depende só do clima. Depende também de gerenciamento de desastres que envolve outros setores da gestão.
Falta tecnologia para prevermos melhor esses fenômenos?
O clima é como um paciente. Só de olhar, você não pode dizer se ele vai morrer ou não. É preciso avaliar o histórico, monitorar os sinais vitais e, depois de conhecer o presente, você pode pensar no futuro. Nós temos a tecnologia no Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), no Cemaden, no Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), mas os modelos são limitados. Não há previsão 100% correta no sentido de que a chuva seja exatamente como se previu. Isso é algo que todos os meteorologistas no Brasil e lá fora nunca vão acertar. Podemos prever quando e que vai chover muito, pois o modelo diz, e emitir os alertas. Quanto exatamente de chuva vai cair não sabemos. Na atmosfera há sempre um componente de caos que, mesmo com radares e sensores, não podemos prever. Com o que prevemos, os serviços meteorológicos emitem alertas para a população. Então a melhor forma é estarmos preparados para o que vier.



