ANO IV

13/07/2026

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R$ 3,3 milhões em Macallan pela harmonia da República

10/03/2026
macallan

Há quem diga que a República brasileira atravessa tempos difíceis. Eu discordo. Difícil mesmo seria atravessar esses tempos sem um bom whisky escocês para ajudar a reflexão institucional.

Felizmente, nossos homens de Estado, sempre atentos à liturgia do cargo, encontraram uma solução civilizatória para enfrentar os dilemas da nação: uma degustação de Macallan.

Não qualquer Macallan, claro. Estamos falando de um dos whiskies mais prestigiados do mundo, aquele tipo de bebida que costuma aparecer em vitrines de duty free com preços capazes de provocar tontura antes mesmo do primeiro gole.

Dependendo da versão, o Macallan pode custar entre R$ 800 e R$ 5 mil a garrafa. É o tipo de produto que vem acompanhado de palavras como “single malt”, “barricas selecionadas” e “maturação paciente”, conceitos que aparentemente também ajudam na maturação de relações institucionais.

Segundo revelou o site Poder360, que cruzou duas fontes bastante interessantes, os dados do celular de Daniel Vorcaro e os registros da sessão secreta realizada pelo STF em 12 de fevereiro para discutir o afastamento de Dias Toffoli da relatoria do caso Master, existiu um pequeno encontro regado à civilização líquida escocesa.

Pequeno apenas em número de convidados. No resto, foi um evento digno da diplomacia internacional.

A anotação encontrada indica a contratação de um “serviço de degustação Macallan no George Club”. Até aí, tudo bem. O problema é o preço da degustação: US$ 640.831,88.

Convertendo pelo câmbio da época, chegamos a algo em torno de R$ 3,3 milhões.

Sorry periferia, eu disse três milhões e trezentos mil reais em whisky.

É o tipo de número que faz qualquer apreciador de cachaça olhar para o copo e refletir sobre suas escolhas de vida.

Mas não sejamos injustos. Numa reunião dessa magnitude institucional, não se poderia esperar que as autoridades brasileiras fossem submetidas a bebidas menores.

Imagine a cena: ministros do STF, chefe da Polícia Federal, procurador-geral da República e presidente da Câmara sendo obrigados a beber um destilado nacional qualquer no bar de um hotel em Cabrobó da Serra.

Seria um constrangimento diplomático. Muito melhor manter o padrão europeu.

Entre os agraciados com as generosas doses de Macallan estavam Alexandre de Moraes, ministro do STF; Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal; Benedito Gonçalves, do STJ; Dias Toffoli, também do STF; Paulo Gonet, procurador-geral da República; Hugo Motta, presidente da Câmara; Ricardo Lewandowski, então ministro da Justiça; além do anfitrião da confraria etílico-institucional, Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, acompanhado de seu advogado Ciro Soares.

Um encontro que poderia muito bem ser descrito como um seminário informal sobre governança nacional com apoio líquido escocês.

Aliás, o próprio ministro Alexandre de Moraes fez questão de registrar o episódio durante uma sessão secreta do Supremo.

Wait a minute! Minha dúvida é legítima: por que secreta? Havia gelo demais na ata?

Continuando, diz o ministro Moraes: “Nesse encontro [em Londres], vários estávamos lá. Eu estava lá. Andrei Rodrigues estava lá. Depois fomos todos juntos a um pub, tomamos Macallan.”

Uma cena quase bucólica.

Magistrados, autoridades e banqueiros caminhando juntos por Londres em busca de um pub. A democracia brasileira, ao que tudo indica, também aprecia um bom single malt depois do expediente.

Outro detalhe curioso é que o evento contou com a firme condução institucional do ministro Moraes. O magistrado determinou que o empresário Joesley Batista, da J&F, fosse “bloqueado” do encontro. Vorcaro, diligente, levou a determinação à organização do fórum.

Trocando em miúdos, até a lista de convidados de uma degustação privada de whisky escocês contou com intervenção judicial.

A independência entre os poderes, como se vê, pode ser complexa. Mas a harmonia etílica parece funcionar perfeitamente.

Agora, antes que alguém se exalte, é importante esclarecer uma coisa: não somos nós, tomadores de pinga da República, que escolhemos esses personagens.

Ministros do STF e do STJ não passam pelo constrangimento vulgar das urnas. Eles são selecionados em ambientes muito mais sofisticados. Salas reservadas, conversas discretas e criteriosas sabatinas no Congresso Nacional, sempre conduzidas com aquela profundidade investigativa que caracteriza nosso Parlamento.

Provavelmente também acompanhadas de um bom whisky.

Portanto, não nos cabe reclamar.

Se há uma confraria institucional capaz de reunir banqueiros, chefes da Polícia Federal, ministros do Supremo, procuradores e presidentes da Câmara em torno de um single malt de milhões de reais, devemos reconhecer que o país alcançou um nível avançado de integração entre poderes.

Afinal, poucos países conseguem transformar uma degustação de whisky em um verdadeiro pacto federativo líquido.

E se alguém ainda achar estranho que autoridades públicas participem de encontros regados a Macallan financiado por um banqueiro investigado, é preciso lembrar que o Brasil sempre valorizou o diálogo.

Especialmente quando ele vem acompanhado de gelo, barricas escocesas e uma conta de R$ 3,3 milhões.

Saúde.

Ou, como se diz em Edimburgo: slàinte.

Ah, antes que eu me esqueça, que tal o Brasil começar a pensar em eleger seus ministros do STF e do STJ ao invés de aceitar que eles sejam escolhidos apenas pelos belos olhos ou por serem boas companhias para tomar umas doses de whisky? Pensemos!

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