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25/06/2026

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O fim do Museu Paranaense

23/12/2025

O Museu Paranaense (MP) tal qual o conhecíamos não existe mais. É urgente pensar em soluções e alternativas para a exibição e pesquisa de seu incomparável acervo de objetos históricos.

Embora formalmente ainda exista, na prática, o Museu Paranaense foi tão desfigurado em suas funções, atribuições e responsabilidades que é como se não existisse mais. Anteriormente o Museu se destinava a propor uma interpretação da História do Paraná, abrangendo o período coberto pelos primórdios da ocupação humana até a Guerra do Contestado.

A exposição original se iniciava com o descritivo das culturas indígenas Kaingang, Xokleng e Guarani; apresentava a globalização econômica proporcionada pelas Grandes Navegações do início da Era Moderna; exibia representações das Missões Jesuíticas que se instalaram no Paraná Espanhol na época dos Impérios Ibéricos; reconstituía a Vida Material e Econômica no tempo do Ciclo da Erva-Mate; interpretava a ligação entre as Elites Econômicas e o Tropeirismo; refletia sobre a escravidão e a Emancipação Política do Paraná no século XIX; contextualizava o surgimento das Elites Urbanas; descrevia o impacto da Revolução Federalista e da Questão do Contestado; estabelecia nexos entre o surgimento das Ferrovias e o processo de Urbanização; oferecia biografias de políticos locais; destacava a produção cultural e artística paranaense em um Salão dedicado à Música e as Artes.

A atual gestão converteu o MP original no atual MUPA, ou UMPA dependendo de como se lê a sigla da nova instituição. Na prática o lugar foi convertido em mais um museu de arte. Faz sentido então pensar a nova sigla como se referindo a um Museu Paranaense de Arte. Se for mesmo esse o caso o MUPA se soma aos há tempos já existentes museus de arte em Curitiba cuja longa lista inclui o Museu de Arte Contemporânea, Museu de Arte Indígena, Museu de Arte Sacra, Museu da Gravura, Museu Municipal de Arte, Museu Alfredo Andersen, Museu de Arte da UFPR, Museu Metropolitano de Arte e o Museu Oscar Niemeyer. Objetivamente perdemos nosso único Museu Histórico para ganhar um décimo museu de arte na capital.

A arte ali exposta, contudo, muito pouco ou nada tem de paranaense. Nos anos recentes o público do MUPA foi contemplado com exposições do tipo “Como fazer um buraco em uma pedra com uma colher” composta por 500 colheres, uma pedra e uma marreta; uma obra com o processo de cura do sabão utilizando 200 litros de óleo de fritura de reuso; corte e costura de placas de chumbo com fios de cobre; espelhos, luzes, alto-falantes e camadas de vidros superpostos entre livros, sons e objetos; duas flechas de cobre que sustentam uma pedra de minério de ferro; a sobreposição de autorretratos com imagens de mulheres negras do século XIX; uma fotografia da Copa do Mundo de 1966 com parte da seleção brasileira cumprimentando o ministro dos esportes da Inglaterra; uma mão robótica que aplica fundamentos de mecânica, eletrônica e programação; uma demonstração de dança que combina estilos do passinho com referências da capoeira e do pagode; objetos artesanais e/ou cotidianos de autoria desconhecida ou registro impreciso, reunidos de forma puramente aleatória.

De todas as exposições a pior e mais nefasta é, certamente, a de cerâmicas produzidas em oficinas com o público com objetos moldados pelo artista e peças do acervo histórico do museu como fragmentos de sambaquis e de telhas. Faz tempo a atual direção do MUPA tem se dedicado a favorecer as obras de arte mais incompreensíveis, estapafúrdias e de mau gosto desde que estejam – supostamente – em diálogo com o acervo do museu. No caso citado, são as próprias peças do acervo histórico do museu que se converteram em parte de alguma dessas criações artísticas.

O fato é que o antigo MP se tornou uma entidade estranha e incômoda para o atual MUPA. Seu magnífico acervo de mais de 370 mil peças históricas, incluindo oito mil do antigo Acervo Davi Carneiro, não tem utilidade para a atual direção. A constatação é que o acervo do MP deve ser retirado do atual MUPA, uma vez que este foi desfigurado de forma irreversível para se converter em um novo Museu Paranaense de Arte.

A questão que se coloca é onde então se poderia preservar, pesquisar e expor este acervo. Um local capaz de abrigar e fazer reviver o antigo MP seria o prédio histórico da Agência Central dos Correios no centro de Curitiba. Trata-se de edifício conhecido como o Correio Velho, atualmente subtilizado. Este imponente e histórico edifício localizado próximo à Praça Santos Andrade poderia abrigar o acervo histórico do MP fazendo reviver o antigo Museu Paranaense.

O acervo Davi Carneiro merece um espaço específico. É importante notar que o pretendido Memorial Davi Carneiro se perdeu totalmente. O que deveria ser o memorial instalado no que restou do outrora magnífico imóvel histórico, se converteu inicialmente em mera loja de souvenires e agora é apenas uma passagem para pedestres acessarem um centro de convenções. O incomparável e imenso acervo do Museu David Carneiro segue em sua maioria encaixotado no extinto MP à espera de um espaço adequado de exposição. Seria oportuno que o poder público estadual destinasse o abandonado e subutilizado espaço da Casa Andrade Muricy para sede do novo Museu David Carneiro.


Dennison de Oliveira é Professor Sênior no Mestrado Profissional em Ensino de História da UFPR e organizador da obra “Memorial do Museu Paranaense” para baixar clique aqui.

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3 comentários em “O fim do Museu Paranaense”

  1. Tudo o que o articulista relatou é muito lamentável; é desastroso que o MP esteja reduzido a essa coisa que descreveu. Pergunto-me como se degradam as coisas a esse ponto; causa-me espécie o quão carece de entendimento, de critério, de elevação, de capacidade, quem nega, na prática, o que há de ser um museu de história. O tal ex-Memorial David Carneiro é outra demonstração de miséria administrativa.

    • concordo, com você Arthur e com o autor do artigo, o grande problema ,é que hoje as gestões , não são gestões , o gestor que assume um museu deveria manter, melhorar, e gerir, mas o que acontece em praticamente todos os museus estatais e municipais, é isto, o novo diretor ou diretora, entra , e imediatamente começa a implementar seu gosto pessoal, suas idéias, por mais estapáfurdias que sejam, para começo de conversa, colocar alguém que não é da área ,nem da museologia, nem sequer da área da historia para gerir um ” de história”, já é um fato preocupante, é como colocar um padeiro, para gerenciar a seção de obras de uma prefeitura, toda cidade tem um problema semelhante em seus museus, no museu de onde vivo, a pessoa (diretor(a) , se acha um déspota , dono do acervo ,do imóvel, e tem feito o que quer , não segue protocolos museológicos, ou seja dane-se o acervo , então caros leitores ,o que fazer, reclamar para quem os que deveriam fiscalizar os museus……….., então estes dito diretores ,estes que deveriam gerenciar ,transmutam um museu de história em um museu de arte psicodélica , isso que estamos presenciando, e todos os beneficiados , que orbitam o ” gestor(a)” já reclamam de qualquer critica , mesmo verdadeira e justo, claro são os interesses e seus gostos que estao espelhados naquele museus , então qualquer critica , vai gerar ódio , indignação, e o usual neste tipo de pessoas, ditas cultas mas que perdem rapidinho a compustura, para defender seus interesses e gostos, como disse . pobre museu, mas calma um dia , a gestão acaba, e tudo isso desaparecerá. Vai dar trabalho reviver o Museu, mas Viva ao tempo que passa, um dia tudo passa, e essas gestões serão esquecidas.

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