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23/06/2024

ernani buchmann

Alto nível publicitário

publicidade

Os anos 1970 levaram para a publicidade paranaense um punhado de jovens de boa formação intelectual, com vocação para a escrita. À época, não conseguiam sobreviver com dignidade em outras profissões. O mercado de propaganda estava em crescimento e tratou de arregimentar aquela turma da pesada.

É verdade que alguns redatores de qualidade já haviam passado pela publicidade, casos de Maurício Távora (autor do premiado anúncio “Sabe o que um salva-vidas faz por você? Nada”) e Walmor Marcelino (“Relógio que atrasa não adianta”).

Os textos dos novos criativos passaram a ser vitrine de diversas agências curitibanas – e londrinenses, onde despontou o talento de Domingos Pellegrini Júnior, o Dinho, na Engenho de Valduir Pagani.

A Equipe Propaganda descobriu Fábio Campana, depois transferido para a Exclam. A P.A.Z. levou Paulo Vitola, que trazia a tiracolo Paulo Leminski, recém retornado do Rio de Janeiro.

Foi quando nasceu a Múltipla, escorada na criatividade dos redatores Gilberto Ricardo dos Santos e Luiz Carlos Zanoni. Na Praça Osório, a uma quadra de distância, estava a Lema, com Ruy Werneck de Capistrano. Na esquina da Rua XV com Marechal Floriano ficava a Umuarama, agência do Bamerindus, que tinha Sérgio Mercer como redator.

A dois passos dali, a Opus, onde despontava Jamil Snege, mais tarde convocado pela Múltipla e substituído por Almir Feijó. Sérgio Malluf também passou por lá e pela Múltipla, antes de montar a Clipp.

O carioca Fernando Nogueira (“A Véia”) surgiu com rapidez no mercado curitibano e foi levado para a Exclam, onde foi um dos criadores (com César Marchesini e direção de criação minha) da campanha de lançamento do freezer Prosdócimo, alguns anos mais tarde.

O interessante é que, na então longínqua Avenida Presidente Kennedy, na sobreloja do Supermercado Jumbo, funcionava a agência responsável pelo varejo da loja. A criação era encabeçada por Alice Ruiz, única mulher naquele universo masculino. Na década seguinte, surgiu a Ângela, na Umuarama. E depois vieram diversas outras.

Eram pessoas muito diferentes entre si, embora com alguns pontos em comum. Dos 14, onze enveredaram pelos contos, poesia, crônicas ou críticas de cinema: Almir, Dinho, Fábio, Vitola, Leminski, Jamil, Alice, Werneck, Fernando, Zanoni e eu temos obras publicadas, o que demonstra que os objetivos daqueles redatores estavam na literatura, não na propaganda. Apenas Mercer, Gilberto e Malluf não tiveram livros publicados. Domingos, Leminski, Jamil e Alice tornaram-se nomes de referência no universo literário nacional.

A visão política também variava muito, embora todos fossem militantes pela liberdade. Fábio e Fernando foram presos políticos e levavam com eles os traumas da violência da repressão. E todos resistiam com a única arma de que dispunham, a palavra.

Não se pode esquecer que tudo o que criavam não era obra solitária. Sem os competentes diretores de arte nada daquilo ficaria redondo. O genial Miran, Zeno José Otto, Desidério Pansera, Bira Menezes, Néslio Pinheiro, Solda e outros transformavam os textos em peças publicitárias de alto padrão.

Mais ainda: todos tinham sobre si o guarda-chuva de ótimos gestores, como Hiram de Souza, Pier Máximo Nota, José Dionísio Rodrigues, Norberto Castilho, Arnaldo Del Monte, Renato Mazanek e o grande João Carlos Bemvenutti, o mais criativo profissional de atendimento da publicidade brasileira.

Da minha parte, cabe dizer que naquela década passei pela Associados, P.A.Z. e Múltipla, antes de virar diretor-executivo da Fundação Cultural de Curitiba e abandonar a publicidade por alguns anos. Trabalhei com quase todos, tanto redatores como diretores de arte. Tive sorte de estar no lugar certo na hora certa. E, como destacado no livro de Paulo Vitola, fizemos história, em um ramo que mudou de rumo e hoje já tão tem o glamour que possuía.

Era um verdadeiro ninho de cobras, de tal forma que nem tenho vergonha de me incluir entre tantos craques. Almir, Fábio, Mercer, Leminski, Jamil, Fernando e Gilberto já não estão mais por aqui. Nós, os demais, seguimos resistindo, curtindo uma saudade danada daqueles amigos endiabrados de tanto talento.

Leia outras colunas do Ernani Buchmann aqui.

1 Comentário

  • Saudades da propaganda criativa daquela época. Parabéns a todos relembrados e aos não lembrados, como o Marcel Leite e o Nilson Muller. E parabéns a você, Ernâni, por resgatar essa memória maravilhosa.

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