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19/04/2024



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As maravilhas dos Campos Gerais

 As maravilhas dos Campos Gerais

Há algum tempo fui visitado por um sujeito vindo de outra região brasileira, dando-se ares professorais, como quem vinha se radicar no Paraná para distribuir ensinamentos aos pobres locais. “Esta terra não tem história”, garantiu-me.

 

Resolvi rebatê-lo com palavras educadas, ainda que o primeiro impulso tenha sido o de mandá-lo às favas. Com toda a paciência que nem sempre me ilumina, fui expondo a ele os aspectos que fazem do Paraná uma terra com tanta história quanto o estado de onde ele vinha.

 

Nunca tivemos a opulência gerada pela fartura do ouro, posto que aqui ele se mostrou escasso, mas soubemos valorizar as lições dos povos originários, na culinária e nos fármacos. Aqui foram instaladas as reduções jesuíticas, inclusive a Cuidad Real del Guayrá, parte do império espanhol. Já ouviu falar do Padre Ruiz de Montoya e de sua obra Tesoro de la Lengua Guarani, senhor?

 

Não, não tinha conhecimento, como também nunca tinha ouvido referência a Don Alvar Nuñez Cabeza de Vaca. Sabia, no entanto, que Dr. Faivre era nome de rua em Curitiba, mas desconhecia a Colônia Tereza Cristina, nas nascentes do Ivaí, criada pelo médico francês. Enchia a boca para falar de Canudos, embora desconhecesse os dados que fizeram do Contestado uma tragédia do porte daquela descrita por Euclydes da Cunha.

 

Contei a ele sobre a saga dos tropeiros, a importância dos Campos Gerais para a invernada do gado – e eis que me confessou jamais ter ouvido a palavra “invernada”. Ainda descrevi a questão dos limites, a revolta dos posseiros e a guerra de Porecatu.

 

Sou admirador inveterado dos Campos Gerais. Da riqueza geológica da escarpa devoniana aos campos verdes que compõem sua paisagem, a região está entre as mais atrativas e diversificadas do país. Certa vez viajei com dois executivos da Bélgica, de Curitiba a Jacarezinho. No trecho entre Piraí do Sul e Ventania, em dia de muita cerração, eu os vi embasbacados com a paisagem, para eles semelhante às highlands escocesas. Já estavam extasiados com Vila Velha e Carambeí, onde se sentiram entre seus vizinhos holandeses.

 

A história da região é riquíssima, como pude esclarecer aos belgas, mais interessados em aprender do que aquele brasileiro perdido em seu desconhecimento enciclopédico. Não por acaso Ponta Grossa tornou-se o maior entroncamento ferroviário do sul brasileiro, em virtude de sua localização estratégica. Na cidade foi inviabilizado o avanço de Gumercindo Saraiva e sua tropa de predadores, pondo fim à Revolução Federalista. Anos mais tarde, encarapitado em um vagão, Getúlio Vargas pronunciou ali seu primeiro discurso como líder vitorioso da Revolução de 30.

 

Não deixei de contar sobre a estrada de ferro e sua conturbada construção, as belas estações de Ponta Grossa, o desenvolvimento proporcionado aos municípios lindeiros, a importância histórica de Castro e a pujança econômica de Jaguariaíva, graças às indústrias Matarazzo, e também creditada à chegada dos trens.

 

Ficaram bem impressionados com o que viram, mas devo confessar: do que mais gostaram foi, na viagem de volta, o almoço no Restaurante Expedicionário do Cogo. Jamais tinham tido oportunidade de apreciar carne tão saborosa. Fartaram-se pela Bélgica, Holanda e Luxemburgo.

 

O Paraná, os Campos Gerais e sua gente têm atrações de toda ordem, capazes de apaixonar pessoas vindas dos mais distantes do planeta – embora haja conterrâneo brasileiro que os ignore. Assim, considero ter todo o direito de enviar àquele fajuto catedrático o link desta crônica e ficarei satisfeito se a obra servir para iluminar seu bestunto, digamos assim.

 

Leia outras colunas do Ernani Buchmann aqui.

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