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23/06/2024

ernani buchmann

Sanduiche de mortadela

mortadela

Já não sei em que ano foi, são décadas desde então. Eu tinha uns 14, 15 anos. Saímos pouco depois das 7h da manhã e fomos chegar às três da tarde na fazenda do sujeito casado com minha avó. E olha que o ônibus não quebrou: aguentou firme aquelas estradinhas.

Era um solavanco só, mas a gente se acostumava. O que não dava para suportar eram as paradas. O motorista não podia ver alguém ao lado da estrada que já ia encostando o pinga-pinga. Também não passava direto por qualquer lugarejo que fosse, parava em todos. E repetia seu mantra:

– Temo cinco minuto!

Eu levava um farnel, preparado por minha mãe. Dinheiro curto, para economizar ela tinha preparado um sanduíche de mortadela. Sentei junto da janela. Ao meu lado, uma senhora e o capeta do seu filho.

Com as janelas do ônibus fechadas por causa da poeira, o cheiro de mortadela começou a se espalhar. Foi o suficiente para o menino berrar:

– Estou com fome de sanduíche de mortadela!

A mulher tentava despistar, eu fazia de conta que não era comigo. O menino insistia no berreiro:

– Bolacha, não. Quero sanduíche de mortadela!

Confesso que consegui resistir durante bom tempo, até que o olhar de censura dos passageiros ficou mais forte que o cheiro do sanduíche. Cedi, abrindo a mochila:

– Para o seu filho, minha senhora.

Trinta segundos depois, tudo o que havia restado do meu farnel era o resistente aroma de mortadela no ar.

Quando o ônibus parou em frente ao portão da fazenda, desejei um bom restante de viagem a todos e pulei para a terra firme. Deu tempo de ouvir o conselho do motorista:

– Da próxima vez, traga pão com manteiga!

Tive vontade de xingá-lo pelos próximos “cinco minuto”, mas deixei pra lá.

As viagens de antigamente eram muito, digamos, saborosas.

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