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23/06/2024

Voos noturnos

voo

Confesso ter saudades do tempo em que um jato a serviço dos Correios nos acordava ali pelas 4h ou 5h da madrugada. Passava rasante, descendo a Brigadeiro Franco na contramão em sua rota ao Afonso Pena.

 

Era confortante, sinal de que o mundo continuava funcionando e não precisávamos nos preocupar. A melhor coisa a fazer era virar de lado e tentar dormir mais umas duas horas, antes do irritante alarme do despertador nos trazer de volta à vida.

 

A verdade é que o pessoal responsável pelos horários de aviões aprecia as noites. Todo mundo tem histórias de partidas e chegadas em plena madrugada, o que pode ser cansativo – embora, muitas vezes, interessante.

 

Em 1957 meus avós maternos levaram seu neto mais velho, eu em pessoa, a uma emocionante viagem de DC-3 a Joaçaba, saindo às 6h da manhã, o dia raiando. O país tinha poucas estradas e o avião, depois dos seres humanos terem esquadrinhado o território pátrio a pé e, mais tarde, em lombo de animais, representava a melhor possibilidade de viajar de forma decente, sem poeira, sem buracos, sem carros que enguiçavam. Mas é de se admirar que houvesse linha aérea direta entre Curitiba e Joaçaba.

 

Foi naquela cidade, empoleirada nos morros do vale do Rio do Peixe, que descobri a datilografia. Explico; meu tio-avô tinha uma oficina de consertos de máquinas de escrever em uma ampla sala do sobrado em que morava. Ali encontrei um tesouro, aquela sucessão de máquinas disponíveis para uma criança de nove anos batucar as teclas com dois dedos. Ganhar uma daquelas passou a ser meu sonho, realizado 11 anos mais tarde, em Garanhuns, no interior de Pernambuco, por obra do meu pai, responsável por me presentear com uma Olivetti Lettera 22, acompanhada da recomendação:

 

– Já que você quer ser escritor, estou te dando a ferramenta.

 

Ainda tenho aquela máquina, sem uso há uns 30 anos, guardada em um ponto cego da biblioteca de casa.

 

O problema é que esta crônica se desviou das viagens aéreas madrugantes e devo voltar a elas. Na década passada, fui chamado por alguns empresários de Boa Vista, Roraima, para montar um jornal diário na cidade. Passei a viajar a cada 15 dias para lá. Saía de Curitiba no fim da tarde de quinta-feira, para chegar em Boa Vista às 5h da madrugada do dia seguinte. Tomava banho, dormia duas ou três horas e saía para cumprir as tarefas que me exigiam. A volta era às 6h da manhã do domingo, para chegar em casa às 15h, na melhor das hipóteses.

 

Cada voo trazia uma surpresa. Viajei ao lado de uma criança sem camisa, embarcada em Manaus, a tremer tanto de frio que abri a mala e de lá saquei uma camiseta que lhe dei, antes que tivesse hipotermia.

 

Outra vez, em um pequeno avião do governo local, cheio de jornalistas correspondentes de jornais como Estadão, O Globo, Folha de São Paulo, a porta abriu em seguida à decolagem. Um então índio – naquela época eles eram chamados assim -, que havia embarcado de carona na pista da reserva Raposa da Serra do Sol, pulou de seu assento e puxou a porta, sob aplausos dos jornalistas e gritaria completa das coleguinhas.

 

Acontece que este voo ocorreu durante o dia e não tem nada a ver com o título desta crônica.

 

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