Qualquer pessoa que trabalha com Cultura sabe que a Poesia é a mais marginalizada das Artes. Enquanto um músico recebe um cachê ínfimo para tocar nos bares da vida, um poeta ganha, no máximo dois chopes para recitar num sarau. E sempre foi assim, esta história vem de muito longe. Para comprovar, basta lermos a biografia de François Villon, pseudônimo de François de Montcorbier ou François des Loges (nascido em Paris, 1432 e desaparecido em 1463). Sua vida, marcada por escândalos, prisões e uma criatividade incendiária, ecoa nos versos ousados que o consagraram como um dos maiores poetas da Idade Média. Ladrão, boêmio e bêbado, é considerado padrinho dos poetas malditos.
As únicas fontes de informação sobre Villon que chegaram até nossos dias são, além de seus próprios escritos, seis documentos administrativos referentes a seus processos (descobertos por Marcel Schwob no fim do século XIX). Deste modo, é preciso separar cuidadosamente os fatos verídicos de sua vida das lendas criadas a seu respeito, muitas vezes favorecidas pelas interpretações que ele mesmo fazia como ator de suas peças. Nascido órfão de pai, é enviado, por razões desconhecidas, para ser criado por Guillaume de Villon, de Saint-Benoît-le-Bétourné, que se tornará mais que um pai para François e o mandará estudar na Faculdade de Artes de Paris para que ele se tornasse um clérigo. Villon cresceu em meio à efervescência social e política de uma França em reconstrução após a Guerra dos Cem Anos contra a Inglaterra. Em 1452, torna-se mestre em artes, nesta época conturbada onde um grande número de diplomados vivia na miséria. Logo começa a ter problemas com a polícia, no fundo causados pela decisão do rei Carlos VII, que resolve suspender os cursos da faculdade entre 1453 e 1454. Villon se desencanta pelos estudos e passa a viver em aventura. Sobre esse período, ele relata, mais tarde, em seu Testamento (tradução minha):
Mas como assim?! Eu fugi da escola
Como um fedelho malcriado
Com estas palavras na sacola
E um coração quase quebrado!
Em 1455, envolve-se numa briga e fere mortalmente o padre Philippe Sermoise, acredita-se que por uma rivalidade amorosa. Ferido nos lábios, Villon é obrigado a fugir de Paris. Graças ao seu status de pertencer ao clero, a sua ficha limpa anterior e ao perdão que obtém de Sermoise em seu leito de morte, consegue autorização para retornar em 1456. Neste mesmo ano, na noite de Natal, participa de um roubo no colégio de Navarre com alguns conhecidos, furtando um cofre repleto de moedas de ouro.
Antes de fugir, Villon compõe “Le Lais”, como um presente de adeus a seus amigos, anunciando sua intenção de seguir para Angers, deixando claro que sua fuga teria sido causada por um desespero amoroso. Um de seus amigos, Guy Tabarie, é preso e entrega a participação de Villon no caso do roubo, confirmando ainda a intenção deste em fazer um novo furto. Não há informações a seguir sobre seu paradeiro, mas certamente prosseguiu sua marcha pelo vale do Loire. Visitei este lugar magnífico há uns 20 anos atrás, inclusive a última morada de Leonardo Da Vinci, sem saber que Villon percorrera quase os mesmos caminhos. É visto novamente em Blois, estando aí provavelmente desde dezembro de 1457, na corte de Carlos, Duque d’Orleães, príncipe-poeta e mais tarde pai de Luís XII de França. No manuscrito onde Carlos registra seus poemas e de sua corte, encontram-se três poemas assinados por Villon. O mais longo deles celebra o nascimento de Marie d’Orléans em 19 de dezembro de 1457, filha de Carlos e Marie de Clèves. Este manuscrito ainda contém a “Ballade des contradictions” e a “Ballade franco-latine”, uma sátira de Fredet, o favorito de Carlos. Isso faz com que ele seja acusado de mentiroso e expulso da corte de Blois.
Em outubro/novembro de 1458, Villon tenta em vão retomar o contato com seu antigo mecenas, aproveitando de sua vinda a Vendôme para assistir à condenação por traição de seu genro Jean II d’Alençon. Ele faz com que sejam entregues, a Carlos, a “Ballade des proverbes” e a “Ballade des Menus Propos”, mas não é recebido de volta à corte. Encontra-se, a seguir, preso por razões obscuras durante o verão de 1461 na prisão de Meung-sur-Loire, onde provavelmente compôs o “Épître à ses amis” e o “Débat du cuer et du corps de Villon”. É libertado alguns meses mais tarde durante uma visita de Luís XII em companhia de Carlos de Orleães à cidade e, neste meio tempo, perde sua ligação com o clero. Compõe, então, a “Ballade contre les ennemis de la France” com o interesse de chamar a atenção do rei sobre este fato, assim como “Requeste au prince”, a Carlos d’Orléans. Como os dois rejeitam seu pedido, decide voltar para Paris.
Pode ter composto a “Ballade du bon Conseil” neste retorno a Paris, mostrando-se como um delinquente regenerado, e depois a “Ballade de Fortune”, que exprime sua decepção com o universo parisiense dos letrados, que o rejeita. Aparentemente, é nesse período de andanças pela capital francesa que ele teria escrito sua obra-prima “Le testament”. É preso novamente em 2 de novembro de 1462 por um roubo insignificante e processado pelo caso anterior do roubo no colégio. Obtém a liberdade sob condição de reembolsar a sua parte no roubo, 120 libras, uma quantia considerável para a época. Este período de liberdade tem curta duração. No fim do mesmo mês, Villon se envolve em uma briga na qual um notário da igreja que participara do interrogatório de Guy Tabarie é ferido. Ao que parece, seu amigo Robin Dogis teria provocado os homens do clero, enquanto Villon tentava separar a briga. Villon é preso no dia seguinte. Desta vez, ele não pôde escapar da justiça: perde seu estatuto clerical, sofre, na prisão, a tortura da água e é condenado à forca.
Enquanto aguarda, em sua cela, a decisão do parlamento de Paris, diante do qual ele apresenta uma apelação da sentença, escreve o “Quatrain” e a “Ballade des pendus” (Balada dos enforcados), poemas que não têm um registro preciso, mas que costumam ser ligados a esse momento dominado pelo medo. Mas Villon tem sorte mais uma vez: em 5 de janeiro de 1463, a pena é reduzida a 10 anos de banimento da cidade graças, mais uma vez, à ação de seu padrasto. Ele escreve, então, a balada jocosa “Question au clerc du guichet” e o grandiloquente poema “Louange à la cour”, seu último texto conhecido. Nesse dia, sai da prisão e, a partir de então, não existem mais traços deixados por ele, restando apenas sua lenda.
No curto período de 32 anos, Villon viveu a maior parte como um verdadeiro marginal, percorrendo tavernas, vielas e prisões da França. Sua existência boêmia e conturbada aparece refletida na poesia carregada de ironia, lirismo e crítica social. É considerado o precursor dos chamados “poetas malditos”, aqueles que, séculos depois, como Baudelaire e Rimbaud, também viveriam à margem das convenções.
O legado literário de Villon é relativamente pequeno, mas de valor inestimável. Suas principais obras são o “Le Lais” (O Legado), escrito em 1456, e o “Le Grand Testament” (O Grande Testamento), de 1461. Nelas, Villon alterna versos de humor negro, confissões de miséria e medos, canções de amor e sátiras mordazes à sociedade de sua época. Sua poesia mistura francês popular e erudito, explorando jogos de palavras, trocadilhos e o ritmo coloquial da fala das ruas.
Apesar de seu sumiço precoce, sua obra sobreviveu, sendo redescoberta e celebrada por diversos escritores e estudiosos ao longo dos séculos, provando que, mesmo nas margens, pode florescer a genialidade.
Em 15 de junho de 2022, Alex Castro escreveu a interessante matéria “François Villon, poeta maldito medieval”, de onde selecionei alguns trechos:
“François Villon é o grande poeta lírico francês da Idade Média, e um dos maiores poetas do mundo. Era jovem, beberrão, criminoso, desesperançado. Nascido em 1432, foi preso por homicídio, quase enforcado, solto e, então, aos 32 anos, desaparece.
“Ele passa da sátira burlesca ao pathos cristão sem piscar, e parece conter em si a soma de toda a potência da vida humana, inclusive da nossa, aqui, hoje, mas ainda em um contexto reconhecível como cristão medieval. Nenhum outro poeta da época consegue se comunicar conosco com tanta intimidade e urgência.
“Assim como Rabelais, nascido pouco depois de seu desaparecimento, Villon também representa esse momento de virada revolucionária da Idade Média ao Renascimento: ao mesmo tempo em que ainda medieval em seus temas e formas, ele já era, por sua individualidade pulsante, renascentista. (Não à toa é repetidas vezes citado em Gargantua e Pantagruel.)
“Seus temas refletem a fascinação crescente com a morte que caracteriza a atmosfera cultural cada vez mais mórbida do final da Idade Média. Villon é canônico porque, como todo grande artista, continua se comunicando e dialogando com as novas gerações. Nos séculos XIX e XX, foi apropriado por poetas tão distintos como Rimbaud, Pound e Augusto de Campos, e reinterpretado seja como poeta maldito avant la lettre, seja como precursor dos modernistas e concretistas do XX.”
Para finalizar uma das baladas de François Villon:
Balada da Gorda Margô
Se eu amo e sirvo a dona de bom grado,
Tomar-me-ão por vil, paspalho e tudo?
Ela dá conta de qualquer recado,
Por seu amor cinjo punhal e escudo.
Quando vem gente, eu me despacho, grudo
Um pichel de vinho e me viro na moita, não
Sem dar água, queijo, fruta e pão.
Digo (se pagam bem): “Nomine Figlii,
E voltem sempre às ordens do tesão,
A este bordel, que é o nosso domicílio!”
Não tarda muito, e eis-me de humor amargo,
Se sem dinheiro ela me vem pro quarto:
Não a suporto, quero vê-la morta:
Faço a pilhagem nos seus quatro trapos
E juro me pagar por conta e encargo.
Pego-a por trás e ela: “Anticristo!”
– Jura por Nosso Senhor Jesus Cristo
Que não dará. Passo a mão num porrete
E lhe gravo na estampa um bom lembrete,
Neste bordel, que é o nosso domicílio.
Mas vem a paz, e ela me vem com um bruto
Peido, mais venenoso do que um bafo
De onça. Rindo, me acerta um squiafo no
Coco, diz: “Vem, filhote”, e abre o pernão.
Então, dormimos como um pau, briacos.
Margô desperta, o ventre lhe ronrona,
E monta em mim: desatrofia o anão,
De milho em milho me debulha o saco.
De tanto putear, fico na lona,
Neste bordel, que é o nosso domicílio.
Tenho o pão quente – vente, chova ou neve.
Sou putanheiro e puta não faz greve:
Quem vale mais, se não se vê a mais leve
Diferença de brilho – se a tal mãe, tal filho?!
Amor ao lixo – e o lixo vem atrás;
Desprezo à honra – e a honra é mais voraz,
Neste bordel, que é o nosso domicílio.
(tradução: Décio Pignatari.)
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