ANO IV

13/07/2026

HojePR

sergio

Gig Tripping

11/12/2025

parque das pedreirasParque das Pedreiras Jaime Lerner

Quem aqui já ouviu falar de gig tripping? No entanto, o termo, que une as palavras gig (show) e tripping (viajar), já é corrente em diversos países — e o Brasil entrou na lista, de acordo com o Ministério do Turismo. “Gig tripping” é o ato de planejar uma viagem a fim de participar de shows, festivais e turnês de grandes artistas musicais. Eventos recentes mostram que a atividade está se tornando tendência e tem grande potencial para movimentar o setor de turismo. Para ter uma noção da importância deste movimento, a turnê “Eras Tour”, de Taylor Swift se tornou a primeira da história a ultrapassar a marca de US$ 1 bilhão em arrecadação, segundo o Federal Reserve dos Estados Unidos.
“Esse montante não é apenas um recorde financeiro, mas espelho de como grandes eventos podem estimular economias regionais. Em cidades como Filadélfia (EUA), a turnê foi apontada como fator importante para a recuperação do setor hoteleiro, demonstrando como pode tracionar crescimento econômico”, destaca Rômulo Vieira, gerente de Inteligência e Estratégia de Marca da agência “Jaé Fresh”.

No Brasil, o fenômeno não é diferente, como se pode ler na matéria “Brasil vive boom de shows e festivais, mas crescimento ainda esbarra na renda”, escrita por Jota Wagner, em 27 de setembro de 2025, no portal UOL:

“Se você tropeçar atualmente em algum canto de São Paulo, cai de boca em um show ou festival. Artistas nacionais, gringos que vão de astros do rap a independentes dos anos 90, é agenda de espetáculos musicais para tudo quanto é lado — e muitos deles com ingressos totalmente vendidos. O Brasil atravessa uma época única na quantidade de opções em shows, e uma pesquisa recente, divulgada pela Associação Nacional da Indústria da Música (ANAFIMA), confirma a impressão empírica que cada um de nós tem, enquanto consulta o saldo da conta bancária para descobrir um jeito de comprar tanto ingresso.

“Segundo o estudo, divulgado na feira Conecta+ Música & Mercado (que rolou entre 18 e 21 de setembro, em SP), o mercado brasileiro (o nono no ranking mundial) atingiu níveis recorde de faturamento no ano passado, totalizando 116 bilhões de reais. Isso significa 1% do PIB nacional. O dado mais relevante do fechamento é justamente a representatividade do segmento de shows e festivais no bolo: 86% do faz-me-rir vem da venda de ingressos, movimentando toda uma cadeia de profissionais que vão de artistas a técnicos de som e funcionários de casas noturnas.

“Apesar do número bojudo, executivos da música acreditam que ainda há muito a crescer. Para isso, baseiam-se em dados de comportamento e consumo comparativo com os países que estão na frente. Segundo levantamento do instituto especializado em estatísticas de música IFPI, cada estadunidense ou inglês por exemplo, gasta dez vezes mais dinheiro com música do que um habitante do Brasil.

“Somos musicalmente mais burros? Não mesmo. É importante lembrar que cada cidadão desses países também ganha dez vezes mais do que gente. Portanto, o departamento estatístico informal do Music Non Stop refez a conta: quanto o brasileiro, em porcentagem da renda média per capita anual, gasta com música em relação aos países que estão acima da gente? A resposta: 0,5% do que ganha. Praticamente o mesmo de Estados Unidos, Inglaterra e Japão e Alemanha (todos variando entre 0,4% e 0,8%), cruzando estudos sobre a renda anual média do cidadão e os dados da IFPI.

“Portanto, aumentar o tamanho do mercado da música no Brasil, como anseiam todos os envolvidos, depende, necessariamente, de melhorarmos como país. Para ir a um show, antes é preciso comer, estudar, vestir-se e ter um teto decente para morar. Os músicos, produtores de show e festivais e, principalmente, o público, estão fazendo a sua parte, amando e consumindo música.”

Durante os primeiros oito meses de 2025, o Paraná recebeu cerca de 764.638 visitantes estrangeiros, um aumento de 23% em relação ao mesmo período de 2024, quando foram registrados 621.705 viajantes. A Embratur e o Ministério do Turismo afirmam que há uma crescente atratividade dos destinos paranaenses, que em agosto de 2025 receberam 53.931 turistas internacionais. No ranking nacional de destinos que mais recebem pessoas de outros países, o Paraná ocupa a quarta posição, atrás de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, seguido por Santa Catarina e Bahia.

O Governo do Paraná parece ter acordado para as oportunidades oferecidas pelo gig tripping e anunciou em 21 de outubro os nomes das atrações do Verão Maior Paraná 2026. São cinco finais de semana seguidos de espetáculos gratuitos, de 9 de janeiro a 8 de fevereiro. Entre as novidades estão shows nas quintas-feiras, atrações internacionais e palcos que devem ser maiores do que no ano passado. Os shows acontecerão nas praias de Matinhos e Pontal do Paraná e terão transmissão do SBT, Band, TVCI, Banda B e TV Paraná Turismo para todo o Brasil.

Entre as atrações estão Alok, Ana Castela, Belo, Zé Neto e Cristiano, Luan Pereira, Atitude 67, Roupa Nova, Paralamas do Sucesso, Jeito Moleque, Raça Negra, Hugo & Guilherme, Zezé di Camargo & Luciano, entre outros. As bandas internacionais são Gipsy Kings, da França, e Inner Circle, da Jamaica. Nada que me interesse, mas gosto não se discute e, com certeza as praias ficarão lotadas. A expectativa é de reunir um público superior ao da última edição, que atraiu mais de 1,8 milhão de pessoas.

Os artistas paranaenses, sempre relegados a um segundo plano, vão se apresentar nos palcos Sunset que serão montados em Caiobá, Guaratuba e Shangri-lá (Litoral), e nas cidades de Porto Rico e Porto São José (em São Pedro do Paraná), no noroeste do Estado. Segundo a Secretaria da Cultura, a seleção dos 50 artistas foi feita por meio de chamamento público, garantindo transparência e incentivo à diversidade da cena local. Na edição do Verão Maior Paraná do ano passado, 49 artistas paranaenses (claro que recebendo cachês muito menores do que os de fora) se apresentaram nos palcos Sunset e reuniram mais de 43 mil pessoas.

“O Verão Maior é um grande encontro entre cultura, turismo, esporte e desenvolvimento regional. Os palcos Sunset têm aquele show do fim de tarde, depois de aproveitar a praia. É uma oportunidade de valorizarmos o talento dos nossos artistas e de aproximar o público da arte feita no Paraná”, destacou a secretária de Estado da Cultura, Luciana Casagrande Pereira. De acordo com Luciana, a cultura tem um papel estratégico na economia do Paraná. “Cada show, oficina ou ação cultural movimenta uma ampla cadeia produtiva: do artista aos técnicos, do comércio local ao turismo. O Verão Maior é exemplo de que investir em cultura é investir em emprego, renda e desenvolvimento sustentável”, complementou.

Na última edição, o programa gerou impacto econômico de R$ 152,9 milhões no PIB estadual, segundo o Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes). Foram 2.335 empregos diretos e indiretos, com acréscimo de R$ 64,6 milhões na massa salarial e R$ 13 milhões em arrecadação adicional de ICMS – resultados de um investimento de R$ 128 milhões em programação e infraestrutura nas regiões do Litoral e Noroeste.

Curitiba também vive um aquecimento no setor turístico, com o lazer sendo o principal motivo das viagens à cidade, ultrapassando os negócios. De acordo com a Pesquisa de Demanda Turística de 2024, publicada em agosto de 2025 pelo Instituto Municipal de Turismo, 33,3% dos viajantes vieram para descansar, realizar atividades de lazer e passear, enquanto 24% viajaram a negócios.

Essa motivação está relacionada às atrações musicais que já ocorreram e ainda estão por vir. Em 2025, Curitiba já recebeu mais de 40 shows de grande porte. O diretor do hotel NH Collection Curitiba, Antonio Albuquerque, destaca que, no mês de setembro, o hotel teve um crescimento de 11% de hóspedes alinhados à tendência de gig tripping, que viajaram por conta das performances internacionais realizadas em Curitiba. “Nossa taxa média de ocupação em dias de show é de 85%. Normalmente, os check-ins ocorrem no dia do evento e os check-outs, um dia depois. Dessa forma, é possível determinar uma média de quartos que serão reservados e o tempo médio de permanência, o que permite uma organização antecipada para atender à alta demanda.”

No dia 5 de novembro deste ano, a banda de rock americana Linkin Park apresentou no Brasil o primeiro de três shows que fez no país com a turnê From Zero Tour. A cidade escolhida para a primeira apresentação atesta uma peculiar e recente mudança no eixo Rio-São Paulo que era regra do mercado de shows internacionais: o grupo se apresentou em Curitiba, antes de ir para a capital paulista e para Brasília. Rio de Janeiro e Porto Alegre, destinos tradicionais para receber shows gringos ficaram de fora da agenda. Em março deste ano, algo parecido aconteceu. A artista pop Olivia Rodrigo escolheu Curitiba para receber o seu primeiro e único show solo no Brasil (vi com meus próprios olhos as gigantescas filas de garotas adolescentes para entrar no Couto Pereira), o outro foi no festival Lollapalooza, em São Paulo. Foo Fighters, Red Hot Chilli Peppers, David Gilmour Alanis Morissette, David Bowie, Ramones, Iron Maiden, Guns ’n’ Roses, Paul McCartney, Katy Perry, Avril Lavigne e Elton John são alguns dos artistas que marcaram presença aqui nos últimos anos e refletiram a transformação que fez de Curitiba um chamariz dos grandes eventos musicais.

A virada não foi por acaso. O segredo do sucesso foi a redução do ISS (Imposto sobre Serviços) de 5% para 2% para eventos culturais de várias naturezas, segundo projeto de lei de 2017. Assim, se tornou mais barato para as produtoras levarem seus shows à cidade. A Pedreira Paulo Leminski foi um importante agente na redução do ISS. O local surgiu de uma grande reforma em uma pedreira abandonada ainda na década de 1980, durante a gestão de Jaime Lerner. Inaugurada em 1990, tem área de 103,5 mil m² e capacidade para cerca de 25 mil pessoas, sendo o maior espaço para espetáculos ao ar livre da América Latina. Foi fechada, devido a uma ação pública, na segunda metade da década de 1990 e reaberta apenas em 2012, com a intenção de tornar o local uma potência para shows de pequeno, médio e grande porte.

“Diante desse movimento que se iniciou em 2012, nós começamos a ver quais seriam as ações importantes para sensibilizar ainda mais o mercado. Fomos até o prefeito na época, Rafael Greca, e expusemos a importância dessa questão. Levamos informações sobre como abrir mão desses 3% do ISS que foi reduzido, sobre o impacto enorme que teria na economia”, afirma Hélio Pimentel, CEO do Parque das Pedreiras Jaime Lerner.

Com isso, acabamos atraindo turistas de toda a região Sul e do Paraguai para assistir às turnês internacionais. O curitibano, que é o consumidor final desses esforços, também está se interessando mais por shows: no último ano, 40% da população curitibana foi frequentadora desses eventos.

“A praça de Curitiba ganha relevância devido à sua situação estrutural e econômica. Temos uma população apta a consumir esses artistas e uma logística na cidade que é bem estruturada, facilitando transporte e acesso”, dizem Renato Kobbi, Diretor de Negócios e Henrique Aguiar, Gerente de Negócios do Estádio Couto Pereira.

Vejam só como iniciativas simples podem alavancar o turismo e o setor cultural de Curitiba. Imaginem se festivais locais de sucesso a exemplo do Pschyco Carnival e o Festival De Inverno recebessem uma verba de auxílio da Fundação Cultural: como o fenômeno das gig trippings poderia aumentar o faturamento do setor de serviços e a arrecadação de impostos de nossa cidade.

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