
Guillaume Apollinaire (1880-1918), pseudônimo de Guglielmo Alberto Wladimiro Alessandro Apollinare de Kostrowitzky, foi um poeta, ficcionista, ensaísta e crítico de origem polonesa. Nascido em Roma, era filho da condessa polaca Angelica Kostrowicka e de um pai desconhecido (suspeita-se de um aristocrata suíço-italiano chamado Francesco Flugi d’Aspermont). Apollinaire foi um dos principais inovadores da poesia do século XX, aproximando-se de vários movimentos de vanguarda artística.
Passa seus primeiros anos entre Roma, Mônaco, Nice, Cannes, Baratier e Lyon. A partir dos vinte e dois anos de idade, passou a ser um dos membros mais populares do bairro artístico parisiense de Montparnasse. Foram seus amigos e colaboradores Pablo Picasso, Max Jacob, André Salmon, Marie Laurencin, André Derain, Blaise Cendrars, Pierre Reverdy, Jean Cocteau, Erik Satie, Ossip Zadkine, Marcel Duchamp, Giorgio de Chirico, entre muitos outros.
Entre 1902 e 1907, trabalhou como empregado de bancos e começou a publicar contos e poemas em revistas. Em 1907, conhece a artista plástica Marie Laurecin, com quem terá uma tumultuada relação. É por essa época que decide viver de seus escritos. No começo de 1907, publica anonimamente “As Onze Mil Varas”. Em 1909, foi a vez do seu primeiro livro oficial: “O Encantador em Putrefação”, baseado na lenda de Merlin e Viviane. No mesmo ano, se dispõe a publicar uma antologia dos textos do Marquês de Sade, bem de acordo com uma característica sua que chocava os adeptos da tradição francesa: o fascínio pelo romance libertino. Assim, foi o responsável pela introdução na cena literária francesa do início do século dos “livros malditos” de Sade, que até então era um escritor praticamente desconhecido. Na apresentação da edição, escreveu um longo ensaio biográfico no qual se referia a Sade como “o espírito mais livre que já existiu no mundo”.
Em setembro de 1911, quando já era reconhecido como um dos poetas mais importantes da vanguarda parisiense, Apollinaire é acusado de cumplicidade no roubo de uma obra do Museu do Louvre, nada menos que a Mona Lisa de Leonardo da Vinci, roubo no qual Pablo Picasso, também já muito famoso, foi igualmente implicado. Ele é preso durante uma semana e depois liberado. Esta experiência seria marcante em sua vida. Aos olhos dos defensores das tradições clássicas, que se aproveitaram da situação para denunciar “atos de barbárie” dos estrangeiros contra a cultura nacional, pouco importava a inocência de Apollinaire no caso, visto que ele era acusado de atentar contra os valores da civilização, acusação esta estendida a outros estrangeiros radicados em Paris, como Pablo Picasso, Gertrude Stein e Stravinski.
Em 1913, Apollinaire publica “Álcoois”, coletânea de seus trabalhos poéticos desde 1898. Sua poesia dispensava a pontuação e a tipografia regular. Voltava-se para uma temática cosmopolita, na qual incluía novidades técnicas como o avião, o telefone, o rádio e a fotografia.
Em agosto de 1914, ele tenta alistar-se nas Forças Armadas Francesas, sem sucesso, visto que não possuía a nacionalidade francesa. Em dezembro de 1914, repete a tentativa, sendo aceito e iniciando seu processo de naturalização. Pouco antes de ingressar efetivamente nas Forças Armadas, conhece e se apaixona por Louise de Coligny-Châtillon, chamada por ele de “Lou”. É uma jovem divorciada com um estilo de vida livre, que não esconde do poeta sua ligação com um homem por ela chamado de “Toutou”. Ele dedicará à moça vários de seus poemas (veja um deles no final deste artigo). Quando Apollinaire parte para o campo de batalha, uma correspondência de uma poesia notável nasce dessa relação. Ambos rompem em 1915, prometendo continuar amigos.
Em janeiro de 1915, Apollinaire conhece Madeleine Pagès num trem, de quem ficará noivo em agosto daquele mesmo ano. Mas em abril de 1915, ele parte com o regimento de artilharia de campo N.° 38 para a frente da batalha. Em março de 1916, é naturalizado francês, sendo que naquele mesmo mês é ferido gravemente na cabeça. Após longa convalescença, volta gradativamente ao trabalho. Em junho de 1917, sua peça “Les Mamelles de Tirésias”, drama surrealista mesclando desespero com humor e escrita durante sua recuperação do ferimento, é encenada. Ele também publicou um manifesto artístico chamado “L’Esprit Noveau Et Les Poétes”. Em 1918, publica os famosos “Calligrammes”, poemas gráficos sobre a paz e a guerra de notável lirismo visual. Casa com Jacqueline, a “bela russa” do poema “La Joulie Rousse”, que publicará muitas de suas obras póstumas.
Morreu jovem com apenas 38 anos de idade, em 9 de novembro de 1918, vítima da gripe espanhola, doença pandêmica que também chegou ao Brasil. Foi enterrado no cemitério de Père-Lachaise em Paris, tendo o seu túmulo uma escultura em forma de menir feita por Picasso. Claro que muito menos visitada do que a cova rasa de Jim Morrison, habitante do mesmo cemitério.
Sua obra literária e crítica anunciava os princípios de uma nova estética que tinha como fundamento a ruptura com os valores do passado. Ainda em 1913, apareceu o ensaio crítico “Os pintores cubistas”, em defesa do novo movimento como superação do realismo. Também foi autor de importantes manifestos futuristas e inventor, conforme comentários dos artistas contemporâneos reconhecidos por Breton, do termo surrealismo, para descrever a última das vanguardas do início do século XX.
O poeta, escritor e tradutor paranaense Rodrigo Garcia Lopes organizou, traduziu e escreveu a introdução de uma antologia bilíngue da obra de Apollinaire, intitulada “Zona e outros poemas”, lançada em 2024 pela editora Penguin-Companhia. Esta antologia reúne uma seleção de poemas do autor, apresentando diferentes fases de sua carreira, incluindo os famosos caligramas. Aqui transcrevo alguns trechos da inspirada introdução de Garcia Lopes:
Apollinaire: o anjo da vanguarda
“Você é um homem-época.”
“Assim o compositor e escritor Alberto Savinio definiu, em 1916, Guillaume Apollinaire, um dos principais poetas do século XX e hoje um dos mais populares da França. De fato, não há como falar de poesia francesa e modernista, de movimentos de vanguarda internacional na pintura e na literatura, de revolução e experimentação verbal, sem mencionar Apollinaire. Como escreve Paul Auster, ele, mais do que qualquer outro artista de seu tempo, parece incorporar as aspirações estéticas da primeira parte do século XX. Em sua poesia, que vai de graciosos poemas líricos até corajosos experimentos, da rima ao verso livre aos poemas “figurados”, ele manifesta uma nova sensibilidade, ao mesmo tempo tributária das formas do passado e entusiasmadamente confortável no mundo dos automóveis, aeroplanos e do cinema.
“Instalado em Paris, então com quase 3 milhões de habitantes, ele abraçou com entusiasmo a aventura da modernidade e nela se fundiu, questionando e tensionando a relação entre arte e realidade, concentrando todo o espírito de mudança daquele período mágico e efervescente: a belle époque (1871-1914). Uma era de relativa paz, de euforia e otimismo, da segunda revolução industrial, do auge do imperialismo, expansão colonial, nacionalismos e começo da globalização… Múltiplas possibilidades surgiam desse estado de coisas. Ele estava atento a todas, capturando-as para sua própria obra.
“Como descreve Roger Cardinal, “em seu apogeu, à beira da Grande Guerra Mundial, Guillaume Apollinaire era como uma aranha inquieta no centro de uma teia cosmopolita, monitorando ciosamente cada tremor de novidade através do mapa cultural e, por sua vez, projetando uma influência irresistível sobre a vanguarda internacional”.
“… Obviamente, Apollinaire e a vanguarda encontraram forte oposição, não só dos defensores da tradição quanto do público em geral, ainda presos aos cânones do passado (classicismo, romantismo e simbolismo). Organizando exposições, fazendo crítica de arte (ele preferia o termo escritor de arte), em contato com artistas de outros países e agitando a vida cultural parisiense, o poeta foi o principal crítico a firmar as reputações de Picasso, Braque, Delaunay e uma pletora de artistas. “Apollinaire se destaca como o mais magistral inovador em uma geração febrilmente devotada à experimentação não porque suas ideias fossem as mais originais, mas porque ele tinha o gênio criativo de transformar conceitos estéticos que estavam em circulação em uma poesia poderosa e atraente”, escreve com propriedade S. I. Lockerbie.
““Central entre todas essas ideias estéticas estava a noção de que a obra de arte moderna devia refletir de modo adequado a natureza global da consciência contemporânea.”
“É preciso dizer que Apollinaire era radicalmente avesso a qualquer ideia de “escola poética” ou petites chapelles (“capelinhas”, como ele chamava as tendências de sua época). Embora tenha sido um dos primeiros a usar as palavras “cubismo”, ”surrealismo”, “caligramas”e “orfismo”, não gostava de ser rotulado. Suspeitava de sistemas, dogmas e regras, preferindo valorizar as sínteses únicas conseguidas por cada criador, fosse ele pintor ou escritor. Em “Simultaneísmo-letrismo” (1914), ele constatava: “O número de escolas poéticas aumenta todos os dias. Quase não há nenhuma em que eu não tenha sido colocado durante um tempo, de boa ou má vontade”.
“Embora não comungasse da destruição do passado e dos museus, muito menos execrasse a tradição (como Marinetti e os futuristas italianos), talvez Apollinaire seja o poeta mais representativo daquilo que Marjorie Perloff chamou de momento futurista: “a breve fase utópica do primeiro modernismo, quando artistas sentiam estar no limiar de uma nova era que seria mais excitante, mais promissora, mais inspiradora do que nenhuma outra”.
“… Mesmo sem ter a obrigação de se alistar, por ser estrangeiro, o italiano Apollinaire faz de tudo para ir à guerra defender seu país de adoção. Ele parece se alistar como se fosse para uma colônia de férias, sem imaginar o que encontraria na região da Champanhe a partir de 1915. Totalmente adaptado à caserna, depois de meses de treinamento intensivo, ele estava na Frente Ocidental, com seu bom anjo de vanguarda, transformando a experiência-limite da guerra em poesia, o espetáculo da morte em vida, em linguagem viva. Seus poemas de guerra, pouco explorados, estão entre os mais atordoantes que alguém jamais escreveu, oferecendo uma “rendição total da linguagem ao momento imediato”. São provas vivas de que o “eu lírico” e o lirismo não morreram nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial.
“…Alguém já disse que, se Guillaume Apollinaire não tivesse existido, teria que ser inventado. O próprio ítalo-russo-polaco Wilhelm de Kostrowitzky se encarregou da tarefa por volta de 1900, quando criou sua identidade poética e um dos mais belos e sonoros pseudônimos da literatura. “Forasteiro das letras francesas”, como o chamou sua biografa Laurence Campa, arauto das vanguardas, ele teve uma vida que pode ser lida como uma novela de aventuras. Apenas alguns fatos já a justificariam. Vejamos:
“Um apátrida até pouco antes de morrer, italiano descendente de uma ancestral família aristocrata polonesa, bisneto de um soldado ferido enquanto lutava pelas tropas do tsar em Sebastopol, neto de um “camareiro secreto de espada e capa”do papa. Pai desconhecido, tido às vezes como sendo um oficial aristocrata suíço-italiano cujo nome ele nunca soube e que “desapareceu” em 1885. Filho de uma mãe de temperamento forte e independente, aventureira e entraîneuse de cassinos. Infância e adolescência na Cote d’Azur, em contato com a natureza, se aventurando em caminhadas de exploração. A descoberta da literatura e dos clássicos, da poesia, do esoterismo, do hermetismo, das religiões e do anarquismo. Uma vida itinerante por cidades onde havia cassinos. A descoberta de Paris, uma fuga após ele e seu irmão darem um calote em uma pensão na Bélgica (ideia da mãe, que já estava em Paris). Um ano de sonho como tutor de uma viscondessa alemã da Renânia, quando explora a região e visita várias cidades e museus da Europa em viagens culturais (a visita a um cemitério em Munique inspira “A casa dos mortos”). Uma paixão tórrida e desesperada pela governanta inglesa Annie Playden, colega de trabalho. O retorno a Paris, a vida precária, os múltiplos empregos, a febril atividade de jornalista e freelancer. Duas viagens infelizes a Londres para tentar conquistar Annie. A convivência com círculos literários e artísticos de Paris. A amizade com Pablo Picasso, Alfred Jarry, Henri Matisse, Max Jacob, Marc Chagall, Marcel Duchamp, Marie Laurencin, Francis Picabia, Henri Rousseau, Erik Satie, Georges Braque e uma série de artistas que, tendo-o como porta-voz e articulador, fará uma revolução nas artes. As polêmicas, os quilômetros de telas vistos nos salons, o resgate histórico da obra de Sade (então completamente esquecido). Apollinaire, o grande contador de histórias, sempre bem-humorado, flâneur incansável, boêmio, gourmand, onipresente, erudito e malandro, crítico de arte respeitado. Sua relação turbulenta com a pintora Marie Laurencin, a fama internacional crescente coroada por um escândalo que a potencializa: a prisão por suspeita de estar associado ao desaparecimento da Mona Lisa do Museu do Louvre (um dos maiores roubos da história da arte, episódio rocambolesco e digno de filme), como contamos na Cronologia.
“Nos últimos quatro anos de vida, a explosão da Primeira Guerra Mundial traz uma última metamorfose: a do poeta modernista em poeta-soldado, da vanguarda artística para a vanguarda real. Um livro de poemas lançado em pleno front, a curta distância do inimigo alemão, os bombardeios permanentes, a carnificina, os horrores da guerra e, enfim, o ferimento na cabeça provocado por estilhaços de um obus. É o fim da guerra para ele. Seguem-se uma lenta recuperação e um período de depressão e ópio (para aliviar a dor), o difícil retorno à vida artística parisiense, o casamento com Jacqueline Kolb. O poeta escaparia de uma hecatombe para entrar em outra. Em 1918, com apenas 38 anos e imunidade baixa, é vítima da pandemia mundial da gripe espanhola. Seis dias depois de contraí-la, em seu apartamento no Boulevard Saint-Germain, exige que o médico salve sua vida, pois ainda tem “tantas coisas para dizer”. Ele morre em 9 de novembro, dois dias antes do armistício. Reza a lenda que, de seu apartamento, em delírio, ele teria ouvido a multidão frenética comemorando o fim da Primeira Guerra Mundial, aos gritos de “A bas Guillaume!” (“Abaixo Guilherme”, em referência ao seu homônimo, o kaiser alemão Wilhelm II).
“…Jacques Vaché, escritor, desenhista e um dos inspiradores do surrealismo, resume o impacto do desaparecimento precoce de Apollinaire em uma carta a André Breton: “Já foi dito, mas deve ser repetido: ele marca uma era. As coisas bonitas que podemos fazer — agora!”.”
Depois de ler esta fantástica biografia, só um poema de Appolinaire, em tradução de Décio Pignatari, para arrematar:
Versos a Lou
Cena Noturna de 22 de Abril de 1915
(Gui canta para Lou)
Meu lobinho adorado queria morrer no dia em que você me amasse
Queria ser bonito para que você me amasse
Queria ser forte para que você me amasse
Queria ser jovem jovem para que você me amasse
Queria que guerra recomeçasse para que você me amasse
Queria agarrar você para que você me amasse
Queria dar palmadas na sua bunda para que você me amasse
Queria maltratar você para que você me amasse
Queria que estivéssemos sós no meu estudiozinho junto ao terraço deitados na cama do fuminho de ópio para que você me amasse
Queria que você fosse minha irmã para amar você in-ces-tu-o-sa-men-te
Queria que você fosse minha prima para que a gente pudesse se amar bem jovem
Queria que você fosse meu cavalo para cavalgar você muito tempo muito tempo
Queria que você fosse meu coração para sentir você sempre em mim
Queria que você fosse o paraíso ou o inferno conforme o lugar aonde eu vou
Queria que você fosse um menino para que eu fosse o seu professor
Queria que você fosse a noite para eu amar você nas trevas
Queria que você fosse a minha vida para que ela fosse só de você
Queria que você fosse um obus alemão para me matar de um amor súbito
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