Faz um ano que tenho tratado de personalidades polêmicas nesta coluna, nas primeiras quintas de cada mês. Assim, nada melhor do que iniciar 2026 com uma matéria sobre o recém falecido Jards Macalé, na minha opinião um dos personagens mais controvertidos da Música Popular Brasileira.
Compositor, cantor, instrumentista e produtor, Macalé construiu uma carreira marcada pela ousadia, experimentação e resistência, tornando-se referência para diversas gerações de músicos e amantes da cultura nacional. Quando da sua morte, este texto foi publicado em suas redes sociais: “Jards Macalé nos deixou hoje. Chegou a acordar de uma cirurgia cantando ‘Meu Nome é Gal’, com toda a energia e bom humor que sempre teve. Cante, cante, cante. É assim que sempre lembraremos do nosso mestre, professor e farol de liberdade”.
Jards Anet da Silva nasceu (3 de março de 1943) e morreu (17 de novembro de 2025) no Rio de Janeiro. Oriundo do bairro da Tijuca, cresceu rodeado de música: nas imediações do Morro da Formiga, os batuques do samba; na casa ao lado, os vizinhos Vicente Celestino e Gilda de Abreu; na residência dos pais, escutava os foxes, as valsas e as modinhas cantadas e tocadas ao piano pela mãe, Lígia e no acordeão, pelo pai. O coro familiar tinha o irmão mais novo Roberto e o próprio Jards.
Ainda durante a infância, mudou-se para o bairro de Ipanema, onde ganhou o apelido de “Macalé” – nome do pior jogador do time do Botafogo da época, em decorrência de sua perebice nas partidas de futebol informalmente disputadas na areia da praia. Já na adolescência, formou seu primeiro grupo musical, o duo “Dois no Balanço”. Posteriormente, integrou o conjunto “Fantasia de Garoto”, que tocava jazz, seresta e samba-canção. Estudou piano e orquestração com o maestro Guerra-Peixe, violoncelo com Peter Dauelsberg, violão com Turibio Santos e Jodacil Damasceno e análise musical com Esther Scliar. Com o pseudônimo Jards Macalé está presente no cenário cultural brasileiro desde a década de 1960.
Começou sua carreira profissional em 1965, como violonista nos espetáculos músico-teatrais do Grupo Opinião, e o apartamento de sua família passou a ser intensamente frequentado por artistas a partir do momento em que Jards abrigou Maria Bethânia, estrela do Opinião. No velório de Jards, Caetano confessou que ele foi seu primeiro amigo quando chegou ao Rio de Janeiro. Na época, fez a direção musical dos espetáculos solo de Bethânia, e teve composições gravadas por Elizeth Cardoso e Nara Leão. Com Gal Costa, Paulinho da Viola e o parceiro José Carlos Capinam, criou a agência Tropicarte, para administrar a gestão de seus próprios espetáculos.
Em 1969, participou do 4º Festival Internacional da Canção, apresentando a canção “Gotham City”, parceria com José Carlos Capinam com arranjos do maestro Rogério Duprat. A apresentação foi recebida com uma estrondosa vaia, tornando-se um dos eventos musicais brasileiros mais célebres do ano e dando a Macalé uma maior projeção graças a diversas entrevistas para jornais como O Pasquim. Muitos anos mais tarde, assisti a um show solo de Jards num pequeno bar do Bixiga, em São Paulo. Ele abriu tocando justamente “Gotham City”, vestido com uma máscara de Batman. Ao final, disse: “por causa desta música fui banido da MPB”. Empolgado com o excelente show, comprei um CD do Macalé e fui pedir-lhe um autógrafo. Ele estava sentado numa mesa, conversando com duas mulheres. Jards então recusou-me o autógrafo dizendo: “não está vendo que estou resfriado?” Depois não sabia por que o chamavam de maldito.
Ainda em 1969, lançou seu primeiro disco, o compacto “Só Morto” – recebido friamente graças a problemas técnicos na mixagem de som. Trabalhou também com Gal Costa no disco “Le-Gal” e no show “Meu nome é Gal”. Já em 1971, foi para Londres, a convite de Caetano Veloso, à época exilado do Brasil pela ditadura militar. Macalé foi o violonista solo e produtor musical (inicialmente não creditado) de Transa, um dos discos mais conhecidos de Caetano e tido por muitos como seu melhor.
De volta ao Brasil, em 1972, Macalé lançou seu álbum mais conhecido, que leva seu nome e foi gravado em forte sintonia com uma equipe enxuta de músicos: Lanny Gordin, na guitarra, e Tutty Moreno, na bateria – que, somados ao próprio Jards, no violão, formavam um power trio. Além das faixas já apresentadas por Gal, gravou “Farinha do Desprezo” e “Movimento dos Barcos”, ambas em parceria com o poeta Capinam. Também tinha parcerias com Torquato Neto, Waly Salomão e Duda Machado. Macalé costumava dizer que nunca quis ser cantor. Só cedeu em colocar a própria voz em suas canções por insistência do poeta baiano Wally Salomão. “Ele me encheu o saco”, costumava brincar.
Em 1973, em decorrência de dificuldades financeiras (pelas quais sempre passou, graças a seu status de artista “marginal”), teve a iniciativa de organizar um show beneficente a si mesmo, em autopromoção. O evento, batizado de “O Banquete dos Mendigos”, acabou mudando de caráter e ganhou um tom político quando se tornou uma celebração da Declaração Universal dos Direitos Humanos, com apoio da própria ONU. Por esse motivo, a apresentação, realizada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, foi permeada pela tensão de uma prisão iminente dos músicos e do público por parte da Ditadura, o que acabou não acontecendo. O show foi gravado clandestinamente, mas devido ao caráter político do espetáculo, só conseguiu ser lançado em disco muitos anos depois, sob o título “Direitos Humanos no Banquete dos Mendigos”. Além de Macalé, o álbum possui um vasto repertório, com nomes como Luiz Melodia, Chico Buarque, Gonzaguinha, Paulinho da Viola, Gal Costa, Edu Lobo, Johnny Alf, Jorge Mautner, Raul Seixas, Milton Nascimento, Dominguinhos e a banda Soma, todos se apresentando de graça. A iniciativa teve uma grande bilheteria, que foi totalmente revertida para os bolsos do próprio Macalé.
O próximo LP, “Aprender a Nadar”, viria em 1974. Gravado pela Philips e contando com maior equipe de músicos, o disco, no entanto, teve uma produção conturbada graças a atritos entre Macalé e o produtor musical André Midani, que chegaram até mesmo na escolha da capa do disco (uma caricatura do músico), feita sem a participação de Jards. Mais experimental em sua estrutura e com um repertório que evoca os sambas e boleros que Macalé ouviu durante a infância, o álbum não foi recebido com tanta unanimidade quanto seu antecessor.
Em seguida, participou como ator e compositor da trilha sonora dos filmes “O Amuleto de Ogum” e “Tenda dos Milagres”, de Nelson Pereira dos Santos. Também compôs para as trilhas de “Macunaíma” de Joaquim Pedro de Andrade, “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, de Glauber Rocha, “A Rainha Diaba”, de Antônio Carlos Fontoura, “Se segura, malandro!”, de Hugo Carvana e “Getúlio Vargas”, documentário de Ana Carolina, além de espetáculos de teatro.
Pela Som Livre, lançou, em 1976, seu disco mais ambicioso até então, “Contrastes” – batizado em referência a um samba de Ismael Silva, que abre o repertório do disco. Nas demais faixas, uma sequência eclética que mistura regravação de canções antigas (“Sem essa”, presente no primeiro compacto do músico), sambas, jazz, xotes, choros e diversos outros gêneros musicais, contando com uma gama de parcerias musicais que inclui Jackson do Pandeiro (que conhecera durante as gravações de “O Amuleto de Ogum”), Walter Franco, o maestro Júlio Medaglia e a Orquestra Tabajara, regida por Severino Araújo, um dos mentores de Macalé.
Mais adiante, tornou-se parceiro musical de um de seus ídolos, o sambista Moreira da Silva, em uma turnê de apresentações realizadas em dupla ao redor do Brasil, por iniciativa do saudoso Projeto Pixinguinha. Graças a uma polêmica causada pelo teor sexual implícito na letra do xote “Sim ou Não”, presente no repertório de “Contrastes”, que foi jocosamente explorada por Jards e por um animado público na cidade de Vitória, Espírito Santo, Macalé foi preso e, subsequentemente, proibido de tocar a canção nos shows seguintes do Projeto Pixinguinha. A tumultuada passagem do cantor pela cadeia foi registrada em uma composição, o samba de breque “Tira os óculos e recolhe o homem”, parceria com Moreira da Silva – que, em Vitória, fez de tudo o que estava a seu alcance para garantir a soltura do parceiro.
A década de 1980 foi particularmente difícil para Jards. Cogitando o suicídio, telefonou para seus amigos para despedir-se, quando foi convidado por João Gilberto para visitá-lo em sua residência. Lá, o músico baiano tocou centenas de vezes “No Rancho Fundo”, de Ary Barroso, até que Macalé, meio que hipnotizado, se tranquilizasse e pegasse no sono, tendo assim sua vida salva. Em 1982, mesmo ano em que aqui em Curitiba nossa turma estava adentrando o caminho do underground com a criação da Contrabanda, Jards Macalé escrevia um artigo pungente para a Folha de São Paulo, que transcrevemos aqui:
O gênio é uma longa besteira (7/12/1982)
“Desliguei televisão, rádio, me abstive de cinema, teatro, shows, jornais, revistas, bares, praias, pessoas. Solidão. Descobri o prazer da “desinformação”.
“Há três semanas só recebo telefonemas e alguns amigos que passam aqui em casa. Minha porta vive aberta, entra quem quer; às vezes quem não quero, o que gera ótimo exercício de paciência.
“Através dessas bocas fico sabendo do que acontece no mundo exterior. Pelo visto a maioria está tomada por uma insatisfação crônica. Falta emprego, dinheiro, sono, vontade, faltam ideias, amores, entre outras faltas.
“Nasci sem dinheiro, mulato e livre. Não tendo nada o que fazer, fico deitado lendo, jogando xadrez ou fazendo amor com minha mulher, ouvindo Lupicínio Rodrigues ou Bola de Nieve e, vez em quando, levanto para uma partida de ping-pong.
“Entre visitas, chega Gilberto Vasconcelos com algodão nos ouvidos. “Não suporto o barulho das ruas do Rio de Janeiro, cidade que (dizem) possui mais decibéis que qualquer outra do mundo”. Lê alguns trechos do “coquetel molotov” (como ele mesmo chama o livro que está preparando) “Olho na Rua”. Luiz Melodia telefona dizendo que está sendo despejado, recebeu notificação. Arranjo advogado; um primo que sempre me tira da cadeia toda vez que tenho a desventura de entrar numa. Jorge Mautner me propõe fundar um novo partido. Respondo que topo, mas só se for um Partido Inteiro.
“Acabam me trazendo as revistas “Veja” e “Isto É”, balanço 1981. Eu que estava lendo “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, de Lima Barreto!!! Quem saca Lima sabe exatamente do que estou falando. Pinçaram frases de coisas que eu realmente disse só que fora da ação e do contexto emocional na qual foram geradas. Tomaram medida absurda. Irresponsabilidade.
“Na primeira a frase está certa e o resto da matéria é mentirosa. A ideia ainda colocam como uma das “Frases” do Ano”!!! A segunda vem com um papo de “As vanguardas temem o fim”. Ora, as “vanguardas”, no Brasil, já morreram há muito tempo. Vanguarda, atualmente, é quem consegue sobreviver neste país sem render (ou vender, como queiram) seu sangue ao vampiresco mercado diluidor de ideias. Ideais. Hoje querem um novo “gênio” para deflagrar polêmicas, batalhas intelectuais e tal. Amanhã, assim que aparecer alguém com alguma ideia suficientemente forte que os encoste na parede, vão gozá-lo, criticá-lo, trucidá-lo, chamando-o louco, alienado, vendido, tarado ou, principalmente, maldito.
“Quando tiverem levado o “gênio”, à penúria total, à falta de possibilidade de viver de sua produção comprometendo sua sobrevivência, quando o “gênio” morrer infectado pelo vírus da mediocridade, do mau-caratismo nacional, hão de erguer-lhe uma estátua (ou fundação), dar-lhe nome de rua, praça ou beco sem-saída, nome de prêmio, teatro, escola, cinema, sala. Elevado à categoria de gênio (sem aspas), passam a utilizá-lo contra aqueles que, individualmente, tentam levar suas vidas da forma que mais lhes convém: incorruptivelmente. E saem correndo atrás de um novo “gênio” para substituir o “gênio” derrotado.
GÊNIO É UMA LONGA BESTEIRA
“É preciso acabar com isso. A essa altura do campeonato não dá mais pra ficar com esse papo. Dizer que este ou aquele é influenciado por alguém, tudo bem. Mas ninguém ocupa o espaço de ninguém, ninguém toma o lugar de ninguém. Cada um faz o que pode, como pode, com quem pode ou não. Essa obrigatoriedade de concorrência estúpida é bom pra quem não tem nada a fazer ou dizer.
“Combater a liberdade de uns com a liberdade de outros é burrice. Liberdade é o que interessa.
“P.S. Capinam acha de chegar. Me dá uma camisa com os dizeres: cães vadios. Talvez não passemos disso. De dentes arreganhados, sempre.”
Em 1983, gravou “Let’s Play That”, álbum de improvisações feitas em parceria com o percussionista Naná Vasconcelos, que só viria a ser lançado na década seguinte, devido a problemas envolvendo o mecenas responsável pelo financiamento do disco. Em 1985, participou do musical “Areias Escaldantes”, e em 1987 lançou “4 Batutas e 1 Coringa”, disco de releituras com sambas históricos de Paulinho da Viola, Nelson Cavaquinho, Lupicínio Rodrigues e Geraldo Pereira. Este é, sem dúvida, meu álbum preferido de Jards, ouvido incontáveis vezes. Ouça aqui sua magistral interpretação do samba “Ministério da Economia” do grande Geraldo Pereira: https://www.youtube.com/watch?v=3TOr4QjJL5M&list=RD3TOr4QjJL5M&start_radio=1
No mesmo ano, gravou e lançou o compacto Rio Sem Tom / Blue Suede Shoes. No lado A, uma canção com arranjos de Lincoln Olivetti onde Jards expressa, com descontentamento e ironia, sua opinião sobre a situação atual do Rio de Janeiro, tendo como ponto de partida a mudança de Tom Jobim para os Estados Unidos. No lado B, um cover de Elvis Presley. No ano seguinte, lançou “Peçam Bis”, parceria com Dalva Silva e cujo repertório é composto por canções de Ismael Silva: outro vinil com repertório soberbo.
Apenas na década de 1990 Jards gravou uma versão completa de “Vapor Barato”, canção presente apenas como uma vinheta que antecede a música “Revendo Amigos” no disco autointitulado de 1972 e que tornara-se famosa na voz de Gal Costa, um verdadeiro hino de uma geração. A canção está presente no álbum “O Que Faço É Música”, de 1999 – que permaneceu, durante 20 anos, como seu último disco de canções inéditas.
O século XXI foi menos cruel para Jards, que começa gravando “Canta Moreira da Silva”, de 2001, disco de covers em homenagem ao ídolo e parceiro musical. Em 2003, o músico lançou o ótimo “Amor, Ordem & Progresso”, que contém músicas inéditas e regravações de clássicos de seu repertório. O lançamento do álbum foi acompanhado por uma campanha, capitaneada por Macalé, para a mudança da inscrição “Ordem e Progresso” na bandeira do Brasil, pedindo pela inclusão da palavra “Amor”, conforme consta no lema positivista original de Auguste Comte. Essa associação alude ao samba “Positivismo”, de Noel Rosa, uma das canções incluídas no repertório do disco. Dois anos depois, lança “Real Grandeza” (assim intitulado em referência a “Rua Real Grandeza”, canção do disco “Aprender a Nadar”), com novas gravações de suas parcerias com Waly Salomão, falecido em 2003. Em 2008, novamente mesclando clássicos próprios com covers e em tom intimista, lançou “Macao”. Em 2011, lançou “Jards”, semelhante em repertório, porém mais energético. Ambos os álbuns contam com participações de músicos de diversas gerações, como Luiz Melodia, Frejat, Elton Medeiros, Ava Rocha (filha de Glauber) e Thais Gulin, e a gravação do último foi acompanhada de perto pelo cineasta Eryk Rocha, irmão de Ava, que as registrou no documentário “Jards”, lançado em 2013.
No mesmo ano, participou do evento “Canções do Exílio”, onde declarou ser anarquista. Em 2014, participou do disco “Melancolia e Carnaval”, de Rogério Skylab. A participação se dá na música “Cogito”, versão musicada de um poema de mesmo nome escrito pelo antigo parceiro lírico de Macalé, Torquato Neto.
Em 2015, foi lançado “Ao Vivo”, gravação de um show com músicas de seu repertório e contando com a participação de Zeca Baleiro. No ano seguinte, é lançado em disco a gravação do espetáculo “Dobrando a Carioca Ao Vivo”, no qual Macalé toca clássicos do samba em conjunto com Zé Renato, Guinga e Moacyr Luz. Em 2017 é lançado, em vinil e em digital, “Só Morto Ao Vivo”, gravação de uma apresentação realizada por Macalé na década de 1970 e primeiro registro do músico interpretando a infame canção Gotham City – até agora, nunca gravada em um disco de estúdio. Ouça aqui uma versão ao vivo: https://www.youtube.com/watch?v=tchQXkldKrI&list=RDtchQXkldKrI&start_radio=1
Em 2018, foi lançado o box set de CDs “Jards Macalé: Ao Vivo!”, reunindo três discos com gravações inéditas de apresentações realizadas entre os anos 1970 e 1980, incluindo um show no Presídio da Papuda. No ano seguinte, chegou ao público a obra prima “Besta Fera”, primeiro trabalho de inéditas lançado por Jards Macalé em 20 anos. Colaboração de mais de 15 músicos, o projeto contou com participações especiais de Juçara Marçal, Tim Bernardes e Rômulo Fróes, além de músicos, arranjadores e compositores como Thomas Harres, Kiko Dinucci, Ava Rocha, Rodrigo Campos e Thiago França. O título do álbum vem do poema “Aos vícios”, do poeta Gregório de Matos, que foi adaptado e musicado por Macalé na faixa-título “Besta Fera”. Outro poema adaptado para o álbum foi “Canto I” (de Os Cantos), de Ezra Pound, cuja tradução de Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos se transformou na canção “Trevas”, com clipe dirigido por Gregorio Gananian. Lançado em vinil e em digital, o disco foi indicado ao Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Popular Brasileira e foi também eleito um dos 25 melhores álbuns brasileiros do primeiro semestre de 2019 pela Associação Paulista de Críticos de Arte. Na minha humilde opinião foi, sem dúvida, o melhor álbum do ano, a nível mundial.
No segundo semestre de 2021, “Síntese do Lance” – parceria com João Donato (outro gênio incompreendido aqui já homenageado) – chegou às plataformas digitais, sendo posteriormente lançado também em vinil. Em 2023, Macalé lançou “Coração Bifurcado”, seu 13º álbum de carreira e que foi escolhido pela Associação Paulista de Críticos de Arte como um dos 50 melhores álbuns nacionais de 2023. O disco trouxe as participações das cantoras Maria Bethânia e Ná Ozetti e foi dedicado à Gal Costa, morta em novembro de 2022. Quando levou o disco aos palcos, em show de mesmo nome, Macalé fez questão de formar uma banda só com mulheres, que ele batizou de “As Macaléias”. Ao longo do mesmo ano, ganhou destaque ao participar dos shows promovidos por Caetano Veloso para a comemoração dos 40 anos de seu disco “Transa”. Foi reunida a equipe musical original do álbum, que também compreendia os percussionistas Tutty Moreno e Áureo de Sousa, em apresentações realizadas no Rio de Janeiro e em Salvador.
Em entrevista ao Estadão, em 2023, Macalé falou não apenas sobre a fama de maldito, mas também sobre a insistência em classificá-los como um compositor de músicas “difíceis”, em um lugar que ele chamou como “purgatório” da música brasileira. “Eu fiquei nesse purgatório durante muitos anos. Era difícil gravar, mas eu insistia. Mostrei que minha música é acessível a todos”, disse.
Em 2024, chegou ao público uma parceria de Macalé com o pandeirista Sergio Krakowski e seu trio. Em “Mascarada: Zé Kéti por Sergio Krakowski Trio & Jards Macalé”, sambas clássicos do compositor portelense são repaginados em arranjos de jazz. O trabalho foi incluído na lista de 50 melhores discos de 2024 da APCA.
Com mais de seis décadas dedicadas à música, Jards Macalé seguiu ativo até o fim, lançando novos trabalhos de alta qualidade e encantando plateias pelo Brasil e pelo mundo, mas sempre com algumas pitadas de polêmica, parte indelével de sua personalidade.
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