
Após a morte do General Franco, em 1975, Joan Miró foi questionado sobre o que havia feito para promover a oposição ao ditador, que governou a Espanha por quase 40 anos. O artista respondeu simplesmente: “Coisas livres e violentas”.
Miró nem sempre é considerado um pintor político, no sentido amplo ou restrito. Ele não foi criador de manifestos, nem signatário de petições; não era dado a gestos provocativos como seu contemporâneo Salvador Dalí, nem perseguia suas paixões a todo custo, como seu mentor, Picasso. No entanto, para Miró, a arte era uma forma de liberdade e de questionamento. Rejeitava qualquer forma de servidão criativa, defendendo a autonomia do artista e o poder subversivo da imaginação. Sua frase célebre: “assassinar a pintura”, sintetiza o desejo de romper com as tradições para criar algo absolutamente novo e vital.
Para Miró, porém, a política era inevitável, um acidente de nascimento. Nascido em 20 de abril de 1893, era filho de um relojoeiro e uma ourives que viviam na zona portuária de Barcelona. Cresceu com o movimento de independência catalão e compartilhava de seu propósito de lutar pela liberdade. Inicialmente, identificou essa liberdade com o internacionalismo; ansiava por estar em Paris. Mas, uma vez imigrado, manteve-se fiel à sua identidade de catalão, com ainda mais devoção, e a partir dela desenvolveu uma linguagem visual íntima, que o sustentou por toda a sua vida profissional.
No universo das artes visuais do século XX, poucos nomes brilham com a intensidade de Joan Miró. Desde cedo foi exposto a um ambiente repleto de criatividade e destreza manual, graças à tradição de cultura familiar e aos ofícios de seus pais, elementos que viriam a influenciar sua sensibilidade estética e sua dedicação ao detalhamento. Suas primeiras obras remontam a 1901, quando ele tinha apenas 8 anos de idade. Miró inicialmente frequentou a escola de negócios e começou sua carreira profissional ainda adolescente, como escriturário. Em 1911, Miró superou uma séria batalha contra a doença tifoide e, a contragosto dos pais, abandonou completamente o mundo dos negócios para dedicar toda a sua vida à pintura. Estudou na Escola de Belas Artes de Barcelona, onde começou a explorar técnicas clássicas e absorver influências dos grandes mestres. A arte inicial de Miró foi inspirada por obras de Vincent Van Gogh e Paul Cézanne. A semelhança da obra de Miró com a da geração intermediária da vanguarda levou os estudiosos a chamarem esse período de fauvista catalão. Mas, ao contrário do que poderia se esperar, sua inquietação com os cânones acadêmicos logo o levou à busca de uma expressão mais livre e inovadora. Em 1918, Joan Miró apresentou sua primeira exposição individual nas Galerias Dalmau, em Barcelona.
Em 1920, finalmente chegou a Paris, o epicentro da vanguarda cultural mundial da época. A primeira coisa que fez foi visitar Picasso, que ainda não conhecia, mas cuja mãe era amiga da família em Barcelona. Picasso morou lá um tempo, antes de ir para Paris; inclusive há um museu, na antiga prefeitura da cidade catalã, com seu nome, que já visitei encantado. Picasso cuidou dele, comprou um quadro que Miró lhe mostrou e o ajudou a ingressar na sociedade radical com a qual sonhara. Em um ano, o pequeno estúdio de Miró na rue Blomet recebeu visitas regulares de seus novos amigos: o poeta Paul Éluard, o dramaturgo Antonin Artaud e o artista Tristan Tzara. Em 1921, realizou sua primeira exposição individual em Paris, já refletindo influências cubistas. “O Campo Cultivado” (1923-1924) marcou o ponto de virada na arte de Miró em direção a um estilo pessoal. No meio de uma paisagem com animais e objetos delicadamente desenhados estão uma grande orelha e um olho.
Na década de 1920, influenciado pelos escritos do psicólogo Sigmund Freud , o movimento literário, intelectual e artístico chamado Surrealismo buscou uma revolução contra as restrições da mente racional. O Surrealismo também abraçava uma ideologia marxista que exige uma abordagem ortodoxa da história como um produto da interação material de interesses coletivos, e muitos artistas surrealistas renomados mais tarde se tornaram símbolos da contracultura do século XX. Embora Miró nunca tenha se juntado ao círculo surrealista, ele colaborou com Max Ernst, por exemplo; mas André Breton, o líder do movimento, certa vez se referiu a Miró, para o bem e para o mal, como um caso de “desenvolvimento interrompido”, um artista infantil.
Apesar desta opinião, em 1928, Miró expôs com um grupo de renomados pintores surrealistas, incluindo Salvador Dali e René Magritte em Paris. Embora o surrealismo tenha muitas influências em seu trabalho, ele manteve seu próprio estilo pessoal e forma distinta na maioria das obras. Seu trabalho é fortemente marcado pela presença de símbolos ligados à terra natal, à natureza e ao universo onírico. Elementos como estrelas, luas, pássaros, mulheres e criaturas fantásticas povoam suas pinturas, desenhos, esculturas e gravuras. Ao longo de sua carreira, o artista buscou incessantemente a simplificação das formas, aproximando-se de uma linguagem quase hieroglífica.
Em 1929 e no início da década de 1930, Joan Miró se mostrou propenso a experimentar muitas outras formas de arte e meios de expressão. Alguns deles incluem: gravura, aquarelas, litografias, pastéis e até mesmo pinturas sobre cobre. Desse período, existem duas de suas obras mais celebradas, que estão em exibição na UNESCO em Paris: “O Muro da Lua” e “O Muro do Sol”.
Pelos próximos trinta anos de sua carreira, muito de seu trabalho foi em colaboração com uma série de artistas, bem como exposições coletivas, o que trouxe notoriedade ao estilo catalão em torno do qual ele criaria a maioria de suas peças.
O período final da obra, pelo qual Joan Miró é mais conhecido, ocorreu no final da década de 1960, período que duraria até sua morte, marcando o fim de sua carreira artística. Durante esses últimos anos, ele se concentrou mais na criação de obras de arte públicas. Isso se deu na forma de peças monumentais e exposições públicas, criadas especificamente para o deleite do público e exibidas em diversos locais distintos. Ele se concentrou menos no tema da figura retratada e mais no símbolo e na mensagem que emergiam da peça final, retratada ao público em geral.
Em 1976, o Centro de Arte Contemporânea da Fundação Joan Miró foi inaugurado na cidade de Barcelona, para onde ele frequentemente retornava em busca de inspiração. Tive a oportunidade de visitar o Centro de Arte Contemporânea quando estive pela primeira vez em Barcelona e fiquei impressionado com uma série de quadros pichados e/ou queimados intitulados “Maio de 1968”. No dia em que publico este artigo, chego pela segunda vez à Barcelona e pretendo rever Miró.

Paradoxalmente, em sua biografia do amigo, Jacques Dupin maravilhou-se com a capacidade de Miró de viver uma vida “completamente livre de desordem ou excesso”. Em seu ateliê, a ordem reinava. As telas eram arquivadas ordenadamente de acordo com um sistema complexo e rígido, os pincéis eram limpos assim que eram usados e organizados em ordem de tamanho; os tubos de tinta eram dispostos em sequência estrita. “Muitas vezes o vi debruçado sobre uma folha de papel e sacudir um grão de poeira que acabava de pousar nela”, observou Dupin. “Nada é deixado ao acaso, nem mesmo em seus hábitos diários: há tempo para passear, tempo para ler, tempo para estar com a família e tempo para trabalhar.”
A obra em si, porém, era tudo menos ordenada, e deliberadamente Miró reservava toda a sua anarquia para a criação. “Nós, catalães”, gostava de dizer, “acreditamos que é preciso firmar os pés no chão se quisermos saltar alto. O fato de eu descer à terra de vez em quando torna possível saltar mais alto.”
Miró percebeu que a energia da pintura, como tudo o mais, estava se transferindo para os Estados Unidos. Ele assistiu a uma exposição de Jackson Pollock em Paris em 1952 e se lembrou de ter dito a si mesmo: “Você também consegue, vá lá, veja, está tudo bem!”. Ele não tinha interesse em abstração pura, porém. “Você consegue a liberdade suando por ela”, acreditava ele, “por meio de uma luta interior…”
Miró libertou sua obra de diferentes maneiras, pintando com os dedos e no chão, queimando e cortando suas telas mais tarde. Na década de 60, ele havia criado um estilo muito mais ousado e feroz. A Espanha ainda estava sob o domínio franquista, e mesmo em Maiorca, Miró sentia a mão morta da ditadura, a anti liberdade que sempre odiou. Com a revolta estudantil em Paris em 1968, ele esperava trazer mais do espírito de rebelião para casa. Aos 75 anos, atirou sua tinta na tela como um ato compartilhado de desafio: “[Esta pintura] se explica totalmente pelo título: Maio de 1968”, disse ele mais tarde. “Drama e expectativa em partes iguais: o que foi e o que restou daquela inesquecível revolta juvenil…”
Na abertura de uma exposição que incluía esta pintura, em 1978, Miró andava de um lado para o outro em frente a ela, de forma incomum. Sua esposa, Pilar, mandou-o sentar, e ele se recusou. “Droga, que me vejam em pé”, disse ele. “Pintei estas pinturas freneticamente, com violência real, para que as pessoas saibam que estou vivo, que estou respirando, que ainda tenho alguns lugares para ir.” Ele tinha 85 anos. “Estou seguindo em novas direções!”, exclamou.
Durante sua longa carreira, Joan Miró conquistou reconhecimento internacional, participando de importantes exposições e recebendo prêmios de destaque. Suas obras integram hoje as principais coleções de museus como o Museum of Modern Art (MoMA) de Nova York, o Centre Pompidou de Paris e a Fundação Joan Miró, além da sede da Unesco.
O impacto de Miró vai muito além do mundo artístico. Sua linguagem visual influenciou designers, arquitetos, escritores e cineastas, deixando uma marca indelével na cultura contemporânea. Os móbiles de Calder, por exemplo, são confessadamente inspirados na pintura de Miró. A poética de suas cores e formas, a busca pela liberdade criativa e o compromisso com a imaginação continuam a inspirar novas gerações. Como poeta das cores e das formas, ele continua a nos provocar, emocionar e inspirar. Em cada traço, uma possibilidade infinita de reinvenção. Em cada obra, um convite à liberdade absoluta do espírito.
Tento aplicar cores como palavras que moldam poemas, como notas que moldam música. (Joan Miró)
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1 comentário em “Joan Miró”
incrivelmente bom. As matérias têm cada vez mais espírito.
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