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22/02/2024



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Psycho Carnival 2024

 Psycho Carnival 2024

Nesta quinta-feira, a partir das 20 horas, quem quiser poderá me encontrar no Jokers, na festa de abertura do PSYCHO CARNIVAL 2024, maior atração do peculiar Carnaval curitibano. Neste dia se apresentarão “O Lendário Chucrobilly Man”, uma das melhores monobandas do mundo, “Cigarras”, uma esplêndida banda de rock feminina, sob o comando da Maria Paraguaya, e o “Relespública”, sobre quem já escrevi um artigo aqui na coluna Frente Fria.

 

A 23º edição do festival Psycho Carnival será realizado entre os dias de 8 e 12 de fevereiro de 2024. Neste ano, o lineup do evento conta com 40 bandas de cinco países diferentes: Brasil, Argentina, Chile, Dinamarca e Portugal. A grande atração desta edição é a banda dinamarquesa Nekromantix, um dos maiores nomes da história do Psychobilly, que volta ao palco do Psycho Carnival após 13 anos e de quem falarei mais, um pouco adiante.

 

 

A América do Sul, que tem presenciado um crescimento substancial da quantidade de bandas de Psychobilly em todos os países, será representada por três grupos: os chilenos do Voodoo Zombie e os argentinos Jinetes Fantasmas (que chegam com nova formação e acabaram de lançar o álbum “Ya No Son Humanos”) e Ghost Bastards.

 

Além das tradicionais bandas de Psychobilly, o festival também contará com a presença de dois grandes nomes da história da cena punk brasileira, o Cólera e As Mercenárias, os dois grupos estão estreando no Festival. Outra grande atração é o trio mineiro Black Pantera, banda que vem se destacando no país com um poderoso crossover de Thrash/Death Metal e que traz uma forte mensagem de luta contra o racismo e outras formas de preconceito.

 

Haverá vários shows gratuitos no Café Manifesto e nos bares Cão Velho e Lado B. Entre as atrações que se apresentaram nesses locais, estão as bandas Reverendo Frankenstein, Hillbilly Rawhide e Repudiyo. Clique aqui para ver a relação completa das bandas que tocarão no Festival.

 

Também serão realizados três debates que abordarão temas relevantes para a cena underground brasileira: “Produção cultural e fortalecimento da cena, partindo de políticas públicas” com o mestre em arte e integrante Conselho de Política Cultural de Pinhais, Jeff Araújo, “Feminismo na Cena Cultural” com a assistente social, especialista em políticas públicas e mestra em educação, Elza Maria Campos, e “Afro-Diásporas: Resistência Cultural no Rock Independente” (com a banda mineira Black Pantera).

 

O grande idealizador e produtor do Psycho Carnival chama-se Vlad Urban. Seu relacionamento com a Música é antigo. Começou na infância, por influência da família. O pai, o famoso fotógrafo João Urban, e a mãe, Adelaide Fortes, eram fãs da primeira arte. A tia Ana Beatriz Fortes tocava piano e a irmã Dora Urban também se tornou pianista. Vladimir também se envolveu no meio e começou a fazer aulas de violão. Na adolescência veio a guitarra, o punk rock e as bandas com os amigos.

 

Perguntei pro Vlad, como foi a influência familiar na sua formação cultural e política. Ele respondeu assim: “em casa desde muito cedo tive contato com MPB, rock, música clássica, fotografia, história em quadrinhos, pinturas, meus país conviviam com artistas, poetas, pintores, fotógrafos, músicos, então esse convívio com a arte foi desde muito cedo, e com isso acabei desenvolvendo essa vontade de tocar um instrumento. Estava chegando na adolescência bem na época da explosão do rock nacional, então vendo tantas bandas se formar também queria fazer parte daquilo. E por outro lado também praticamente todos da minha família tiveram ou tinham envolvimento com a política, tanto do lado da mãe quanto do pai, não muito em relação a partido mas sim no engajamento, na discussão, nos movimentos políticos. Eu nasci durante a ditadura militar, e a minha família foi frontalmente contra a ditadura, essa conversa era recorrente no encontro semanal da família nas quartas feiras na casa da minha avó. A família participou de movimentos contra a ditadura, sofreu muito por isso, mas não abandonou a luta por um país mais justo mesmo depois da volta da democracia.”

 

Com esta bela lição de vida, não demorou para o jovem decidir o que faria pelo resto da vida e seu extenso currículo comprovado atesta o sucesso da decisão. Foi o band leader de bandas como Os Cervejas, Catalépticos e Sick Sick Sinners, conhecidas mundialmente por fãs do Psychobilly. “Psychobilly é uma deturpação do rockabilly, daquele som dos anos 1950, que era uma mistura da música negra e caipira americana. O Psychobilly é trazer aquilo até o limite”. É assim que Vlad Urban descreve o gênero musical que mescla elementos dos sub gêneros rockabilly e punk de forma frenética e flertando com o absurdo. Curitiba, considerada a capital brasileira do estilo, é a casa de grandes bandas da cena nacional, como Krápullas, Ovos Presley e a Sick Sick Sinners. A fama da cidade é resultado deste esforço para manter a potência dos festivais que rolam por aqui. “Não foi aqui em Curitiba que as bandas de psychobilly começaram a tocar no Brasil. Tem a Kães Vadius, de São Paulo, que começou antes de Os Missionários, que é uma banda de Curitiba, por exemplo. Mas o que aconteceu aqui, que é diferente de outras cidades, é que o psychobilly se manteve ativo, as bandas vão mantendo o estilo vivo na capital”, explica Vlad.

 

O festival de carnaval também se destaca pelas line-ups antenadas no que rola mundialmente: em 2000 surge o Psycho Carnival, que acaba virando uma agenda mundial do psychobilly. Perguntei-lhe: quando produziu seu primeiro Psycho Carnival tinha noção do que se tornaria o evento? Vlad me disse: “de maneira nenhuma, o primeiro Psycho Carnival foi produzido de uma maneira despretensiosa, estávamos fazendo o show para a banda francesa que estava vindo ao Brasil nessa época, inclusive não foi nem nos dias do Carnaval, foi uma semana antes ou depois. O baixista da banda era o cara que cuidava do site dos Catalépticos, era um fã da banda. Nessa época o Psychobilly Fest tinha se tornado o grande festival de psychobilly no Brasil, já eram 3 noites de festival, bandas de todos os lugares do Brasil, já o Psycho Carnival foi no segundo e terceiro ano: fomos tendo um pouco mais da dimensão do que poderia se tornar. Em 2003, já no quarto ano do festival, tivemos 3 bandas internacionais e aí a coisa ficou mais séria.”

 

Para Vlad, o psychobilly carrega suas características próprias, mas também absorve tendências externas: “Ele não tem muito problema em se adaptar ao que está acontecendo. Se os membros de uma banda de psychobilly gostam de, por exemplo, Napalm Death, eles podem colocar dentro do som alguma característica do Napalm. É como o Frenetic Trio, que faz um gutural dentro do psychobilly, ou os Catalépticos, que fazem quase um hardcore com metal e trash”. Apesar de não existir um consenso sobre as origens do psychobilly, o surgimento aconteceu entre Nova Iorque e Londres. Bandas como Meteors, Mad Sin e Nekromantix fazem parte da primeira geração, na década de 1980.

 

Então vamos agora falar um pouco sobre o Nekromantix, grande atração do Festival de 2024. É uma banda dinamarquesa-americana de psychobilly, uma das pioneiras do movimento. Suas letras são geralmente estruturadas em torno de temas de monstros e terror. Um ícone central da imagem da banda é o “coffinbass” do fundador e vocalista Kim Nekroman, um contrabaixo customizado com corpo em forma de caixão e cabeçote em forma de cruz. Veja uma amostra de como funciona a coisa aqui. Nekroman tem sido o único membro constante da banda, que teve vários integrantes. A formação atual é complementada pelo guitarrista Francisco Mesa e pelo baterista Rene “Delamuerte” Garcia, conhecido como guitarrista e vocalista da banda canadense “The Brains”.

 

 

O Nekromantix foi formado em 1989, em Copenhague, por Kim Nekroman depois que ele deixou a Marinha Dinamarquesa, na qual foi operador de rádio submarino por oito anos. PS: curiosamente, os dois primeiro punks de verdade que conhecemos em Curitiba eram o Massa e o Batata, que haviam servido em submarino na Marinha Brasileira, de onde foram devidamente expulsos por excesso de desordens nos portos onde atracavam.

 

Decidido a se lançar a uma nova carreira na música, Kim inicialmente tocou bateria em uma banda de rockabilly. Aprendendo a tocar contrabaixo e cantar, Nekroman começou a formar uma banda de psychobilly com tema de terror, tendo ele mesmo como vocalista e composta inicialmente por Nekroman, o guitarrista Paolo Molinari e o baterista Jens Brygman e a banda recebeu o nome de Nekromantix. Uma peça central da imagem da banda, como já contamos, era o “coffinbass” autoconstruído por Nekroman. Os primeiros deles foram feitos usando um caixão real do tamanho de uma criança, mas ao longo dos anos ele construiu novos modelos para obter melhor acústica e capacidade de dobramento para facilitar o transporte. Após seis meses de prática e duas apresentações locais em Copenhague, no clube Stengade 30, o Nekromantix apareceu no grande festival psychobilly em Hamburgo, Alemanha. Seu desempenho lhes garantiu um contrato de gravação com a Tombstone Records para seu primeiro álbum “Hellbound”. A banda começou uma excursão pela Europa e construiu seu nome no movimento europeu, que na época era totalmente dominado por artistas britânicos.

 

Durante anos, a banda continuou excursionando pela maior parte da Europa, incluindo Finlândia, Alemanha, Reino Unido, Holanda, Bélgica, Suécia e França, e também pelo Japão. Então conseguiram alcançar o status de culto nos Estados Unidos, onde seus álbuns ainda estavam disponíveis apenas como importados. Em 2000, o Nekromantix fez suas primeiras apresentações nos Estados Unidos, começando com o primeiro “Psychobilly Rumble” anual em Nova York e continuando com uma turnê de nove datas pela costa oeste. Em fevereiro de 2001, Nekroman deu uma demo de novas músicas ao vocalista/guitarrista do Rancide dono do selo Hellcat Records , Tim Armstrong, um fã de longa data da banda. O Nekromantix logo assinou contrato com a Hellcat, de Los Angeles, e lançou o álbum de 2002 “Return of the Loving Dead”. Gravado na Dinamarca, foi o primeiro álbum da banda a ser distribuído amplamente nos Estados Unidos e ajudou a fazer parte de um movimento emergente de psychobilly na costa oeste, centrado no selo Hellcat. Logo após a turnê americana, Nekroman mudou-se para Los Angeles, que desde então é a base do Nekromantix.

 

Este é o recado de Kim Nekroman para seus fãs brasileiros: “estamos muito entusiasmados por voltar ao Brasil! Mal posso esperar para estar mais uma vez na América do Sul, ao lado de tantas bandas que raramente vemos ou tocamos juntos”. Aguardemos ansiosamente o dia 12 de fevereiro para assistir estas feras ao vivo.

 

Por tudo isto, temos que reverenciar mais uma vez o poder empreendedor do Vlad Urban, que consegue produzir um dos eventos que dão mais retorno financeiro e cultural à Curitiba, sem quase nenhum apoio oficial. Será que se trata de preconceito ao gênero musical do psychobilly ou pura burrice mesmo?

 

Na monografia para a conclusão do Curso de Licenciatura em Música – Departamento de Artes, Setor de Artes, Comunicação e Design da Universidade Federal do Paraná, chamada “ Psycho Carnival: 20 Anos de Resistência”, Celso Soares Costa Segundo escreve o seguinte:

 

“Durante o processo de pesquisa etnográfica para a realização deste trabalho, muitas informações apareceram nas entrevistas e leituras sobre o tema. Quando se trabalha de forma detalhada um evento longínquo – se tratando de música independente no Brasil – percebe-se o quanto os detalhes fazem a diferença. A escolha das atrações, a identificação com o público e a produção executiva são preponderantes para que o Psycho Carnival tenha esta longevidade. Não obstante, o festival se tornou referência pela identidade que construiu, o que gerou inovação na gestão de eventos em Curitiba. Ano após ano, os processos dentro da produção executiva se aperfeiçoam e a engrenagem que mantém o Psycho Carnival ativo se aprimora a cada edição. A aproximação com o poder público se evidenciou nesta pesquisa justamente para ocorrer uma reflexão sobre a importância das políticas públicas não somente no festival, mas de maneira mais ampla para toda área da cultura. Em tempos onde a cultura é tratada como algo secundário, festivais como o Psycho Carnival demonstram o quanto são importantes como um elemento da composição da diversidade cultural na cidade de Curitiba.

 

O Carnaval é uma festa popular e o gênero rock tem tanto espaço quanto os demais, o Psycho Carnival demonstra que a cidade é propícia a abrigar diversos gêneros musicais que coexistem dentro do espaço urbano. A cidade possui um complexo carnavalesco que muitas vezes é pouco valorizado, mas agentes trabalham em suas respectivas alçadas para que a festa seja cada vez mais organizada. Houve uma unanimidade entre os entrevistados que incentivo cultural não deve ser pensado, pelo poder público como um favor à sociedade, mas sim uma ferramenta que gera retorno em escala financeira, social e cultural, sendo a última um direito universal. Cabe ao Estado viabilizar ações que se somem aos grupos privados, fazendo com que as ações mereçam seu devido respaldo. Portanto, é possível concluir que o festival é importante para a cultura da cidade e deve ter maior apoio por parte do poder público.

 

O fato do psychobilly, que teve seu começo na Inglaterra, criar raízes no Brasil, gerou resultados que podem ser inseridos dentro do conceito de interculturalidade. Alguns grupos locais de psychobilly juntaram elementos da cultura brasileira às temáticas do estilo, gerando um produto inédito. É basicamente a estrutura tradicional com novos elementos da cultura local, que por sua vez se torna diferente do que é feito em seu local de origem. Fica evidente que a interculturalidade se encontra no âmbito territorial, e o fato de um evento desta categoria constar na agenda de Carnaval da cidade movimenta o comércio a nível regional, assim como traz pessoas das mais diversas partes do mundo. Em contrapartida, grupos locais estão conseguindo sair para outros países e firmando contatos durante os eventos, também transformando o Psycho Carnival em uma plataforma de negócios e uma via para a exposição de parte da produção realizada na cidade.

 

A inclinação cosmopolita de Curitiba e sua estrutura propiciaram que o festival cresça com a cidade. Depois de 20 anos e diversas mudanças, ora contando com a ajuda do poder público, mas em sua maioria fazendo por conta própria. O Psycho Carnival resiste e consta como uma referência no cenário psychobilly mundial, além de se mostrar como um marco importante dentro do amálgama cultural que é o Carnaval na cidade de Curitiba.”

 

Por último, perguntei pro Vlad: quais são seus próximos planos para o futuro? Ele me contou o seguinte: “estou trabalhando com um grupo que tem um intuito de lançar uma pré candidatura coletiva para câmara de vereadores em Curitiba, é um movimento de artistas, de trabalhadores da cultura, de produtores de setor cultural, que tem um programa de mandato para mudar a cara da cultura em Curitiba. A cidade, que tem o quarto maior PIB do Brasil, pode refletir na cena cultural esse poderio econômico resgatando as suas raízes, trabalhando na imensa riqueza cultural que tem essa cidade multi étnica e suas potencialidades históricas que já funcionam apesar do pouco incentivo para o setor.”

 

Grande notícia para a comunidade cultural de Curitiba: poderemos ter um representante na Câmara de Vereadores com a integridade e garra para realizar as coisas do porte de um Vlad Urban.

 

 

Nota

Outro ativo militante da área cultural curitibana é o poeta Getúlio Guerra, que sem pose, nem frescura, lançou em janeiro/2024, no Nina Restaurante, seu primeiro livro “Poemas de Guerra”, que compreende o período de 1991 a 2023, incluindo alguns que foram previamente publicados através da icônica máquina manual de impressão tipográfica presente na Feira do Poeta, localizada no Largo da Ordem.

 

Para quem não pôde participar desse evento, Getúlio Guerra já programou outras duas datas para escrever uma dedicatória para os amigos: no dia 18 de fevereiro, na União Paranaense dos Estudantes, a UPE, das 14h às 17h, na Carlos Cavalcanti, e na Feira do Poeta, no dia 25 de fevereiro, das 10 às 13h.

 

Produzido às próprias custas, com toda dificuldade que isto envolve, Getúlio conseguiu imprimir 200 exemplares, com 53 poemas cada, delicadamente impressos em papel kraft, proporcionando uma experiência de leitura sustentável.

 

Inspirado também pelo cinema de Win Wenders, nos anos 2000, o autor começou a explorar a interseção de linguagens, envolvendo-se em produções culturais, incluindo pequenos shows e festivais itinerantes com bandas autorais pelos bairros de Curitiba. Os Saraus Populares, concebidos por Getúlio, na época que trabalhou na Fundação Cultural, tinham o propósito de descentralizar o usufruir da produção cultural. Leia uma amostra da sensibilidade de Getúlio Guerra:

 

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deitei

com a garoa

acordei

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