Livre adaptação das obras “Faust, eine Tragödie” e “Faust. Der Tragödie zweiter Teil in fünf Akten”, de Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), por Antonio Thadeu Wojciechowski e Sérgio Viralobos.
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(Na rua, algum tempo depois.)
POETA
Mefistófeles começou por injetar estranho elixir em Fausto,
era um levanta-defuntos fabricado por feiticeiras.
Nisso passou Margarida, uma moça que dava pro gasto.
FAUSTO
Nobre gatinha, posso ladeá-la por estas ladeiras?
MARGARIDA
Nobre, eu? Gatinha? Quero só continuar sozinha,
até a casa de meus pais, se não vai ser aquela ladainha.
(Dá o fora em Fausto e se afasta)
FAUSTO
Que pequena mulherão! Por pouco não pulo em cima.
Não pude me atrever, ela, pela cara, era de poucos amigos.
(Mefistófeles entra em cena)
FAUSTO
Passa! Vá correndo buscar a mãe de meus filhos.
MEFISTÓFELES
Você me arruma logo uma que nunca saiu dos trilhos!
Ela é daquelas pessoas que não manipulo.
FAUSTO
Deve ter entre quatorze e quinze aninhos, te juro.
MEFISTÓFELES
Sossegue o pinto, leão. Não seja tão precoce.
FAUSTO
Precoce será nosso pacto se dela hoje você não me der posse.
MEFISTÓFELES
Me dê quatorze dias, um para cada ano de vida donzela.
Não se apressa um banquete à luz de vela.
FAUSTO
Tudo bem, mas à noite quero penetrar no quarto dela.
MEFISTÓFELES
Prometido. Vou te levar ainda hoje na casa da boneca.
FAUSTO
Velarei sua pestana como um fiel voltado à Meca.
MEFISTÓFELES
Pelo que vejo, você ainda não superou a adolescência.
FAUSTO
Compre pra ela um presente digno de uma excelência.
MEFISTÓFELES
O presente que te darei, ao repassá-lo, aumenta sua chance.
Meu maior interesse é de que não vire novela este romance.
POETA
A impressão causada por Fausto ao espírito de Margarida
leva-a, á noite, ao espelho, a refletir sobre o encontro.
Achou-o, pelo aspecto, provavelmente de boa família,
mas, o ímpeto amoroso de Fausto chocara-a até certo ponto.
Nisso Fausto entra com Mefistófeles, o pagador de promessas,
no quarto da amada e deita-se em sua cama por momentos inesquecíveis.
Mas ao Margarida se aproximar do leito, fogem às pressas,
deixando um cofre com joias de espantar qualquer ourives.
Margarida quase cai de susto ao encontrar o tesouro,
porém sua mãe, ao saber de tudo, tenta cair nas divinas graças
e chama o vigário, que, com fina vigarice, leva o ouro,
deixando às duas tongas somente suas bênçãos larápias.
Casa da Vizinha,
(Dois dias depois)
MARTA
(só)
Ai, meu Deus! Será que em vez de bater continência,
meu pobre marido, não terá batido as botas?
Por que não manda notícia que pague minha penitência?
A dúvida abre, cada vez mais, mais portas.
MARGARIDA
(entra falando)
Marta! Marta! Tinha mais um tesouro no meu armário!
Uma caixinha de madeira nobre recheada de riqueza.
Acho que tenho mais joias que a esposa de um falsário.
Estas são mais belas que as de anteontem, com certeza.
MARTA
Desta vez não diga pra tua mãe que ela te dedura na igreja.
Deixe-me guardá-las pra você, minha princesa,
não reivindicarei comissão, pelo favor da custódia.
E você pode revê-las em meu espelho a qualquer hora.
O álibi perfeito para usá-las é uma festinha,
onde, aos poucos, você haverá de estreá-las.
Primeiro, os brincos, depois, uma ou outra pulseirinha.
Se tua mãe notar, o que duvido, diga que são emprestadas.
MARGARIDA
Que louco pensa que dois cofrinhos vão me comprar?
(Batem à porta)
MARTA
(de olho no olho mágico e abrindo a porta)
Que homem estranho…Por favor, queira entrar.
(Mefistófeles entra)
POETA
Mefistófeles, quando quer, é gentleman doutorado,
só sendo do outro mundo pra bolar um plano tão bem traçado.
Procurando paparicar as duas, desmanchou-se em agrado,
pra disfarçar o verdadeiro motivo que ali o tinha levado.
MEFISTÓFELES
É uma grande honra conhecer a viúva mais fresca do pedaço.
MARTA
O senhor está querendo insinuar que meu arrimo foi pro espaço?
MEFISTÓFELES
Sim, está morto e enterrado em Pádua, ainda por cima sem epitáfio.
MARTA
Estou só e na miséria…com que roupa eu vou à missa?
MEFISTÓFELES
É deveras lamentável, senhora. Mas, enfim, na alma,
ele investiu ao se arrepender, no fim, de sua vida farrista.
MARGARIDA
Penam-me os homens. Só a morte lhes impõe a calma.
MEFISTÓFELES
O casamento também. Como você verá ao soar a tua hora.
Aliás, nem precisa marido, basta um bofe apresentável.
MARGARIDA
Oh, não! Isso pode ser normal pra quem vem de fora…
MEFISTÓFELES
Seja normal ou não, a novidade sempre se torna notável.
MARTA
Por favor, por favor, vamos voltar ao falecido assunto.
MEFISTÓFELES
Perdão…abotoei seu paletó no leito de morte
e suas últimas palavras te chamavam pra junto.
MARTA
Pensando bem, não me azarou casar com tal consorte.
MEFISTÓFELES
Ele tinha dúvidas sobre qual de vocês dois, pelo pecado,
iria antes do outro ter uma entrevista com o diabo.
MARTA
Mas que safado, me caluniou mesmo com um pé na cova?
MEFISTÓFELES
Vai que delirava na hora em que a vida se desova.
Mas só pensava em você e nos filhos que deixou aos urros,
quando ajudou a pilhar o tesouro de um navio de turcos.
MARTA
Onde? Como? Quando? Ao menos herdei um mapa?
MEFISTÓFELES
Não sei de nada. Só sei que fez em Nápolis uma escala
e lá arranjou um cacho: uma gostosa, tratada à pizza e rocambole.
Morrendo, ainda salivava ao lembrar os dias de bole-bole.
MARTA
Aquele trombadinha, tirou o pão da boca dos meninos.
Pudera, um miserável endinheirado nas mãos de uma cigana…
MEFISTÓFELES
Abrevie o teu drama. Um ano de luto para os vizinhos
e logo você arruma outro cobertor de orelha pra tua cama.
MARTA
Só que outro como ele não se acha em penca.
Tá certo que bebia mais que padre aos domingos,
também é certo que não dispensava uma quenga,
assim como é certo que se dava aos dados e aos bingos.
MEFISTÓFELES
Certo, certo. As muitas que ele fez só se comparam às suas.
Temos tanto em comum, sou o fã nº 1 de suas diabruras,
chego a ouvir um diabinho me soprar ideias casamenteiras.
MARTA
Jura pelo Pai Nosso!? Oh…O senhor é chegado a brincadeiras.
MEFISTÓFELES
(pra si próprio, depois de se tocar que estava se entregando)
“É melhor puxar o carro,
essa mulher enrola até um diabo.”
Lamento mas preciso ir. Tchau mesmo, senhoras.
MARTA
Antes de sair, peço-lhe do óbito do meu esposo as provas.
MEFISTÓFELES
Se minha palavra não basta, trago mais uma,
a de um rapaz chamado Henrique, será perfeita testemunha.
MARTA
Não me leve a mal, mas tudo que é meu faço ficha.
Vá chamá-lo, já que não trouxe o jornal com a notícia.
MEFISTÓFELES
(referindo-se à Margarida)
E esta loirinha, como é que fica? Ficará aqui pra recebê-lo?
Ele é um rapaz muito bem apanhado, nobre de selo.
MARGARIDA
Não conseguirei disfarçar o rubor de minha face.
MARTA
Combinado. No jardim, à noitinha, junto ao pé de alface.
(continua no próximo capítulo)
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