Livre adaptação das obras “Faust, eine Tragödie” e “Faust. Der Tragödie zweiter Teil in fünf Akten”, de Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), por Antonio Thadeu Wojciechowski e Sérgio Viralobos.
JARDIM DO PALÁCIO
FAUSTO
Senhor, podeis perdoar esse carnaval dos diabos?
IMPERADOR
Mas qual, adorei aquele delírio incandescente!
Ardia-me inteiro enquanto soltava raios.
Lembrei-me dos eflúvios de um chá diferente.
Presenciei meus súditos enrubescerem as faces malandras,
senti-me o próprio rei das salamandras!
MEFISTÓFELES
E éreis mesmo, podeis crer!
Até o fogo reconheceu vosso poder.
IMPERADOR
De que página das Mil e Uma Noites você fugiu?
Sua imaginação equivale a de duas Xerazades.
Você terá os maiores favores enquanto voar no meu céu de anil.
Basta estar a postos quando vierem me encher os incapazes.
Presidente do Banco Central
(entra apressado)
Milagre! Milagre! Deus voltou do estrangeiro!
Os agiotas se renderam à força de nosso dinheiro.
Chefe do Estado-Maior do Exército
Não devo mais um tostão para essa corja de capadócios!
As prostitutas voltaram a fazer grandes negócios.
Imperador
Como está estufado este teu peito de medalhas!
Como suas rugas vão ficando menos encarquilhadas!
Presidente do Banco Central
Que se expliquem os artífices dessa operação de sucesso!
Fausto
Proponho que o Primeiro-Ministro seja o relator do processo.
PRIMEIRO-MINISTRO
Eu não podia morrer sem essa!
Vou ler o papel que fez do mal bom à beça:
“O Imperador assina embaixo do valor de 1.000 pratas,
garantidas pelo seu incomensurável tesouro enterrado.
Todas as medidas cabíveis já foram totalmente tomadas
para que cada níquel desencavado
pague esse papel por mim avalizado.”
Imperador
Essa eu não vou engolir! Falsificaram minha assinatura?
Já colocaram os velhacos a ferros?
Presidente do Banco Central
V. Exa. esquece o jamegão que despachou numa gravura?
Estávamos todos, na piscina do Baile do Havaí, submersos,
o Primeiro-Ministro, de sunga, vos disse “basta uma penada
para alegrar os foliões”. Então esse bilhete
se multiplicou industrialmente na Casa da Moeda.
Fizemos séries de 1, 5, 10, 50, 100, 1000 cada
e caiu com tanto gosto no meio do povo inadimplente
que o vosso nome idolatrado nunca esteve tão bem na goela
da patuléia. O alfabeto ganhou mais uma letra
no formato da impressão digital de vosso polegar direito.
Imperador
Jura que todo mundo aceita esses impressos sem reserva?
Dou a régia mão à palmatória em estado de choque monetário.
Mefistófeles
Podemos aposentar a algibeira e rechear a carteira de nota preta.
Melhor que carta de amor, só grana no meio dos peitos.
Perdoai a expressão chula, mas as ações do Reino estavam em queda.
Agora, as pesquisas apontam o fim do tráfico e do câmbio usurário.
Está todo mundo de barriga cheia e roupa nova.
Perdoai-me novamente, esses detalhes rebaixam vossa obra,
mas fiquei apaixonado por esses papeizinhos macetosos.
Quereis metal: o cambista está aí para isso mesmo.
Não há metal? Tudo bem, daqui a pouco vamos cavá-lo.
Quem quer outra vida? Riqueza é coisa que nunca estrova.
Imperador
(a Fausto)
O Império te deve essa engenhosa manobra.
Já que gostas do escurinho, te confio, sem remorsos,
as entranhas do Reino. Não foi uma escolha a esmo,
és o custodiante mais digno do meu rico regalo.
Basta apitar que começaremos a cavar.
Mestres do Tesouro, uni-vos na defesa da honra de vossos cargos!
Ali onde mundo e submundo fazem um feliz troca-troca.
Presidente do Banco Central
Que boa nova! Agora tenho um mágico na minha equipe!
(sai abraçado com Fausto)
Imperador
Todo mundo em fila que vou distribuir presentes!
Quero que cada um diga o que vai fazer com o seu.
Pajem
(recebendo o presente)
Vou comprar para minha amada um anel e um colar.
Camareiro
(idem)
Beberei mais e melhores vinhos em largos tragos.
Camarista do camareiro
(ibidem)
Os dados estão doidinhos para sair da toca.
Fidalgo
(refletindo)
Livrarei a hipoteca de meu castelo e da minha estirpe.
Outro fidalgo
(idem)
Vou empilhá-lo sobre meus demais pertences.
Imperador
Esperava um pouco mais de imaginação, séquito plebeu!
Mas conhecendo-os tão bem devia contar com isso:
por mais que os entuche de grana, continuarão os pobres de sempre.
Bobo da Corte
Eu também posso ganhar sua bênção, Meu Mundo?
Imperador
Ué, ressuscitou? É mais que certo, vai beber tudo que eu te der.
Bobo da Corte
Esses bilhetes mágicos! Não entendi bem seu funcionamento.
Imperador
Nem perca tempo, você vai perdê-los num instante.
(dá o presente e sai de cena)
Bobo da Corte
Será o benedito? Cinco mil pratas?
Mefistófeles
Então voltou o barril de pinga com chouriço.
Bobo da Corte
Olhe para esses papéis, ainda não acredito que isso compre.
Mefistófeles
Com eles você tem de tudo, pode entupir seu saco sem fundo.
Bobo da Corte
E posso comprar gado, castelo e mulher?
Mefistófeles
Queria te ver de fidalgo, meu jumento.
Bobo da Corte
O sono dos proprietários deve ser embriagante.
(sai de cena)
Mefistófeles
(de si pra si)
Alguém ainda duvida da sensatez de nossos bobos aristocratas?
(continua no próximo capítulo)
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