Livre adaptação das obras “Faust, eine Tragödie” e “Faust. Der Tragödie zweiter Teil in fünf Akten”, de Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), por Antonio Thadeu Wojciechowski e Sérgio Viralobos.
Cárcere
FAUSTO
(com um molho de chaves e uma lamparina à frente de uma porta de ferro)
Sou sacudido por tremores
muitos graus acima da escala Richter.
Carrego no corpo todas as dores
do mundo. Como pude ser tão patife?
Dentro desta cela imunda e úmida,
ela perde a vida que me deu um dia, lívida.
(entra na cela)
MARGARIDA
(escondendo-se)
Horror! O horror! Chegou minha hora.
FAUSTO
Calma, sou eu que venho te levar embora.
MARGARIDA
(delirando)
Se é com agá maiúsculo que te chamam, homem,
tenha misericórdia por uma mulher que perdeu até o nome.
(Fausto tenta abrir as correntes que prendem Margarida)
MARGARIDA
Carrasco, por que me levas assim no meio da noite?
Sou tão jovem e vou morrer antes da madrugada.
Me machucas com tuas mãos acostumadas a empunhar o açoite.
Não tenho ninguém para me defender de tua pegada.
FAUSTO
Ela não me reconhece, não posso suportar tanta miséria.
MARGARIDA
Carrasco, você viu que gracinha a minha criança?
Agora vou amamentá-la com a força de uma histérica.
Tentaram me tirá-la e mentem que a enforquei com sua manta.
O mal me persegue por todos os cantos e me pesa nos ombros.
FAUSTO
Peço perdão de joelhos por fazer de teus sonhos, escombros.
MARGARIDA
Cuidado ao ajoelhar-se, estive olhando embaixo da soleira
e vi o inferno fervendo e fazendo a minha caveira.
FAUSTO
Margarida, por nosso amor, me escuta!
MARGARIDA
(levanta-se de um salto e as correntes caem)
Como? Ouvi uma voz que me parece saída de uma gruta.
No meio desse barulho infernal ouvi um som que me palpita.
É você? Ou o eco que tornou minha alegria dita por não dita.
FAUSTO
Sou eu mesmo em carne e desgosto.
MARGARIDA
(abraçando-o)
É você! És tu! Onde está o desespero que me fazia encosto?
Chegou para me salvar como nas melhores novelas da história.
Mesmo em meio a esse drama não te subtraí da memória.
FAUSTO
Estou emocionado, mas bem que podíamos apressar a fuga.
MARGARIDA
Tu não sabes mais me dar aquele beijo sanguessuga?
Podíamos habitar a mesma camisa de força.
Não me olhes como se eu fosse quebradeira de louça.
Me abraces como me lembro que me abraçavas.
Teus lábios não falam mais a minha língua,
como se diz agora amor em tuas palavras?
FAUSTO
Vamos sair daqui antes que morras à mingua.
MARGARIDA
Henrique, é mesmo você que vejo com o olho baço?
FAUSTO
Sim, sou eu, vamos fugir antes que recomecem teus delírios.
MARGARIDA
Sabe quem você está livrando do cadafalso?
Minha mãe matei num piscar de cílios,
tensão pós-parto não justifica o que fiz com nosso filhinho.
Teria sido tão bom se nós o tivéssemos conhecido…
Em tuas mãos estão meus últimos resquícios de carinho.
Oh, tuas mãos também têm o sangue de um ente querido.
FAUSTO
Nossos cadáveres são assunto morto, você me mata assim.
MARGARIDA
Não morra ainda, antes hás de viver a cuidar de túmulos.
Quero que sigas minhas ordens tintim por tintim,
em matéria de campa quero para mamãe uns bons metros cúbicos,
meu irmão deverá ser depositado colado ao seu lado.
E, não muito distante, o meu túmulo conterá o anjinho.
FAUSTO
Venha de uma vez, o trinco está arrombado.
MARGARIDA
Daqui não saio, daqui ninguém me tira pedacinho.
Lá fora, tudo não passa de uma enorme sepultura.
Você já vai? É tarde ainda, fique mais um pouco, Deus me livre.
E pare de me agarrar assim na base da grossura.
Outrora te entreguei de bom grado o que eu tinha de mais sublime.
Estou até o pescoço com essa guilhotina.
Acho que mais uma vez vou perder a cabeça.
FAUSTO
Ah, antes eu não tivesse largado a simbólica batina.
MEFISTÓFELES
(aparecendo do lado de fora)
Vocês estão loucos? Os guardas vêm aí cumprir a sentença.
MARGARIDA
Só me faltava esse homem para profanar minha cela.
FAUSTO
(segurando firme e desesperadamente Margarida)
Viva! Viva! Viva!
MARGARIDA
Oh, justiça de Deus, acenda-me a treva.
MEFISTÓFELES
(para Fausto)
Vem, senão eu te largo com essa louca encardida.
MARGARIDA
Pai, Todo Poderoso, Criador de mim e da Terra,
Anjo da guarda dos anjos, guardai-me rediviva.
Henrique, te olho com outros olhos, horrorizada.
(cai)
MEFISTÓFELES
(esfregando as mãos)
Infernada!
VOZES DE ANJOS E QUERUBINS CANTANDO BEM DO ALTO
Mas que nada.
(Margarida é levada aos céus cercada de anjos por todos os lados)
(continua no próximo capítulo)
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