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GERSON-CABECA-COLUNA

Até onde vai o direito de viver? E o de morrer?

14/04/2025

Nos últimos dias, uma notícia me chamou atenção — infelizmente, não consigo lembrar o nome da pessoa envolvida, mas era uma figura conhecida que teria decidido se mudar para um país da Europa onde a morte assistida é legalizada. O motivo? Um diagnóstico sem volta e o desejo de não prolongar o sofrimento.

Não é um tema leve, mas é, sem dúvida, humano. O cinema já se debruçou sobre ele com delicadeza, poesia e profundidade. Três filmes que assisti me vêm à memória:

– As Invasões Bárbaras, em que um professor universitário, diante da morte iminente, reúne amigos e familiares para a despedida;

– Fale com Ela, que aborda o coma prolongado e o direito à interrupção de tratamentos; e

– Mar Adentro, baseado na história real de Ramón Sampedro, que passou trinta anos tetraplégico lutando pelo direito de morrer com dignidade. Esse é o meu preferido.

Há outros filmes que tratam desse abismo ético, e todos eles apontam para o mesmo dilema: quem deve decidir o fim da vida? O Estado? A religião? A família? O próprio doente?

Fui pesquisar sobre o assunto e encontrei alguns casos reais. Uma figura conhecida que decidiu se mudar para um país europeu onde a morte assistida é legal foi David Goodall, um ecólogo e botânico australiano. Em 2018, com 104 anos — e mesmo não estando terminalmente doente —, optou por viajar para a Suíça, onde o suicídio assistido é permitido. O fato repercutiu na mídia internacional e suscitou discussões sobre os direitos de escolha no que diz respeito ao fim da vida.

Goodall disse que desejava terminar sua vida com dignidade. Mencionou suas contribuições científicas e deixou claro que não estava sofrendo de uma doença terminal, mas buscava a morte assistida devido à deterioração da qualidade de vida. Esse caso mostra os desafios e as complexidades da legislação sobre a morte assistida e como a sociedade contemporânea a encara.

A Suíça é um dos países que permite o suicídio assistido sob certas condições, o que atrai pessoas de vários lugares do mundo que buscam a opção legal de morrer com dignidade. Há quem se refira a isso como “turismo de suicídio” — o que, convenhamos, é de péssimo gosto.

O astro de cinema francês Alain Delon, que faleceu há pouco mais de seis meses, aos 88 anos, também na Suíça, havia deixado clara a opção pelo suicídio assistido, conforme revelou seu filho em 2022.

Além da Suíça, Bélgica, Holanda, Canadá e alguns estados americanos já legalizaram a prática — com critérios.

Sobre a chamada eutanásia, é conhecido o caso do médico norte-americano Jack Kevorkian, que ganhou atenção internacional após assistir mais de 100 doentes terminais.

No Brasil, o assunto ainda é tabu, e qualquer ajuda ao suicídio é enquadrada como crime. Mas isso não impede que ele ronde os corredores dos hospitais, onde habita o silêncio das famílias que assistem seus entes queridos definharem. Há outros países que estudam sua legalização.

Os que defendem a prática argumentam que não se trata de apologia à morte, mas de defesa da dignidade na hora de morrer. Dizem que, da mesma forma que defendemos o direito de nascer bem e viver com qualidade, é preciso discutir abertamente o direito de morrer sem dor, sem angústia e sem humilhação.

É claro que há quem veja nisso uma afronta à vida, ao plano divino, ou mesmo um risco de banalização. O debate é legítimo, mas deve ser feito com cuidado.

É curioso observar que evoluímos tanto na medicina, na ética e na liberdade, e ainda haja quem prefira fingir que essa discussão não existe — ou que só se aplica aos outros.

Embora o debate sobre a morte assistida avance no campo da ética, da medicina e da legislação, as religiões, em sua maioria, mantêm forte oposição ao tema.

Para as tradições religiosas, a vida não é apenas um bem individual — é dom de D’us. Portanto, interrompê-la voluntariamente, mesmo em situações extremas de sofrimento, é visto como uma violação da ordem sagrada da criação.

No judaísmo, a vida é considerada o bem mais precioso — e deve ser preservada até o desenlace natural. Mesmo em casos de dor extrema ou doença terminal, não se autoriza nenhuma ação que antecipe a morte. O princípio de pikuach nefesh (salvar uma vida) prevalece sobre quase todos os outros mandamentos.

Assim, a eutanásia ativa é condenada pelas correntes ortodoxas e conservadoras. Há, no entanto, uma pequena margem para discutir os limites do prolongamento artificial da vida, quando os tratamentos apenas estendem o sofrimento, sem chance de reversão. Isso leva, eventualmente, ao consentimento em não iniciar ou suspender intervenções, desde que a morte ocorra de forma natural, sem provocar ativamente o seu desenlace.

Entre os católicos, a posição também é clara: a vida pertence a D’us, e só Ele pode determinar seu fim. O Catecismo da Igreja Católica condena tanto o suicídio quanto a eutanásia. No entanto, assim como no judaísmo, a suspensão de tratamentos desproporcionais — que apenas prolongariam o sofrimento — é considerada aceitável, dentro de uma visão de “morte digna”.

Nas religiões protestantes, a questão é mais plural. Algumas denominações mantêm posição conservadora, como a católica, enquanto outras — especialmente nas vertentes mais liberais — têm se mostrado mais abertas ao debate, enfatizando a compaixão e o respeito à autonomia individual.

No islamismo, a vida também é sagrada e só pode ser encerrada por vontade divina. A eutanásia é proibida, mas também se discute a legitimidade de interromper tratamentos que mantêm o corpo vivo sem chance real de recuperação.

Talvez a pergunta mais importante seja:

— E se fosse comigo? Ou com alguém que eu amo?

A resposta deve ser construída dentro de cada um. Mas ignorar a pergunta é que me parece inaceitável.

Pesquisando sobre o assunto, encontrei uma reflexão profunda:

— “A vida é sagrada, sim. Mas não será ainda mais sagrada quando é vivida — e encerrada — com consciência, escolha e dignidade?”

E você, querido Leitor Amigo, o que acha?

 

Mínimas que são o máximo

“A bondade de D’us é dar o que você merece, e a misericórdia dele é não dar o que você merece.”

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8 comentários em “Até onde vai o direito de viver? E o de morrer?”

  1. Muito bom texto, passou da hora de tratarmos desde assunto. Por aqui no tabelionato, fazemos uma escritura conhecida como “testamento vital” mas que, tecnicamente é uma Declaração Antecipada de Vontade, que prevê como a pessoa quer ser tratada em caso de não poder manifestar seu desejo a ortotanasia e também podendo indicar um procurador para tomar decisões. E, no limite, também declarar seu desejo de morte assistida, a eutanásia, fora do Brasil, ou aqui se a legislação venha permitir.

    1. GERSON GUELMANN zs

      Angelo, extremamente oportuno teu comentário. Eu desconhecia a existência desse recurso.

      1. JOSE CARLOS SUCUPIRA GONCALVES

        O nome desse meu fraterno amigo carioca era o poeta, escritor e filósofo Antônio Cícero.

  2. Sérgio Tadeu Monteiro de Almeida

    Acredito que o livre-arbítrio deva prevalecer sobre todos os princípios e dogmas religiosos, independente se, cristãos em suas diversas vertentes, islamismo, judaico. Recentemente tivemos um caso de grande repercussão na mídia nacional, o escritore compositor brasileiro, Antonio Cícero, membro da Academia Brasileira de Letras, morreu em 23/10, após fazer um procedimento de suicídio assistido na Associação Dignitas, localizada na Suíça. De Joinville-SC, a herdeira do Laboratório Catarinense também optou pelo suicídio assistido na Suíça. Respeitar o sentimento, e vontade, de quem não quer prolongar próprio sofrimento pessoal e de seus queridos, aos meus olhos, é inquestionável; a legislação nacional necessita ser revista, não cabe ao Estado decidir sobre aspectos de fórum íntimo dos cidadãos e seus familiares.

    1. GERSON GUELMANN zs

      Sérgio, os casos citados por você reforçam a necessidade de se discutir o assunto, independente das considerações de ordem religiosa.

  3. Sem Dúvida,a Vida é um Dom Divino!!O sofrimento é o que??.. Punição??
    Meu Pai sofreu desesperadamente as dores de um câncer, teve terminais nervosos seccionados para alívio da dor e ficou imobilizado por consequência… falava com os olhos..Uma dor que todos nós compartilhamos em tristeza… Deus nos Proteja 🙏🏻

    1. GERSON GUELMANN zs

      Ronaldo, o sofrimento pelo qual teu pai passou e que se extendeu ao resto da família é
      uma contribuição à necessidade de avaliação da questão por parte da sociedade.

      1. JOSE CARLOS SUCUPIRA GONCALVES

        O nome desse meu caríssimo amigo é Antônio Cícero , poeta, escritor, filósofo e letrista. Grande pensador brasileiro.

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