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Mais um jornal enterrado. Os bárbaros venceram

24/10/2025
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Quantas mãos são necessárias para segurar o caixão da imprensa paranaense? Apenas duas. Os dois filhos de Francisco – os nomes já não me ocorrem – conseguiram. Quase centenária, a Gazeta do Povo foi para a cucuia em 2017, em nome de uma mal sucedida aventura digital. São menos de dez anos. Agora, anuncia-se o fim da Tribuna do Paraná, criada pelo jornalista João Féder em 1956, adquirida pelo Grupo Paulo Pimentel em 1960, e entrada em óbito por obra e (des) graça dos filhos de Francisco. É um desfecho melancólico para um diário, de perfil popular, que até 2011, quando trocou de dono, tinha uma circulação diária de 15 mil exemplares. Falta só a última pá, que será dada no fim do ano. Da terra à terra, das cinzas às cinzas, do pó ao pó.

É difícil saber a razão pela qual, seja lá por onde passem os rebentos, não nasça ‘grana’. Os jornais impressos no país, aos menos os grandes, souberam se reinventar. Caso do Zero Hora, do Rio Grande do Sul, do Estado de Minas, do Correio Braziliense, e do Diário de Pernambuco. Isso para ficar apenas nos jornais que circulam fora do eixo Rio-São Paulo.

No período em que comprou a Tribuna do Paraná, o grupo do qual faz parte a Gazeta do Povo adquiriu também o jornal O Estado do Paraná, o portal Paraná Online, a rádio Globo FM e o Jornal de Londrina – que foi modernizado e impresso em formato berliner. Todos, à exceção da Tribuna, foram sepultados em curto período de tempo.

Um fiasco

Antes, o mesmo grupo havia investido uma cifra estratosférica para criar o tabloide Primeira Hora. Um fiasco monumental. O jornal durou um ano e nunca disse a que veio. Em tese, ele seria um concorrente da Tribuna e atenderia uma demanda por jornais sensacionalistas. Fracassou logo de cara. Por pressão externa, dizem que do próprio Paulo Pimentel, o Primeira Hora deixou de cobrir os casos policiais e suprimiu o futebol das capas. Creia, o campeonato de Taekwondo foi manchete.

A Gazeta do Povo é um caso à parte. Fundada em 1919, ela estava prestes a completar um século quando a versão impressa deixou de circular. Diga-se: o diário nunca foi um primor do jornalismo. Quando dava um furo dizia-se que cometera um “lapso de imprensa”. Até mesmo entre seus profissionais, o dístico do jornal era “Não me venha com notícia”. Uma galhofa.

O diário dominava o mercado publicitário e circulava com uma tiragem de 95 mil exemplares aos domingos e 45 mil durante a semana. Mesmo assim não se arriscava um milímetro na prática do jornalismo. Publicava releases, enchia as páginas com solenidades e homenagens, abusava das colunas sociais e das efemérides do comércio e da cidade. Quando falava do governo, falava bem. Quando falava das prefeituras, falava bem. Se a economia do país estava em crise, não era manchete. Se as pesquisas de opinião indicavam uma disputa acirrada ao governo do estado, o empate técnico deixava de existir. A Gazeta censurava a matemática.

Abacate afrodisíaco

Porque a edição dominical era um catatau pregava-se peças. É famosa a matéria publicada pelo jornal que dizia que o caroço de abacate era afrodisíaco. Desde que engolido inteiro.

Quando não caía em pegadinhas, o jornal tropeçava por conta própria. Em agosto de 1993, o diretor de jornalismo da Bandeirantes, Fernando Mitre, espumou de raiva duas vezes. Primeiro ao ler que um incêndio destruíra um orfanato e não houvera cobertura da afiliada no Paraná. A manchete da Gazeta dizia: “Fogo destrói orfanato em Curitiba”. Depois ao ser informado que a edição era fictícia e fora encomendada pela produção da telenovela “Sonho Meu”, da Globo, que tinha como cenário a capital paranaense. A ideia era imprimir uns poucos exemplares apenas para exibir na gravação. Os editores do jornal, no entanto, acharam “bonitinho” e decidiram fazer circular a edição com aquela manchete, explicando no texto que se tratava de uma cena de novela. Coisa de amador.

Não se diga que a redação não tenha tentado exercer a profissão conforme o manual. Em parceria com a RPC, rede de televisão prima rica do grupo, a Gazeta fez uma cobertura excepcional em um caso envolvendo um esquema de corrupção na Assembleia Legislativa do Paraná, que ganhou o nome de “Diários Secretos”. As reportagens valeram o prêmio Esso ao jornal e tudo levava a crer que, enfim, a publicação seguiria um caminho virtuoso. Na verdade, foi seu último suspiro.

Em maio de 2017, a Gazeta reuniu jornalistas e representantes do mercado publicitário em um hotel de luxo na capital paranaense a fim de anunciar, com pompa, que entrara na modernidade. O fim da edição impressa era o início de uma nova era da informação. O jornal trocava a plataforma de papel pela plataforma digital. Para satisfazer os leitores apegados ao formato tradicional, a Gazeta faria circular uma revista semanal aos domingos – um caderno volumoso impresso em papel couchê (caríssimo) que teria a mesma cara e o mesmo cheiro do jornal. Mas não era o jornal.

Princípios

Claro que era uma empreitada arriscada, senão suicida. Com a agravante de carregar agora os princípios de seus proprietários. Deus, família e propriedade para resumir.

Jornais respeitados tomam posição a favor de um candidato, de um governo, de uma ideologia, de um direito difuso, de um plano econômico. Mas fazem isso em seus editoriais. A Gazeta estendeu o seu modo de ver o mundo a todas as seções do site. Não há um canto noticioso ou opinativo em que os “princípios” não devam ser observados.

O resultado é um declínio vertiginoso no gráfico cartesiano. Que leva de roldão não só a Gazeta e a RPC, mas também os demais produtos noticiosos.

A Tribuna do Paraná resistia em sua versão impressa, ainda que paupérrima em suas páginas e em suas manchetes insossas. Linguajar chulo? Nem pensar. Mulher nua? Nem pensar. Presunto? Nem pensar.

Morre porque acabou a graça, acabou a piada, acabou a imaginação. Quem quer um jornal chato, cricri e pernilongo que não se presta sequer a forrar a gaiola do periquito? Que a Tribuna descanse em paz. Os bárbaros venceram.

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