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23/06/2024

A medida do homem

vitruviano

Medidas fazem parte da vida de todas as pessoas, desde antes de seu nascimento até o túmulo. Casa, roupas, calçados, altura, peso, idade. Vivemos medindo tudo o que nos rodeia, na busca de um ideal de beleza para nos adequarmos ao nosso espaço e tempo de vida neste planeta. “O homem é medida de todas as coisas”, afirmava Protágoras, sofista grego, nascido no ano 490 a.C.. Seu conceito relativizava a verdade absoluta das coisas, já que, segundo ele, cada homem conhecia as coisas a partir de seu próprio entendimento.

 

Na arte, ao se falar em medida, nos vem à mente o “Homem vitruviano”, desenho de Leonardo Da Vinci, datado de 1490, deixado em um de seus diários em homenagem ao arquiteto romano Marcos Vitrúvio Polião, que viveu no século I a.C., cuja obra “De Architectura”, entre outras legadas por ele, serviu de parâmetro e inspiração para a arquitetura, urbanismo e engenharia desde o Renascimento. Ele estabeleceu um cânone de proporções do corpo do homem, no terceiro volume (dos dez que compunham o título), sugerindo um ideal clássico de beleza, por sua vez baseado, em parte, na proporção áurea que então se fundou a partir do número de ouro, Phi, que está envolvido na ordem de crescimento da natureza.

 

“Homenagem a Leonardo” – escultura de Enzo Plazzotta, 1982, Praça Belgrave – Londres (Foto Beata May, 19 de junho 2012-(Q18160599)- Wikipedia)

 

Além de Leonardo, vários outros artistas – dentre os quais Albrecht Dürer – apresentaram desenhos inspirados pelos escritos de Vitrúvio, já que os dele próprio não foram encontrados junto ao seu material durante o Renascimento. O desenho de Da Vinci descreve uma figura masculina, nua, em duas posições ao mesmo tempo, sobrepostas, inscritas em um círculo e um quadrado considerado o símbolo da simetria básica. Consta, até nossos dias, que a simetria seja a mãe da beleza! Simetria, em grego, significa “com” “medida” e diz respeito a relações de paridade entre altura, largura e comprimento das partes de que é composto o todo.

 

Nascido muito mais tarde, em 1887, Le Corbusier (pseudônimo de Charles-Edouard Jeanneret-Gris), arquiteto e urbanista suíço naturalizado francês, criou, em 1920, o conceito da Unité d’Habitation e também o “Modulor”, um sistema de medidas originadas nas proporções de um indivíduo, também imaginário, inicialmente medindo 1,75 m de altura que, mais tarde, se converteu em um de 1,83 m de altura. Esse sistema, baseado na proporção áurea e na sequência de Fibonacci, foi medida de proporção para suas criações arquitetônicas, conceito muito útil no pós-guerra para a construção e reconstrução das habitações necessárias para um grande número de pessoas, ocupando o menor espaço individual apropriado.

 

“O Modulor”- Le Corbusier (Le Corbusier published Le Modulor 1948 – Wikipedia)

 

Hoje em dia, costumamos dizer que “a Terra é um ovo”, nos referindo ao fato de que, devido à facilidade das comunicações, temos todos ficado muito próximos, tanto física como virtualmente. Assim sendo, eu não poderia deixar de mencionar nosso artista paranaense, o escultor João Turin (1878-1949), que como parte de sua obra Paranista, que hoje pode ser conhecida e visitada no Parque São Lourenço (Memorial Paranista), criou o “Homem-Pinheiro”. Representado em desenho e relevo, apresenta a figura de um nu masculino ( um indígena), de braços abertos, ladeado por araucárias, sendo ele muito maior do que os pinheiros gigantes do Paraná. Essa imagem, de muita simetria, foi a ilustração da capa da revista mensal intitulada “Ilustração Paranaense”, que circulou no estado entre os anos de 1927 e 1930, tendo se tornado uma marca do Movimento Paranista, que visava enaltecer os símbolos do estado tais como a erva-mate, a pinha e o pinhão, que passaram a ser muito utilizados como elementos de arquitetura, arte e design da época.

 

“Mundo pequeno!” esse nosso, cheio de grandes homens e grandes ideias transformadoras. Pena que não tenhamos, ainda, como medir o destino desse nosso pequeno planeta, cheio de grandes belezas, simétricas ou não, medidas por palmos ou segmentos áureos, pela lógica ou pela sensibilidade e pela visão particular de cada homem e sua cultura, como nos fez pensar o filósofo sofista, Protágoras.

 

“Homem-Pinheiro” – baixo relevo de JoãoTurin, bronze (1878-1949.) Acervo João Turin. Fonte: https://joãoturin.com.br/turin_arq_paranismo/

 

Imagem de abertura: “Homem Vitruviano” – desenho de Leonardo da Vinci, 1492 (Foto WWW.lucnix.be 2007-09-08-Wikipedia)

 

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2 Comentários

  • Excelente reflexão, pontuada por exemplos notórios e significativos.

    • Muito obrigada Katia por seu valioso comentário que nos estimula a continuar.

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