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23/06/2024

O vidro, matéria em transformação

vidro

O vidro e o fogo são inseparáveis. Seja a partir do sopro ou de fôrmas, o calor é responsável pela criação e as transformações até o limite que a matéria permite. Transformação é a palavra do vidro! Sempre em constante reutilização: um dia garrafa, no outro vaso e quem sabe, no outro, janela ou peça de arte. A partir de uma mistura de areia de sílica, sódio e cálcio o vidro tem feito parte de nossas vidas, permitindo que nos conheçamos. Por meio dos espelhos aprendemos a nossa forma. Seres visuais e visíveis que somos, enxergamos melhor por meio das lentes e descobrimos a magia das coisas invisíveis com as lupas de aumento. Às vezes frágil, outras vezes de uma resistência inacreditável, o vidro nos hipnotiza e nos ensina sobre nós mesmos. Nós transformamos o vidro e ele nos transforma.

 

Você conhece arte em vidro? Certamente que sim. Os vidros de Murano, na Itália, desenvolvidos por artesãos, com técnica sofisticada, cria varetas de vidro colorido que, ao calor do fogo, se transformam, como mágica. Você já teve oportunidade de ver as esculturas em vidro de Dale Chihuly? São obras fantásticas! Variam de simples tubos a enormes jardins de vidro colorido ou arranjos mágicos tirados do fundo do mar. Muitas vezes suas peças se misturam às plantas de verdade, lembrando caracóis, serpentes, borboletas, sempre se transformando e deixando tudo ainda mais fantástico! É aí, então, que nos vem a dúvida sobre a fragilidade desse material: será que suporta as intempéries? Ou será que, como as flores de verdade, tem sua frágil vida com tempo contado?

 

“Arvore da primavera”, Elizabeth Titton, 2007. Foto de Rubens Nemitz Jr

 

Da minha experiência com a coleção de esculturas “IN Natura”, da qual fazem parte as “Árvores das Estações”, pode-se dizer que resistem. São quatro obras em aço cortado a laser, em cuja composição vivem flores amarelas (primavera), folhas verdes (verão), flocos de neve azuis (inverno) e maçãs vermelhas (outono). Fundidas em vidro e fixadas a árvores por porcas e parafusos, hoje elas vivem em Araucária, na frente do prédio da indústria Merpe, minha parceira na construção da parte de aço das esculturas-árvores. Elas, as árvores, já suportaram muito vento, granizo e muita chuva e, entre mortos e feridos, permanecem lá, ás vezes precisando de substituição. As partes de vidro das esculturas foram desenhadas por mim e entregues à vitralista e escultora, Loire Nissen, para sua confecção e fundição.

 

Obra em “vidro celular”, de Désirée Sessegolo

 

Loire tem uma obra própria, muito rica e original, produzida em vidro transparente (ilustro esta coluna com uma delas). Outra artista de Curitiba, que me encantou com sua arte em vidro, foi Laura Miranda com seus casulos pendentes. Désirée Sessegolo tem se destacado internacionalmente. Desenvolveu uma técnica chamada “vidro celular”, a partir de uma pesquisa própria, em que a placa de vidro fica cheia de furos. A partir desse material, ela cria suas obras de design que têm sido muito premiadas em diversos países. Por muito tempo, no Parque São Lourenço, Maria Helena Saparolli, que hoje tem seu próprio atelier, desenvolve um belo trabalho de vidro e cerâmica, técnicas parceiras no fogo. Ela também tem representado os paranaenses, levando nosso vidro pelos espaços de arte do mundo. Já a tradicional Vidro Aurora continua sua obra de reciclagem de vidro, transformando cacos em encantadores baleiros, queijeiras, vasos e o que mais se puder imaginar. Sempre no bairro São Lourenço, próximo à Pedreira Paulo Leminski, ainda trabalha com o vidro soprado. Muitas vezes levei meus alunos do curso de escultura das Belas Artes para conhecer seus processos tão antigos quanto eficientes.

 

“Por um fio”, Loire Nissen

 

Guardando nossos alimentos, bebidas, sustentando flores em vasos coloridos, ou mensagens jogadas ao mar, o vidro é parte de nós. Tal como ele, somos matéria em transformação e, tal como ele, podemos nos deixar partir, às vezes, em pedaços irremediavelmente pequenos, impossíveis de reparar. Transparentes – em nossas ações, corações e até pensamentos – somos sempre! Resistentes às intempéries? Muitas vezes! E é com o maior cuidado e carinho que esperamos ser tratados, pobres seres frágeis, como o vidro, em constante transformação.

 

(Ilustração da abertura: Obra em vidro do escultor americano Dale Chihuly , postado por Vidrado)

 

Leia outras colunas da Elizabeth Titton aqui.

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