ANO IV

13/07/2026

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Cristóvão Tezza descobre o Brasil com o melhor do mau humor

03/04/2026
tezza

Em sua obra mais famosa – “O Filho Eterno” –, o escritor catarinense radicado no Paraná, Cristóvão Tezza, 72, conta a história de quando residiu em Portugal, cumprindo temporada de estudo e trabalho.

Na verdade, o trabalho era pouco e o estudo quase nenhum. Em um miserê de dar pena, Tezza recebia, a cada mês, uma nota de 100 dólares que vinha pelo correio. Era suficiente para garantir-lhe a sobrevivência até que outro envelope, contendo o mesmo valor, fosse depositado sob sua porta. Fato ou ficção, Tezza disse que o dinheiro era proveniente do cofre do governador de São Paulo, Ademar de Barros, roubado por guerrilheiros perspicazes, entre eles uma certa Dilma Rousseff.

O livro ‘Tirania do Amor’, publicado em 2018, parece retomar, ainda que como pano de fundo, esse fio condutor na obra de Tezza. Principalmente naquilo que a contemporaneidade brasileira tem de mais perigoso: a casta de privilegiados do serviço público, a imposição da identidade e o conceito de democracia racial importado em um país miscigenado desde as caravelas.

No quesito economia, o escritor não tem pruridos em comparar, de forma nada sutil, as políticas econômicas de Ernesto Geisel e Dilma Rousseff. Para Tezza, unha e carne em seu estatismo irracional.

Em entrevista concedida à Folha de S. Paulo por ocasião do lançamento da obra, Tezza não poupou críticas ao esquerdismo dos intelectuais que pululam, em sua maioria, nas universidades públicas. Tezza tem uma tese, com o perdão do trocadilho: diz que o intelectual, no Brasil, é de esquerda porque, “do ponto de vista institucional”, ela é organicamente estatizante. ‘Temos um amor ao Estado. Todos, do milionário ao pobre’, afirma.

É o nosso desatino, que é destino. O homem cordial, propenso ao conforto e à modorra das repetições. E avesso, por consequência, à atividade laboral e tudo que dela emana, inclusive a produtividade.

Tezza tem um histórico de esquerda em um quadro em que esta anulou-se. Principalmente em questões que se tornaram “reducionistas” e avassaladoramente irracionais. Impotente, divorciado, a vida em pandarecos, o economista Otavio Espinhosa, personagem do livro, toma uma decisão radical: abdicar do sexo. A história se passa em 2017 e apela para uma realidade de circo mambembe.

Tezza, o escritor, guarda especial horror ao discurso identitário tão em voga. Já ouviu que não tem direito a utilizar personagens negros em seus romances porque não é negro. ‘Se não posso representar um outro, realmente acabou’. Em ‘Tirania do Amor’, não por acaso, o pai da personagem é negro e a mãe, branca. ‘É a situação de milhões de pessoas no Brasil, é o país mais miscigenado do mundo’, diz.

Tezza insiste: ‘Não vou defender Gilberto Freyre’ (o autor de ‘Casa Grande & Senzala’ e a ideia da bacanal de raças sob as ordens do senhor). Mas desiste: ‘O racismo americano tem a ideia da gota de sangue [negra] que condena [alguém]. Tentam importar essa teoria, isso não faz o mais remoto sentido no Brasil’.

Ah sim, o escritor fala de Lula. ‘As pessoas não estão preocupadas com ele, mas com o preço do abacate’. Ora, se não houve uma quebra institucional brutal, o Brasil continua. Com ou sem governo. Antes ou depois de Bolsonaro.

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