ANO IV

23/06/2026

HojePR

sergio

Diretas Já na Boca Maldita

14/05/2026
diretas já

Normalmente faço uma resenha de livro na segunda quinta-feira de cada mês. Dessa vez vou inovar: farei a resenha de apenas um capítulo do livro recém-lançado “Lula, volume 2: Biografia”, de Fernando Morais. Neste segundo volume da trilogia biográfica de Lula, são reconstituídos os anos finais da ditadura até a vitória do ex-líder sindical em 2002 como o primeiro presidente operário da história do Brasil.

O referido capítulo chama-se “Do general Leônidas a Moraes Moreira, passando pelo poeta Leminski, as Diretas Já decolam na Boca Maldita” e traz revelações interessantes sobre aqueles dias do ano de 1984.

O primeiro furo é sobre a participação do General Leônidas Pires Gonçalves na concepção estratégica do comício das Diretas Já que seria realizado em Curitiba. Conheci o General Leônidas, eu ainda menino, em Itu, interior de São Paulo, quando ele comandava o quartel local e meu pai, Justo de Morais, servia lá como capitão. Como o mais brilhante oficial de sua turma, Leônidas Pires tinha uma aura de que exerceria importantes funções no futuro e realmente ascendeu até ser ministro do Exército no governo de Sarney, onde exerceu papel fundamental na consolidação da democracia. Outro ponto positivo em sua biografia: foi ele quem comandou a saída do Exército daquele tenente insubordinado de nome Jair Bolsonaro.

Graças ao seu tino político, Leônidas pressentiu que a ditadura estava agonizante e procurava contatos no meio civil. O personagem que operaria essa delicada aproximação foi o governador do Paraná, José Richa. Filho de libaneses e fã de uma mesa de buraco, Richa subira um por um os degraus de uma carreira política vitoriosa: deputado, prefeito de Londrina, senador e, em 1982, governador do estado, pelo PMDB, partido que ajudara a fundar. Como a maioria dos dez governadores eleitos pela oposição (nove do MDB e um, Leonel Brizola, do PDT), Richa estava comprometido com a campanha das Diretas. E, também, como as demais lideranças, escaldado com o malogro dos primeiros comícios realizados em Goiânia e São Paulo. Segundo Fernando Morais:

“Naqueles primeiros dias de janeiro de 1984, quando ainda se decidia a data e o lugar da manifestação seguinte, Richa recebeu uma enigmática recomendação. O general de exército Leônidas Pires Gonçalves, comandante do III Exército (depois rebatizado de Comando Militar do Sul), com quem Richa mantinha relações respeitosas e cordiais, armara em segredo um encontro com o governador paranaense na capital gaúcha, sede do III Exército no Sul, para sussurrar-lhe uma sugestão: “Richa, proponha ao comando da campanha das Diretas Já fazer o próximo comício na Boca Maldita…” Cuidando para dificultar eventuais grampos de sua conversa, o que certamente estava acontecendo, o general Leônidas parecia animado com sua ideia: “Governador Richa, a capital do Paraná é um termômetro da média da opinião pública brasileira. Um espelho. O que dá certo em Curitiba, dá certo no Brasil. Testem as Diretas Já em Curitiba. Se passar pela prova, a campanha decolará em todo o Brasil”. A proposta parecia de fato muito boa.”

Quem morava aqui na época certamente se lembra. Durante muitos anos, Curitiba funcionou como uma espécie de cidade-laboratório em que sua população de 1 milhão de habitantes virava cobaia para testar a reação a lançamentos de produtos ou serviços. Até peças de teatro e shows musicais eram lançados aqui: se o exigente público curitibano aplaudisse, seria sucesso garantido no resto do país. Por não exibir contrastes sociais extremos, nem a miséria visível do Rio e de São Paulo, Curitiba funcionava para pesquisadores de opinião pública como um típico centro de classe média. “Curitiba era o Brasil de que se ocupavam as agências de propaganda”, diria anos mais tarde o sociólogo Marcos Coimbra, do Instituto Vox Populi. “Um Brasil branco e de vida confortável não era o Brasil de verdade.” Com o tempo, os testes de mercado passaram a ser feitos em São Paulo (notadamente no bairro de Moema), mas naquela época Curitiba era o lugar para os publicitários.

Ao ser informado pelo governador da conversa com o general, Euclides Scalco, chefe da Casa Civil de Richa, via aquilo com olhar desconfiado: “Curitiba pode ser um bom termômetro… Mas na minha opinião aqui se medirá se essa questão das Diretas pega em uma cidade conservadora como a nossa”.

Embalados pela expectativa de que aquele comício lhes daria a exata medida da força das oposições, os caciques jogaram pesado na montagem do ato da Boca Maldita. Estavam envolvidos na convocação José Richa, os governadores de São Paulo, Franco Montoro, e de Minas Gerais, Tancredo Neves, o presidente nacional do PMDB, Ulysses Guimarães e o prefeito de Curitiba, Maurício Fruet. Além dos políticos entraram na campanha pró comício dezenas de artistas, entre os quais Raul Cortez, Bete Mendes, Martinho da Vila, Ítala Nandi, Bruna Lombardi, Regina Duarte (quem diria!), Irene Ravache, Walmor Chagas, Ruth Escobar, Juca de Oliveira, Maria Della Costa, o saudoso Antônio Abujamra e João Batista de Andrade.

Os organizadores do comício se socorreram de duas agências locais de propaganda que atendiam o PMDB paranaense, a Master e a Exclam, e elas trabalharam a quatro mãos para criar o que virou o slogan-símbolo da campanha: “Eu quero votar para presidente”, como se tivesse sido rabiscada com o dedo, e o quadradinho do voto (ainda não havia urnas eletrônicas) ticado, como numa cédula eleitoral. Antônio Luís de Freitas, o “Toninho da Master”, pretendia que da Boca Maldita saísse não apenas o símbolo, mas o hino da campanha. E encomendou a autoria para o funcionário mais famoso da Exclam: o poeta Paulo Leminski. Lembro de tê-lo conhecido lá, quando a agência ficava na Rua 7 de Abril, apresentado pelo artista plástico Rettamozo, que com Leminski e o cartunista Solda compunham um trio de criação infernal. A elaboração da letra ficou por conta de Leminski, claro, e a da melodia com o Moraes Moreira, um dos fundadores do grupo Novos Baianos. Após horas e horas de telefonemas entre Curitiba e Salvador, os dois deram por terminado o “Frevo das Diretas”, cujo estribilho era:

Se a meta é a democracia
Se a democracia é a meta
Eleição é direta
Eleição é direta
Eleição é direta

Segundo Fernando Morais: “Ao saber que a dupla havia composto uma música para o comício, a censura enfiou a pata. Alegando que um dos autores (Moraes Moreira) era um músico profissional como qualquer outro, o frevo tinha que cumprir a lei e ser submetido a censura prévia. O jingle contagiante acabou fazendo muito sucesso, mas só foi liberado depois do comício de Curitiba e estreou no dia 25 de janeiro, na praça da Sé, em São Paulo.”

O comício da Boca Maldita também se notabilizou por ser o primeiro em que participaram dois dos mais populares comunicadores de rádio e TV do país: Osmar Santos, titular do programa Balancê, da Rádio Excelsior, e Fausto Silva, o “Faustão”, que apresentava na TV Gazeta o Perdidos na Noite. O tratamento que os dois deram ao comício de Curitiba fez tanto sucesso que, eles se converteram em símbolos da campanha. Osmar Santos ainda teria outra relevante função: levar ao palanque das Diretas os jogadores da Democracia Corinthiana, como Sócrates, Casagrande e Vladimir.

A expectativa pelo resultado do comício de Curitiba contaminou até jornalistas calejados e experimentados em cobrir campanhas políticas desde antes do golpe de 1964. Entre estes estava “Carlinhos” Brickmann, destacado pela Folha de S.Paulo para a cobertura do ato na capital paranaense. A reação de Brickmann talvez seja a que melhor resumiu o que se passou em Curitiba naquela noite. Terminado o comício, o jornalista pegou o primeiro voo em direção a São Paulo, entrou na redação com os braços abertos e berrou: “Preparem-se! A coisa pegou!”

Os leitores da Folha do dia seguinte iam entender, no texto publicado por Brickmann na primeira página do jornal, o que ele queria dizer com “a coisa pegou”:

Em Curitiba, 50 mil pedem diretas
Carlos Brickmann
Enviado especial a Curitiba

“Os mais otimistas esperavam 30 mil pessoas. E vieram, no mínimo, 50 mil (houve até quem calculasse o número em 60 mil), uma multidão alegre e pacífica que, durante quase quatro horas, prestigiou o comício com que os partidos de oposição lançaram a campanha nacional pelas eleições diretas. Curitiba quase parou após o início da manifestação: espaIhou-se pela cidade um clima de feriado. E a grande preocupação da cidade foi mesmo discutir as diretas.

“A multidão ocupou as ruas centrais da capital paranaense para ouvir os oradores; e não houve qualquer incidente. A polícia não precisou intervir nenhuma vez. Na verdade, o dia de ontem foi de autêntica festa pelas eleições diretas. No comício, falaram os governadores do Paraná, José Richa; de São Paulo, Franco Montoro; Minas Gerais, Tancredo Neves; presidente nacional do PMDB, Ulysses Guimarães (que fez o discurso mais violento); o locutor Osmar Santos, a atriz Bete Mendes, o ator Raul Cortez, o prefeito de Curitiba, Maurício Fruet, e o compositor Martinho da Vila.

“Um momento emocionante: o representante do presidente argentino Raúl Alfonsín, Juan Carlos Quintana, foi delirantemente ovacionado pela multidão ao falar pelas diretas.”

No dia seguinte, com todos os jornais — Folha inclusive — já impressos e distribuídos pelo país, é que se soube: o inflamado e aplaudidíssimo Juan Carlos Quintana não tinha esse nome, não era representante do presidente Alfonsin nem era deputado, como anunciara, mas um agente plantado pelo SNI. O plano dos porões do regime era criar o pretexto para acusar os dirigentes da campanha das Diretas de receberem apoio estrangeiro, algo proibido por lei. O sucesso do comício fora tão grande, porém, que o episódio do espião não mereceu mais que notas de pé de página. Treze dias depois, em São Paulo, ficou demonstrado de fato que a coisa tinha pegado. Ninguém calculou com precisão o tamanho do público no comício da praça da Sé, mas o senso comum assegurou que havia certamente 300 mil pessoas diante do palanque armado nas escadarias da catedral da Sé. Começara em Curitiba a escalada de grandes manifestações em todo o país.

Ultimamente, o ex-senador Álvaro Dias tem espalhado uma versão de que ele seria o principal estrategista do comício da Boca Maldita. Para seu azar, não há uma única linha no livro de Fernando Morais sobre sua participação no evento.

O mais importante a se dizer é que, finalmente, a conservadora Curitiba vivia um momento de vanguarda na política nacional, naquele dia 12 de janeiro de 1984. E eu, humildemente, estava lá com meus amigos, no meio da gigantesca multidão.

(Foto: MIS)

Leia outras colunas Frente Fria aqui.

Leia outras notícias no HojePR.
• Siga o HojePR no Instagram.