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22/02/2024

CRÔNICA

Sem Categoria

Domingo

 Domingo

Por Daniela Amaral

 

Naquela noite ela sentou-se em frente ao computador pronta para analisar e refazer a sua planilha de gastos do mês. Domingo nunca fora o seu dia favorito, então aliava o tédio da sua vida financeira ao clima pesado que a noite daquele dia da semana trazia. A cada célula formatada, cada dado informado se via mais entediada, em um beco sem saída. Afinal, organização financeira nunca foi o seu forte. Cansada, olhou para a tela do notebook e decidiu que era hora de parar.

 

Havia algo que a perturbava, talvez fossem as contas do mês que não fechavam ou a necessidade de recomeçar mais uma semana. Ela sentia medo, esse era um sentimento sempre presente na sua vida. Não havia receio sobre o futuro ou nada aliado ao palpável, só sentia algo no ar, que lhe gelava a espinha. Temerosa, achou melhor deitar-se, já era tarde e suas finanças não se resolveriam com uma fórmula mágica. Fechou o notebook, levantou-se, passou pela gata que estava preguiçosamente esticada no sofá e a acariciou na cabeça, ela tinha a mania de achar que isso atraia a “boa sorte”.

 

Foi em direção ao quarto, olhou para cama e se sentiu acolhida, protegida, sim, ali estaria melhor. Ajeitou as cobertas, afofou os travesseiros e quando tudo estava pronto; apagou a luz, deitou-se com os pensamentos a mil, não podia mais pensar em nada, somente precisava descansar. Mas quando fechou os olhos, quando finalmente estava quase pegando no sono, lembrou-se de que não havia tomado o seu remédio, fingiu esquecer, tentou ignorar, mas se sentiu culpada. Com um desânimo quase descomunal, jogou as pernas para fora da cama, sentando-se de forma desajeitada. No escuro, apalpando a mesa da cabeceira ao lado da cama, buscou o celular para clarear o quarto.

 

Ao acender a lanterna, estremeceu ao iluminar dois grandes olhos de fogo. A adrenalina que correu em seu corpo. Em meio ao terror e em questão de segundos conseguiu raciocinar e imediatamente, disse:

 

– Que inferno, Ragner! Odeio quando você faz isso! Já falei que não quero você à noite no meu quarto. Se manda daqui gato, vai para a sala dormir com a sua mãe.

 

Em um gesto ríspido, levantou e acendeu a luz. Foi quando o gato a olhou por um instante e começou a lamber a pata de forma despreocupada. Todas as palavras dirigidas para ele era algo aquém do que estava fazendo. Até que ele parou, uniu as patas e sentou-se de forma elegante. Começou a encará-la, naquele olhar felino havia tanta altivez que a fez admirá-lo. Era fascinante como a vida daquele pequeno animal podia ser tão simples. Ao contrário dos humanos, ele não buscava de forma incansável uma felicidade inatingível em coisas ou pessoas. Naqueles olhos azuis, havia a serenidade de quem vivia a vida minuto a minuto. As suas vontades eram traçadas a todo instante, não havia planos, em um segundo ele decidia cada passo: dormir, brincar, dançar, correr, viver. A simplicidade daquela vida trouxe a ela outros sentimentos naquela noite. Ali, parada, sentiu, inveja! A lógica da simplicidade daquela vida felina era uma matemática perfeita. E sim, havia desprezo naquele olhar. Desdém pela loucura humana da busca constante em se tornar algo ou alguém. Olhando aqueles pequenos olhos azuis, ela navegou para o lugar que mais sentia saudade. O mar. Instantaneamente, lembrou-se da sensação de pisar na areia, do sol ardendo na pele, a brisa suave no rosto, o som das ondas e se sentiu desprezível. Pois, naquele momento, viu o quanto ela estava morta por dentro, para ser o que não era, para ter o que não importava, ela se privou de tudo que a fazia se sentir viva. A sensação de medo foi esquecida e diante daquele olhar felino, daquele pequeno ser, sentiu-se envergonhada, ínfima. Através daqueles pequenos olhos, enxergou a grandeza de uma vida. Ali, percebeu a insanidade que se colocara. E, mais uma vez, experimentou um novo sentimento. Esperança! Tudo podia ser diferente, tudo poderia ser melhor. Em meio a todas aquelas resoluções e agora novos planos para uma vida única, sentiu que o gato se enroscava e deslizava em suas pernas, fazendo a sua dança de sedução. Ela o segurou nos braços, beijou-lhe as bochechas, o apertou de forma brutal. Agradeceu ao pequeno animal por ter lhe mostrado que a vida é muito mais que boletos a serem pagos e coisas a serem adquiridas.

 

Caminhou até a porta e abriu para que ele saísse do quarto e se juntasse à mãe, que estava no sofá da sala. Nessa confusão de gestos, entre apertar o gato e ainda segurar o celular na mão, acabou deixando o aparelho cair no chão. Imediatamente começou a maldizer o bicho e pegou o smartphone que havia caído. A queda fez com que trincasse a tela do aparelho. E o silêncio daquela madrugada foi rompido:

 

– Puta merda, Ragner! Por tua culpa vou ter que refazer a minha planilha!


Daniela Amaral é bibliotecária por formação e escritora por vocação.

1 Comentário

  • Crônica Genial…
    Nos faz refletir como já dito, nos pequenos prazeres e momentos de nossas vidas, que muitas vezes em meio ao caos do dia a dia e na maioria das vezes por ser considerado tão simplório acabam caindo no esquecimento, colocados de lado….
    Parabéns a autora.

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