Sábado à tarde. A rua vazia.
O comércio fecha com o barulho seco das portas de ferro encerrando o expediente. Lembro-me do som do portão da garagem do meu avô.
Ninguém nas calçadas – a cidade morta.
Vejo o reflexo das minhas pernas nas vitrines, trançando-se ligeiras. Sempre caminhei com pressa, cheia de tarefas urgentes.
Tinha que voltar logo para casa. O que servirei no jantar? Conseguirei fazer a sobremesa? Onde passo antes: Mercado, padaria, açougue?
Outras preocupações também me obrigavam a acelerar o ritmo – corpo e mente. O jardineiro vai aparecer? E a consulta da filha? Preciso buscar alguém hoje — ainda há quem me espere?
Que estranho… não há ninguém na rua.
Aromas me distraem – cigarro, perfume perdido no ar, café velho. De repente a fragrância dos junquilhos chega até mim, inesperada. Como um agrado do Céu, um alívio aos sentidos.
Junquilhos remetem à infância. Colocados na água, seu doce frescor permanecia, por dias, emanando felicidade.
Percebo, então, que não estou tão só. Há memórias. A rua vazia varria vento de flor em mim.
Sempre li e ouvi: a vida é sozinha. Isso soava distante, como conversa sem assunto, melhor, falta de conversa. Mas chegou o dia em que sou mais minha do que de ninguém.
E o que faço com tanta Maria?
A vida é só minha.
Meus amores tinham asas e eu não sabia. Será? Fingia, fugia.
A casa está grande demais: sobram camas e lugares à mesa. As portas não batem, nem há vozes brincando, rindo ou brigando. Não há pés correndo na escada, nem ninguém descendo pelo corrimão.
Nos varais, há espaço para pendurar as saudades, e o silêncio toma conta. De repente, se instala a pior das sinfonias.
O entardecer de quem jogou a rede milhares de vezes vem junto com o aviso: é tempo de compreender que o sim e o não não são para sempre. As linhas tortuosas por onde a vida nos leva nem sempre são justas. Mas ressentir-se pelas flores despedaçadas não é mais opção.
É necessário tatear a humildade. Aceitar que somos passagem na vida de quem amamos. Brincar com a esperança. E reconhecer que o final do filme é sempre uma surpresa.
Aqui dentro, um sino insiste em tocar.
Vozes ecoam insistentes:
— Mãe, cadê você?
— Deus, você ainda está aqui?
Sossego a solidão.Trago à lembrança as felicidades passadas, perdoo as pisadas.
E espero a ressurreição.
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