ANO IV

13/07/2026

HojePR

LOUCOS POR NATAL

Eles começam a se preparar em junho, gastam muito dinheiro e contam suas histórias

21/12/2025
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Andressa Bofete, de 30 anos, não consegue segurar a risada quando ouve a pergunta que a reportagem faz para sua mãe: ‘quanto a senhora já gastou com decoração de Natal?’. Edilaine Bofete, de 58 anos, também ri – e responde que não tem noção. Nem arrependimento. “Se eu pudesse comprar tudo, eu comprava. Fico enlouquecida quando entro em loja de Natal”, brinca.

Edilaine não está sozinha. Como ela, há uma legião de pessoas que se dedicam demais e investem pesado para ter uma decoração natalina aconchegante e digna de filme de Hollywood. São os “loucos por Natal” – aposto que você conhece um.

O que talvez poucos saibam é que no meio do ano já tem gente fazendo buscas por enfeites. A Camicado, rede de lojas de artigos para casa e decoração, por exemplo, registrou mais de 35 mil buscas por itens de Natal em junho.

Edilaine mostra orgulhosa os itens que coleciona desde que montou sua primeira árvore de Natal com o então namorado (e, agora, marido), como um pino de vidro pendurado que usa até hoje. Mostra também um enfeite personalizado com a cara de sua cachorrinha, Cacau. Ela já teve árvores de todos os tipos: das que duraram 3 anos às naturais. “Eu sempre dou um jeito de comprar umas coisinhas novas, mas tudo é sempre em verde, vermelho ou dourado”, conta ela.

Montar a árvore, claro, é tradição na família há anos. Mesmo já não morando com a mãe, Andressa vai à casa dela para o “evento” – que, neste ano, ocupou um domingo inteiro do início de novembro. “O ‘bichinho do Natal’ me mordeu e agora eu estou enfeitando minha casa também”, diz Andressa.

Casa vira ponto turístico no Natal de Patos de Minas

Na casa de Solange Seibt, de 68 anos, a montagem da decoração demora cerca de um mês. E não é para menos: ela tem uma coleção enorme de Papai Noel e sua casa virou até ponto turístico em Patos de Minas, no interior de Minas Gerais. Agora, os moradores da cidade se referem à residência como “a casa do Papai Noel”.

Natural do Rio Grande do Sul, Solange começou a enfeitar a casa por “estranhar” que não havia essa tradição em sua nova cidade. Isso foi há 40 anos. Agora, os vizinhos também decoram suas casas.

“Nós não celebramos o Natal em apenas um dia. Celebramos um mês inteiro”, orgulha-se Maria Eduarda Seibt, neta de Solange, de 22 anos. Na casa da avó, há um Papai Noel de 2 metros de altura, os mais “comuns” e os trazidos do exterior. Quem viaja e encontra um Papai Noel logo lembra de Solange.

Natal todo dia

O empresário Claudio Campana, de 53 anos, também é louco por Natal, mas de um jeito diferente. Ele é dono da rede de lojas Mania de Natal, no mercado desde 1994. Ao todo, Claudio é proprietário de quatro lojas de varejo em São Paulo e uma loja online. Sua família também administra uma fábrica de produtos de Natal vendidos nos estabelecimentos.

Campana respira Natal o ano todo. Suas lojas localizadas no centro de São Paulo ficam abertas vendendo itens para festa, enquanto as outras, em outros bairros, fecham e abrem apenas para vender decorações natalinas. O e-commerce funciona o ano todo. Recentemente, os estabelecimentos também começaram a apostar em outras festividades, como carnaval, Páscoa e Halloween.

Enquanto as pessoas organizam os últimos detalhes para a celebração do Natal de 2025, o empresário já está com uma viagem marcada para a China para conferir as tendências para o Natal de 2026. E conta que até atua como “conselheiro” dos exportadores – uma vez, ligaram para que ele opinasse sobre o tom de verde de um dos presépios, que hoje está à venda em sua loja.

Os presépios, no entanto, não vivem seus melhores dias, no que diz respeito à preferência dos clientes. A bola da vez são as almofadinhas no formato de gingerbread (aquelas bolachas de bonequinhos) e pelúcias do Grinch, o personagem dos livros de Dr. Seuss que ganhou popularidade mundial depois do filme e da animação – sempre em alta nessa época do ano. “Quando eu olhei isso [o Grinch], pensei: ‘Meu Deus, que coisa horrível’. Mas foi um estouro”, conta Claudio.

O empresário revela que se apaixonou por Natal ao mesmo tempo em que se apaixonou pela mulher, Silvana, que também trabalha na loja com ele. Ainda pequena, Silvana trabalhava em uma fábrica de bolinhas de vidro para o Natal. Anos depois, na adolescência, conheceu o Claudio, que começou a trabalhar na loja da família dela. Claudio decidiu, então, se dedicar ao comércio natalino e ir se atualizando, ano a ano, sobre as tendências.

“Não ficamos parados, se não nós morreríamos”, comenta ele. “O único troféu que eu tenho é um conhecimento danado de Natal.”

O Natal na 25 de Março

Estabelecimentos da região da 25 de Março, em São Paulo, também percebem um aumento da procura. “Esse ano foi fantástico”, comemora Bruna Monari, CEO da rede de lojas Rizzo. Bruna diz que a busca por itens natalinos começa já em agosto, principalmente por decoradores, e muitos produtos já começam a esgotar em outubro. “Algumas pessoas realmente são alucinadas pelo Natal. Elas passam o dia inteiro aqui, escolhendo as coisas”, diz.

A varejista Camicado alavanca as vendas com coleções especiais para o Natal. Neste ano, o faturamento da linha natalina cresceu 29,7% e a procura pelos itens teve um aumento de 44%. Essa busca começou cedo, mas ficou concentrada nos dois últimos meses do ano. Dentre os itens mais vendidos, estão árvores de Natal decoradas, guirlandas e almofadas temáticas.

Uma pesquisa realizada pela PiniOn a pedido da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e enviada ao Estadão na última terça, 16, mostrou que a maioria das compras de Natal são realizadas presencialmente (corresponde a 48,1%). A plataforma de vendas Shopee, porém, também viu um crescimento na procura pelos itens. O aumento foi mais de 60% em pedidos com o termo “Natal” e de 30% nas buscas.

No fundo, investir pesado em decoração é associar o feriado com momentos bons em família. É o caso de Edilaine Bofete, que terá um Natal diferente neste ano. “Eu perdi meu pai no último Natal. Ele já estava doente e passamos o domingo de Natal juntos. Ele falou: ‘Se eu morrer hoje, eu morro feliz’. Meu pai morreu quatro dias depois, no dia 29. Então, para mim, Natal é sempre aproveitar cada momento com a família”, diz ela.

Na casa do Papai Noel de Solange Seibt, o Natal sempre vai significar luz. “Para mim, é vida, renascer, união com a família… Eu acho o Natal tudo de bom.”

(Imagem: divulgação)

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