ANO IV

07/06/2026

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FRAUDE E CORRUPÇÃO

Entenda como estão as investigações do caso Master e quem é quem nesse escândalo

01/03/2026
fachada do banco master

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Teia, pirâmide, novelo e outras metáforas para fraudes complexas têm sido usadas pela Polícia Federal (PF) e pelo Ministério Público Federal (MPF) para tentar explicar a novela do Banco Master. Não é para menos. Cada fio puxado traz outras frentes de investigação, que envolvem literalmente centenas de possiblidades.

Até agora, foram quebrados os sigilos bancários de 101 pessoas e entidades, citados mais de 30 fundos de investimento que se entrecruzam e uma rede com mais de 60 pessoas jurídicas, entre empresas operacionais, de fachada e consultorias e prestadores de serviços. Ligados apenas à rede de Daniel Vorcaro, controlador do banco, há nada menos do que 2,5 mil CNPJs.

Procurada, a defesa de Vorcaro afirmou que as investigações estão em curso e não resultaram, até o momento, em denúncia formal. Outro citado na reportagem, o ex-sócio do Master Maurício Quadrado negou a prática de qualquer ato ilícito (leia posicionamento completo de ambos no fim da reportagem).

“Não estamos diante de uma falha de gestão ou de um crescimento desordenado”, afirmou Andrei Rodrigues, diretor geral da PF, na entrevista em que falou sobre a segunda fase da Operação Compliance Zero. “As investigações demonstram que houve a montagem deliberada de uma teia de engenharia financeira, desenhada especificamente para tornar o esquema impenetrável aos órgãos de controle e mascarar o desvio bilionário de recursos públicos e privados.”

Para tentar desfiar esse novelo para os leitores, o Estadão reuniu de maneira resumida o histórico do banco, os principais personagens envolvidos e algumas das investigações levadas adiante por autoridades. Gráficos também tentam facilitar o entendimento da longa cadeia de acontecimentos.

Frentes de captação

De maneira simplificada, o Master nasceu a partir do Banco Máxima, adquirido por Vorcaro em 2017. Ele conseguiu a autorização do Banco Central (BC) para assumir o banco em 2019 e mudou o nome para Master em 2021.

O negócio cresceu com a captação de recursos em algumas frentes. A mais relevante são dos CDBs que pagavam ao investidor muito mais do que os concorrentes. Por ser um banco desconhecido, o Master usava como marketing de vendas e plano de negócios o suporte oferecido pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC): em caso de quebra do banco, o fundo (que é privado e conta com contribuição de todos os bancos) garantia de volta até R$ 250 mil por CPF.

O Master também cresceu graças ao crédito consignado (descontado no contracheque) e ao cartão de benefícios consignado Credcesta. Essa área era tocada por Augusto Lima, que foi CEO do Master até 2024. Procurado, Lima não respondeu ao pedido de entrevista.

Havia ainda a frente que passou a captar recursos com fundos de previdência de Estados e municípios, após uma mudança na regulação promovida pelo Banco Central tentar barrar a captação desenfreada de CDBs.

Investimentos de risco

Simultaneamente, os recursos captados eram investidos numa série de ativos de alto risco. O Master, por exemplo, era um comprador massivo de precatórios. Também investia em participações e em empresas em dificuldades.

Esse braço era comandado pelo terceiro sócio do Master, Maurício Quadrado. Considerado o estrategista da área de aquisições, ele é o controlador da Trustee DTVM, uma distribuidora de títulos que administrava fundos centrais para a engenharia financeira do banco.

A Trustee atuava de maneira bastante próxima da Reag Investimentos, de João Carlos Mansur. Ele é apontado como operador da engrenagem das aquisições do banco. A Reag é investigada na Operação Carbono Oculto, que desvenda os elos da Faria Lima com o PCC. Procurado, Mansur também não respondeu ao pedido de entrevista.

Em paralelo, o investidor Nelson Tanure investia nas mesmas empresas problemáticas que o Master. Uma das suas frentes operacionais era a gestora de recursos WNT Capital. Tanure também preferiu não conceder entrevista

Todo esse sistema era azeitado por uma rede com conexões políticas, regadas a festas, patrocínios e contratações de pessoas influentes junto aos três poderes, que ampliava a rede de contatos e permitia a realização de mais negócios.

Suspeitas de crimes investigados por autoridades

Como resultado de toda essa movimentação, os ativos do Master passaram de R$ 15 bilhões, em 2021, para R$ 63 bilhões em 2024, segundo dados do último balanço divulgado. Essa potência, que depois as autoridades descobririam estar insolvente, teve sua aquisição pelo Banco de Brasília (BRB) anunciada há quase um ano, no final de março do ano passado.

A transação seria vetada em setembro pelo BC. Em novembro, foi anunciado que o Grupo Fictor, comandada por Rafael Gois, adquiriria o Master.

No dia seguinte a esse anúncio, porém, o Master foi liquidado. Posteriormente, descobriu-se uma série de negócios também suspeitos entre Fictor e Master. Gois respondeu, por meio da Fictor, que o “grupo confia no esclarecimento dos fatos e reafirma seu compromisso com a legalidade, a governança e a transparência” (leia posicionamento no fim da reportagem).

Investigações conduzidas em pelo menos 14 frentes e por diferentes autoridades mostraram fraudes em quase todas as linhas de atuação do banco. Na mesma coletiva da segunda fase da Compliance Zero, Rodrigues afirmou que a PF encontrou evidências de que o banco mantinha uma “contabilidade paralela” para gerir essa teia complexa e fraudulenta.

A linha de irregularidades começa antes de o Master ser efetivamente criado. Tanto Vorcaro quanto Quadrado eram alvos de inquéritos policiais, posteriormente trancados por motivos diversos, quando receberam o aval do BC para se tornarem banqueiros. A reputação ilibada é um dos critérios obrigatórios considerados pela autoridade monetária para conceder essa autorização. Além disso, entre outras suspeitas prévias ao negócio ser criado, uma investigação da PF de 2019 viu supervalorização em ativos usados para comprar o Máxima.

Apesar de as operações com CDBs não serem irregulares, o volume de captações fez com que diferentes atores alertassem o BC sobre o risco do banco pelo menos dois anos antes de a crise eclodir.

Já os aportes obtidos com fundos de previdências de Estados e municípios também estão sob investigação por possíveis irregularidades. Investimentos feitos por essas instituições no Master se tornaram os principais eixos das operações Barco de Papel e Zona Cinzenta, da PF.

A frente de crédito consignado, comandada por Augusto Lima, vem sendo investigada tanto pela CPMI do INSS quanto pela PF, que suspeita do uso de associações de servidores públicos para criar carteiras de crédito falsas. Parte delas foi vendida ao BRB.

Lima também está na mira de investigações que buscam entender se ativos do Master foram desviados para o banco Pleno, que controlava. Procurado, Lima não respondeu a pedido de entrevista. Reportagem do Estadão mostrou que o consignado do Master distribuiu lucros milionários e foi parar na teia de fundos da Reag.

Por outro lado, há ainda suspeitas de que os precatórios teriam sido superfaturados no balanço do Master. Em outras palavras, eles seriam comprados por valores baixos, mas “marcados” como se valessem muito mais. O objetivo seria mostrar que o balanço do banco era sólido, para poder continuar tendo lastro e captar mais CDBs.

O volume de precatórios e pré-precatórios (quando ainda não há a decisão final da Justiça sobre a causa) do Master também se tornou tão grande que foi um um dos motivos para que o BC endurecesse as regras de registro desse tipo de ativo no balanço dos bancos, em abril de 2025.

As participações em empresas feitas pelo Master e o grupo teriam o mesmo objetivo, segundo as investigações: como eram companhias de capital aberto, com baixa liquidez, sua manipulação no mercado de capitais permitiria inflar artificialmente o balanço do banco ou aumentar o lucro dos parceiros nos negócios. Além disso, parte do caixa das empresas adquiridas era usado para investir em papéis do Master − e permitir que continuasse captando CDBs.

Uma das mais conhecidas operações nessa área foi feita com ações da Ambipar, que se tornou a empresa com maior alta na Bolsa em 2024. Essa manipulação teria permitido a Tanure adquirir a empresa de energia Emae (já que ele deu os papéis da Ambipar como garantia de empréstimo). Segundo reportagem do UOL, Quadrado lucrou R$ 1,2 bilhão com o esquema.

Além disso, auditorias recentes revelaram que Quadrado, junto a Vorcaro, adquiriram ações do BRB por meio de fundos, tornando-se sócios ocultos da instituição pública que tentou comprar o Master.

Por seu lado, Tanure é alvo de um inquérito policial que investiga sua proximidade com o banco e se seria o verdadeiro controlador do Master. Isso porque, além de investir nas mesmas empresas que o grupo, parte do caixa das companhias que tinha participação, bem como coligadas a elas, era aplicado em papéis do Master.

Lima, Mansur e Vorcaro: comemorações para o crescimento acelerado de Master e Reag Foto: Redes/João Carlos Mansur

 

Já Mansur vem sendo investigado por usar a estrutura da Reag também para turbinar o Master. Uma das suspeitas é que a Reag comprava ativos (como precatórios) e os inflava com os recursos transitando de fundo para fundo.

Em outra frente, há uma investigação aberta para apurar se houve triangulação com investimentos feitos por Mansur, Vorcaro e Quadrado no BRB. Eles compraram ações do banco público e a suspeita é que o objetivo seria aumentar a solidez do BRB de maneira artificial.

A aparição da Fictor como salvadora do banco Master, às vésperas da liquidação pelo BC, colocou sob os holofotes um participante da teia desconhecido até então. A Fictor tinha relações com a Titan, a holding de investimentos pessoais de Vorcaro, também investigada por autoridades.

Prejuízos em série

Ao desfiar esse novelo, os prejuízos − que afetam a todos os brasileiros − começam a ser contabilizados. O maior deles, até agora, é o desembolso de R$ 52 bilhões por parte do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Itaú, Bradesco e Santander podem ter de desembolsar R$ 30 bilhões para cobrir o rombo. Isso encarece o crédito no País de maneira geral.

Há ainda outros pelo menos R$ 2 bilhões investidos no Master por fundos de previdência públicos, bem como o caixa de empresas ligadas à rede próxima a Vorcaro. Apenas a empresa de energia Emae, o fundo de previdência Lightpar, a rede varejista Dia e a Alliança Saúde, investidas ou sob influência de Tanure, tinham R$ 3,4 bilhões investidos no Master. Talvez esse dinheiro volte aos donos após a liquidação ser finalizada.

A malfadada aquisição da instituição pelo BRB também resultou em perdas para o banco público. Atualmente, a instituição tenta se desfazer de ativos para recompor o rombo no caixa, causado pela compra de carteiras de crédito fraudulentas do Master, enquanto negociava sua aquisição. O banco já pediu um aporte de quase R$ 9 bilhões e a hipótese de federalização vem sendo cogitada.

As defesas

Além de afirmar que as investigações “encontram-se em curso e não resultaram, até o momento, em denúncia formal”, a defesa de Vorcaro nega qualquer irregularidade.

“No que se refere ao BRB, a defesa reitera que a participação acionária do Banco Master ocorreu de forma regular, em aumento de capital aprovado pelas instâncias competentes e devidamente registrado”, escreve a defesa, em nota. “Quanto às alegações envolvendo influenciadores digitais, a defesa já afirmou anteriormente que Daniel Vorcaro não participou de campanhas de ataque a autoridades ou instituições, sendo, ao contrário, alvo de disseminação de informações falsas e vazamentos seletivos que vêm sendo apurados.”

Além disso, Vorcaro “segue colaborando integralmente com as autoridades e confia que a apuração técnica dos fatos afastará ilações e narrativas que não refletem a realidade”.

Já Mauricio Quadrado “nega a prática de qualquer ato ilícito. Desde setembro de 2024 formalizou junto ao Banco Central a sua retirada do grupo Master, não tendo qualquer participação na negociação de alienação do Banco ao BRB”.

Também afirma que “jamais esteve à frente de qualquer fundo ou estrutura com finalidade de promover retirada ilícita de recursos do Banco Master ou de qualquer instituição. Todas as suas participações societárias são regularmente declaradas e registradas perante as autoridades competentes, inexistindo qualquer estrutura de controle oculto ou sócios não declarados.”

Além disso, Quadrado “permanece a disposição das autoridades competentes, prestando todos os esclarecimentos necessários”.

Já o Grupo Fictor diz “que a proposta envolvendo o Banco Master foi formalizada por meio de contrato válido, com cláusulas condicionantes típicas desse tipo de operação, incluindo diligência prévia, ajuste de preço conforme a validação dos ativos e dependência de aprovação regulatória”.

“A constituição de holding específica e a previsão de capital social ‘a integralizar’ seguiram rito societário regular, comum em operações condicionadas à entrada futura de investidor. Capital a integralizar não representa disponibilidade imediata de recursos. Como a transação não foi concluída, os atos preparatórios foram revertidos, sem integralização de valores ou prejuízo a terceiros”, escreve o grupo, em nota. “Não houve simulação de capacidade financeira nem apresentação de informações falsas a autoridades. Todas as tratativas ocorreram por meio de documentação formal e dentro dos fluxos institucionais adequados.”

Em relação à Titan Capital Holding, o grupo diz ter sido uma decorrência de “operação comercial específica, formalizada por contratos regulares. A Titan atuou como contraparte em negociação de ativos estruturados, sem sociedade operacional, participação cruzada ou estrutura paralela”.

Sobre a Fictor Pay, “as discussões decorrem de questões contratuais e de liquidez tratadas nas instâncias competentes. Dificuldades financeiras ou atrasos no cumprimento de obrigações não se confundem com fraude, e não há condenação reconhecendo prática ilícita”.

(Foto abetura: Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

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