Brasília é um lugar fascinante. Falta tudo, menos deputado com vocação para síndico de estado alheio. É o caso da deputada Erika Hilton, eleita por São Paulo e tomada por uma súbita paixão administrativa pelo Paraná. Não para discutir obra, estrada, hospital, segurança ou desenvolvimento. Não. Ela resolveu comprar uma briga política com o universo da família Massa e tentar transformar um embate com Ratinho pai numa fatura endereçada a Ratinho filho. Em português vulgar: brigou com um, foi cobrar do outro.
Dane-se a inflação, a violência ou a falência crônica da máquina pública. O problema que assola o país, na ótica da deputada paulista, é o apresentador Ratinho.
Tudo começou quando o apresentador criticou a escolha da deputada para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher. Erika reagiu como manda o manual da política performática. Acionou o Ministério Público Federal, pediu providências ao Ministério das Comunicações e transformou um comentário televisivo em um pacote institucional completo. Protocolo, carimbo, timbre e, se bobear, até capa dura.
O que chama atenção não é apenas o barraco em si, mas a geografia da bravura. São Paulo segue com seus velhos e novos dramas, Brasília coleciona urgências, e mesmo assim a deputada arrumou tempo para mirar o Paraná como se o estado estivesse aguardando tutela moral em Sedex. O fenômeno tem nome: turismo federativo de indignação. A pessoa se elege num estado, posa de justiceira em outro e ainda tenta vender isso como missão nacional. É quase uma embaixadora sem Itamaraty.
Como Ratinho pai não exerce cargo público, a fatura moral foi redirecionada ao filho, governador do Paraná. É a versão política do “não achei o dono do carro, quebrei o portão”. Uma vingança por árvore genealógica, coisa que Freud explicaria e o contribuinte paga.
Para dar musculatura ao enredo, a deputada requentou um caso de assédio em colégio cívico-militar do Paraná que já havia provocado afastamento de monitor e desdobramentos administrativos na unidade. Assunto grave, evidentemente. Grave demais, aliás, para ser usado como requentado de conveniência toda vez que aparece uma oportunidade de encaixar o Paraná num palanque alheio. Tragédia não é marmita para militância esquentar quando falta assunto fresco.
A política brasileira, no entanto, adora uma marmita requentada. Principalmente quando ele vem acompanhada de indignação seletiva e boa repercussão nas redes.
O problema é que a marmita também alimenta o outro lado. Reportagens sobre o gabinete da deputada e sua curiosa relação com a estética pipocam pela imprensa. Dois assessores, revelam essas reportagens, são pagos com verba parlamentar para atuar como seus maquiadores. Coisa de mais de R$ 8 mil por mês.
Erika diz que os maquiadores, digo, assessores exercem funções legislativas e, quando dá tempo, ajudam na sua produção visual.
A Câmara confirma que não existe cargo formal de maquiador, mas também não proíbe que um secretário parlamentar saiba usar pincel, pó e outros acessórios. Há quem diga, porém, que oficialmente é um gabinete, mas mais parece um camarim.
Há ainda denúncias de despesas exorbitantes do gabinete de Erika com segurança privada, registrada na transparência da Casa e questionada judicialmente.
Apenas mais um capítulo daquele gênero tipicamente brasiliense chamado “tudo dentro da lei, mas fora do bom senso do pagador de impostos”.
O contraste fica mais interessante quando se olha o painel de votações da parlamentar. A mesma deputada que se apresenta como voz implacável de vítimas paranaenses votou contra o projeto que endureceu a progressão de regime para crimes hediondos.
Homicídio qualificado, estupro de vulnerável, latrocínio, feminicídio, ou seja, crimes que não costumam gerar threads poéticas nas redes parecem não sensibilizar a deputada. No discurso, dureza máxima. Na votação, suavidade terapêutica.
No fim das contas, o Paraná virou figurante involuntário de um enredo que não escreveu. Um estado inteiro convocado para servir de cenário a uma disputa nascida na televisão, alimentada nas redes e processada em Brasília como se fosse uma crise institucional de primeira grandeza.
Talvez seja apenas o espírito da época. Hoje, legislar é burocrático, complexo e ingrato. Já performar indignação é rápido, barato e rende curtidas. Escolhe-se um inimigo conhecido, um território distante e pronto: nasce mais uma cruzada moral com prazo de validade até o próximo trending topic.
Se resolver o problema não for possível, pelo menos dá para render um bom espetáculo.
E, convenhamos, espetáculo nunca falta.
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