ANO IV

23/06/2026

HojePR

mauro mueller

Esse Virgulino

26/05/2026
virgulino

Timbé perdeu tudo o que tinha na seca rígida do Ceará.

Mandou-se para o Acre. Uma tentativa frustrada. Lembrou-se então de Delmiro Gouveia, com quem encontrava em boas temporadas, dando dicas sobre o aproveitamento das peles dos caprinos, oferecia-lhe pousada, quando vinha em comitiva. Certamente o Coronel arranjaria alguma atividade.

E foi.

Carregou o jumento, selou o cavalo e embrenhou-se no sertão. Foram trinta dias e trinta noites viajando e quase nada de descanso. Quando chegou ao vilarejo, instalou-se em uma humilde pousada, apenas para tomar um banho, trocar as roupas e se fazer apresentável para que o Coronel encontrasse Timbé em boa aparência. Na manhã seguinte, rumou para a fazenda e pediu para ser recebido pelo Coronel:

– Não lembro de nenhum Manuel Poncidônio do Amaral Timbé – dizia em voz alta Coronel Delmiro Gouveia e Timbé ouvia da varanda. O capataz ia e voltava da varanda e Timbé contava mais uma história:

– Eu o abriguei por vezes na Fazenda Jericó, no Ceará. Conte-lhe das amostras de pele, conte-lhe da buchada que ele adorou, da conversa sobre o Assaré…

Coronel Delmiro não deu muita atenção ao que ia ouvindo, se aproximou de Manuel Timbé e ofereceu-lhe:

– Dou-lhe um emprego. Gostei de ti. Mas, pare de matraquear, pois não ganhará por palavra dita, homem de Deus. Perdi meu mais competente empregado, no almocreve, Virgulino. Preciso de alguém na lida. Se quiser, o emprego é teu, cabra da peste. Se não quiser, faça-se de mudo e vai-te embora.

Timbé abriu um sorriso de orelha a orelha, abaixou a cabeça, agradeceu e foi-se com o capataz, para conhecer toda Pedra. Começava o ano de 1918 e a vida estava difícil. Um emprego era uma riqueza naqueles dias. Não sei o que tem na cabeça esse Virgulino.

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