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A revista científica The New England Journal of Medicine publicou no domingo (11), um estudo da farmacêutica Eli Lilly, fabricante do Mounjaro (tirzepatida), em que são comparadas a eficácia e a segurança de medicamentos para obesidade.
A pesquisa analisou o desempenho do Mounjaro e do Wegovy (semaglutida) em pacientes adultos com obesidade, sem diabetes tipo 2, confirmando dados preliminares divulgados em dezembro do ano passado.
Segundo os pesquisadores, após um ano e quatro meses (72 semanas), a tirzepatida levou a uma perda de peso corporal de 20,2%, enquanto a semaglutida, de 13,7%. A redução média no peso corporal foi de 22,8 kg no grupo que recebeu o Mounjaro e de 15 kg no grupo tratado com o Wegovy, da Novo Nordisk, que contesta os resultados da pesquisa da concorrente.
No Brasil, o Mounjaro foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apenas para o tratamento de diabetes tipo 2 e a Eli Lilly aguarda o parecer sobre o uso em pacientes com obesidade, como já ocorre em países como os Estados Unidos. O Wegovy, por sua vez, é a versão da semaglutida aprovada pela agência para tratar obesidade — o popular Ozempic é a formulação para tratamento de diabetes tipo 2.
Evidências
Os pesquisadores analisaram o percentual de participantes de cada grupo com perdas corporais de 10%, 15%, 20% e 25%. Os pacientes tratados com tirzepatida tiveram 1,3, 1,6, 1,8 e 2 vezes mais chances de alcançarem reduções dessas magnitudes, respectivamente. Quase 20% do grupo da tirzepatida teve uma redução de peso de pelo menos 30%, em comparação com 6,9% no grupo da semaglutida.
O novo estudo da Eli Lilly também trouxe estatísticas relativas à redução da circunferência da cintura (circunferência abdominal). Essa medida fala sobre a gordura visceral, que se acumula entre os órgãos e tem sido considerada uma das mais perigosas para a saúde. A tirzepatida promoveu uma perda média de 18,4 centímetros, enquanto a semaglutida, de 13 cm.
Em relação à segurança, os resultados foram semelhantes. No total, 76,7% dos participantes tratados com tirzepatida e 79% dos tratados com semaglutida relataram pelo menos um evento adverso. O tratamento foi descontinuado, devido a efeitos colaterais, por 6,1% dos participantes no grupo do Mounjaro e por 8% no grupo do Wegovy.
Os eventos adversos mais comuns em ambos os grupos foram gastrointestinais (náusea, constipação, diarreia e vômito), em sua maioria de intensidade leve a moderada, ocorrendo principalmente durante a fase de escalonamento da dose. Efeitos colaterais graves foram relatados por 31 participantes (4,1%), com incidência semelhante entre os grupos da tirzepatida (4,8%) e da semaglutida (3,5%).
“Os resultados confirmam tirzepatida como uma excelente opção de tratamento para pessoas que vivem com obesidade, além de fornecer evidências científicas para que os profissionais de saúde tomem decisões relevantes no tratamento da obesidade”, disse Leonard Glass, vice-presidente sênior de assuntos médicos globais da área de Cardiometabolismo da Lilly, em comunicado enviado à imprensa.
Concorrente questiona os resultados
A Novo Nordisk contestou os resultados da pesquisa. Em nota enviada à imprensa, a empresa afirma que eles não são consistentes com os observados nos estudos da série STEP, que avaliaram a eficácia e a segurança da semaglutida em pacientes com obesidade, e em estudos de mundo real.
“Temos evidências claras e consistentes de uma perda de peso média de 17%, com cerca de um terço dos pacientes perdendo 20% ou mais do peso corporal, tanto em nosso programa de estudos clínicos STEP quanto em evidências do mundo real”, afirmou. “Não está claro para nós como a metodologia utilizada por eles resultou em uma perda de peso inferior à indicada em nossos medicamentos aprovados.”
A Novo Nordisk lembrou que o Wegovy é o primeiro medicamento da classe dos agonistas do GLP-1 aprovado para reduzir o risco de eventos cardiovasculares maiores, como morte cardiovascular e infarto, e informou que estuda a administração de uma dose maior de semaglutida no Wegovy.
Limitações e aplicação
O estudo SURMOUNT-5 acompanhou 751 pacientes. Eles foram divididos em dois grupos e ambos receberam a dose máxima das medicações. Apesar dessa randomização, a pesquisa não foi cega, ou seja, tanto pacientes quanto pesquisadores sabiam qual tratamento era administrado, o que pode introduzir vieses.
Fabio Trujilho, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), que participa do Congresso Europeu de Obesidade (ECO 2025), onde o estudo da Lilly foi apresentado, explicou que esse tipo de pesquisa — dita cabeça-a-cabeça (head-to-head) — é importante para direcionar o tratamento clínico.
Ele ressaltou, porém, que os números são médias e que cada paciente tem uma resposta individual. “A resposta de cada pessoa a um determinado medicamento é diferente. Então pode ser que algumas pessoas possam se beneficiar e ter uma perda de peso maior com a semaglutida do que com a tirzepatida.”
Além disso, no tratamento da obesidade, não se pode ficar preso apenas aos quilos perdidos. É preciso buscar também o controle de comorbidades associadas, como hipertensão, diabetes e apneia do sono, além de condições ainda mais graves, como risco aumentado de infarto, AVC e morte cardiovascular.
“Tenho pacientes que, às vezes, não perderam uma quantidade tão grande de peso, mas estão muito felizes com o tratamento. Estão dormindo bem, estão se movimentando mais. Tudo isso vem pra mostrar que a obesidade é uma doença complexa.”
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