O ex-procurador-geral do INSS, Virgílio Antônio Ribeiro de Oliveira Filho, foi preso nesta quinta-feira (13) após se entregar à Polícia Federal em Curitiba, no desdobramento mais recente da Operação Sem Desconto, que investiga um gigantesco esquema de fraudes envolvendo descontos indevidos aplicados em benefícios de aposentados e pensionistas. A prisão ocorreu na superintendência da PF de Curitiba, onde o ex-procurador compareceu espontaneamente ao saber que era alvo de mandado de prisão preventiva. A esposa dele, a médica e empresária Thaíssa Hoffmann Jonasson, também foi presa no cumprimento da ordem judicial, mas acabou liberada posteriormente mediante monitoramento por tornozeleira eletrônica, seguindo determinação da Justiça Federal.
A investigação aponta que Virgílio, enquanto ocupava o cargo de procurador-geral do INSS, teve participação direta na tomada de decisões internas que permitiram a reativação de descontos associativos considerados irregulares pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. Entre essas decisões estaria a ratificação de um entendimento jurídico que resultou no desbloqueio em massa de benefícios, o que favoreceu associações e entidades que descontavam mensalidades sem autorização expressa dos beneficiários. A Contag, uma das principais entidades investigadas, teria sido beneficiada diretamente após a emissão de pareceres internos que, segundo os investigadores, não seguiam o rigor técnico habitual da autarquia.
A participação da esposa do ex-procurador ampliou ainda mais a complexidade do caso. De acordo com a PF, empresas ligadas a Thaíssa teriam recebido valores milionários vindos de grupos associados a Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, apontado como um dos principais articuladores do esquema. Antunes é investigado por coordenar, com apoio de servidores e intermediários, a inclusão fraudulenta de descontos em folha, gerando uma arrecadação ilegal estimada em cifras bilionárias. Documentos analisados pelos investigadores mostram que empresas vinculadas ao casal movimentaram recursos incompatíveis com sua atividade econômica regular, reforçando as suspeitas sobre o envolvimento direto dos dois na engrenagem financeira das fraudes.
A nova fase da Operação Sem Desconto mobilizou equipes federais em 14 estados e no Distrito Federal, resultando no cumprimento de mais de 60 mandados de busca e apreensão, além de 10 prisões preventivas. A amplitude territorial da operação demonstra, segundo a PF, que o esquema não se limitava a núcleos isolados, mas funcionava como uma rede estruturada, envolvendo advogados, empresários, dirigentes de entidades e servidores públicos. Os responsáveis pela investigação apontam que, ao longo de anos, milhares de aposentados e pensionistas tiveram descontos inseridos sem consentimento, gerando lucros que abasteciam empresas de fachada e contratos simulados.
A prisão de Virgílio em Curitiba — cidade que se tornou símbolo de grandes operações de combate à corrupção no país — acrescenta peso institucional ao caso. Ele já havia sido afastado do INSS em abril e prestado depoimento à CPMI que investiga fraudes no sistema previdenciário, tendo negado irregularidades e atribuído suas decisões a “critérios técnicos”. No entanto, documentos reunidos pela PF indicam que houve pressões internas e externas para que os bloqueios fossem revertidos, e que o ex-procurador teria atuado de forma decisiva para permitir a continuidade das cobranças contestadas.
Após a prisão, Virgílio permanece detido à disposição da Justiça Federal, enquanto sua esposa segue em liberdade condicional, monitorada eletronicamente e proibida de se ausentar de sua residência sem autorização judicial. A defesa do casal deve se manifestar nos próximos dias. A Polícia Federal, por sua vez, afirma que a investigação segue em andamento e que novos desdobramentos são esperados, especialmente no rastreamento dos fluxos financeiros e na análise dos contratos firmados entre entidades de desconto associado e empresas ligadas aos investigados.



