A reação do senador Sergio Moro durante a coletiva de imprensa do amigo de fé, irmão camarada Flávio Bolsonaro, nesta terça-feira (19), viralizou nas redes sociais. E não foi por causa de alguma grande defesa da República, da moralidade ou da estabilidade institucional. Foi pela expressão facial de Moro. Uma mistura de espanto, cálculo político, arrependimento tardio e aquele olhar clássico de quem percebe que talvez tenha embarcado no navio errado justamente quando a água começa a entrar pelas janelas.
O vídeo registra o momento em que Flávio admite ter se encontrado com o banqueiro Daniel Vorcaro mesmo depois da primeira prisão do empresário, no ano passado, já portando uma vistosa e nada elegante tornozeleira eletrônica.
E é exatamente nesse instante que Moro trava. Paralisa. Congela. O senador paranaense parece assistir, em tempo real, a um filme passando diante dos seus olhos. Só que não parece ser daqueles com final feliz, trilha inspiradora e discurso sobre esperança no encerramento.
A expressão é de quem percebe que a bóia de resgate talvez fosse, na verdade, uma bigorna.
Moro se abraçou a Flávio Bolsonaro como um náufrago abraça qualquer coisa que ainda esteja flutuando no oceano político. Sem espaço no União Brasil para disputar o Palácio Iguaçu, encontrou no PL um porto possível. Ou aparentemente possível.
Flávio, igualmente desesperado para montar um palanque competitivo no Paraná, lançou a bóia ao ex-juiz. Nascia ali uma das alianças mais constrangedoramente pragmáticas e carentes de coerência da política recente.
Em nome dessa união, Moro engoliu anos de críticas ao PL, aos Bolsonaro e ao presidente do partido, Valdemar Costa Neto, a quem ajudou a colocar atrás das grades nos tempos heroicos, ou performáticos, da Lava Jato.
Trouxe junto, pendurado no reboque da história, o velho parceiro de métodos pouco republicanos da operação, Deltan Dallagnol, e o Partido Novo, que de novo já não tem muita coisa faz tempo e hoje pratica a velha política com entusiasmo de veterano.
Voltemos à coletiva e a confissão da “visitinha”.
A naturalidade com que Flávio falou sobre encontros com Vorcaro, justamente o personagem que se transformou no inimigo público número um de qualquer político minimamente preocupado com sobrevivência eleitoral, parece ter sido demais para Moro. Seu rosto parecia dizer: “Meu Deus, eu larguei o bote para entrar no Titanic”.
Porque é exatamente essa a sensação transmitida pelo senador. A de quem percebe, ali mesmo, diante das câmeras, que seu projeto político pode estar afundando ao lado do novo aliado. A de quem entende que, numa campanha eleitoral, território onde adversários transformam espirro em pneumonia e coincidência em conspiração, essa imagem será explorada até a última gota.
E talvez o que mais tenha assustado Moro naquele momento não tenha sido apenas a visita já confessada. Moro conhece como poucos o subsolo da política brasileira. Acostumado, nos tempos de juiz, a sentar diante de personagens como Luiz Inácio Lula da Silva, Antonio Palocci e José Dirceu, o senador sabe perfeitamente como esses escândalos funcionam. Eles raramente param no primeiro capítulo.
A expressão de Moro era a de quem entende que talvez ainda existam capítulos piores por vir nessa relação com Vorcaro. Moro sabe que, em Brasília, quando aparecem fumaça, reuniões discretas, visitas constrangedoras e relações nebulosas, normalmente o roteiro ainda está só começando.
A cena tem algo de cruel. Moro parece fazer contas mentais enquanto Flávio fala. Cada palavra do filho 01 soa como mais um balde de água entrando no casco da embarcação. A “visitinha” a Vorcaro deixa de parecer apenas um encontro social e passa a carregar um nível de intimidade politicamente radioativo.
O senador do Paraná, pré-candidato ao governo do estado, talvez tenha percebido naquele exato momento que passará meses tentando explicar uma relação que nem é dele, mas que pode afundá-lo junto. Porque a política brasileira tem dessas ironias tropicais. Às vezes o sujeito não cai pelo próprio escândalo, cai pelo escândalo do amigo que escolheu para sobreviver.
E diante disso, talvez desistir da candidatura sequer fosse vergonha. Ao contrário. Poderia ser uma saída racional, e até digna, para alguém que ainda tem quatro anos de mandato no Senado e tempo suficiente para reconstruir sua trajetória política longe desse naufrágio coletivo.
Porque disputar uma eleição cercado de companheiros tão constrangedores talvez seja um custo político alto demais até para alguém acostumado a sobreviver em ambientes tóxicos da República.
E o vídeo viralizou justamente porque todo mundo entendeu o subtexto sem precisar de legenda.
O olhar de Moro era o olhar de quem percebeu que a bóia virou Titanic.
Ah, você quer ver o vídeo? Taí aqui embaixo.
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