O que se assistiu na última reunião da Comissão de Educação da Câmara Municipal, durante a votação de uma honraria de Cidadania Honorária, ultrapassou qualquer limite do debate político. O voto em separado da vereadora Professora Angela (PSOL), contrário à homenagem ao líder comunitário judeu Isaac Baril, não se sustentou em critérios objetivos, administrativos ou éticos. Foi, acima de tudo, mais um episódio de intolerância travestida de discurso ideológico e um retrato fiel do despreparo que, infelizmente, já se tornou recorrente em sua atuação parlamentar.
Ao justificar sua oposição, a vereadora alegou que o homenageado, por incentivar a Aliyah, estaria apoiando a “expansão demográfica e ocupação territorial” e o que chamou de “o maior genocídio televisionado de todos os tempos”. Trata-se de uma afirmação grave, rasa e historicamente equivocada, que revela não apenas desconhecimento, mas uma perigosa disposição em confundir fé, identidade religiosa e política internacional conforme a conveniência do discurso.
A Aliyah, que é o retorno de judeus à terra de Israel, não é uma política de governo, nem um instrumento militar, nem uma estratégia geopolítica contemporânea. É um conceito milenar, anterior em séculos à criação do Estado de Israel, profundamente enraizado na Torá e na identidade do povo judeu. Reduzi-la a uma caricatura ideológica é uma demonstração inequívoca de ignorância cultural, algo incompatível com quem ocupa uma cadeira no Legislativo e participa de debates em uma comissão importante como a de Educação.
A superficialidade e o viés do voto foram prontamente repudiados pelo vereador Pier Petruzziello, que classificou, na tribuna da Câmara, o episódio como “claramente um voto antissemita” e “um voto de intolerância religiosa que não pode ser admitido”. A comparação feita por ele escancara a incoerência: minutos antes, a mesma comissão havia aprovado, por unanimidade, uma honraria a um cidadão muçulmano, com o voto favorável da própria vereadora.
“Ela votou hoje contra uma cidadania honorária porque é uma pessoa judia”, afirmou Petruzziello, lembrando ainda que a vereadora sequer demonstrou domínio mínimo sobre o significado do termo que utilizou para justificar sua posição. A crítica é dura porque é justa: não se trata de divergência política, mas de seletividade ideológica aplicada à fé alheia.
O homenageado, Isaac Baril, possui uma trajetória pública marcada exatamente pelo diálogo inter-religioso. Durante sua presidência na Federação Israelita do Paraná, promoveu encontros com padres, bispos, arcebispos e lideranças da comunidade árabe em Curitiba, sempre pautado pela convivência, pelo respeito e pela construção de pontes. Não há qualquer registro, gesto ou posicionamento que o associe a ódio, violência ou discriminação.
“Não existe uma única linha em sua biografia que o desabone. Seu mérito é local, sua contribuição é para a sociedade curitibana. O voto contrário foi um ataque direto à sua identidade religiosa”, destacou Petruzziello. E é exatamente aí que reside a gravidade do episódio.
Longe de defender a causa palestina, que, aliás, merece ser tratada com seriedade, conhecimento e responsabilidade, a vereadora Professora Angela apenas reiterou um padrão já conhecido: discursos inflamados, mal fundamentados e politicamente ineficazes, que geram manchetes negativas, constrangimento institucional e sucessivas correções públicas feitas por colegas de plenário. Não é a primeira vez que sua atuação gera mais ruído do que resultado, mais constrangimento do que avanço concreto.
Ao importar conflitos internacionais complexos para justificar um voto sectário em âmbito municipal, a vereadora não prestou um serviço à política, nem à educação, nem aos direitos humanos. Prestou um desserviço à própria Câmara Municipal, transformando o espaço legislativo em palco para intolerância seletiva e simplificações perigosas.
Quando a ideologia substitui o conhecimento, e o ativismo cego ocupa o lugar da responsabilidade institucional, a democracia se fragiliza. O voto da vereadora Professora Angela não foi um gesto político legítimo, foi um ato de intolerância religiosa, reincidente em seu despreparo, que mancha a história da Casa e exige repúdio firme da sociedade. Honrarias devem ser concedidas com base na conduta, na contribuição local e no mérito público, nunca na fé que alguém professa.




1 comentário em “Intolerância, ignorância e reincidência: o voto antissemita que expõe o despreparo de uma vereadora”
Muito bem fundamentada a opinião do HojePR; não podemos deixar passar desapercebido esse, ou qualquer outro tipo de conduta antissemita.
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