ANO IV

05/06/2026

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Leivinha, adeus

05/06/2026
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Sou torcedor do Palmeiras por causa de João Leiva Campos Filhos, o Leivinha, falecido ontem aos 76 anos. Camisa 8, meia-direita clássico, elegante e habilidoso, ele jogava ao lado de Ademir da Guia e Dudu na segunda academia. Um time que levitava nos campos ruins e enlameados desse mundão afora, enquanto os adversários, pobres, iam rentes ao chão, capengando em suas chuteiras.

Leivinha foi campeão estadual em 1972 e 1974 e nacional em 1973 e 1974. O Brasileirão, oficialmente, era um rascunho do que viria a ser, enquanto o Paulista, à época, tinha status de competição de luxo. Não era esse ‘esquenta’ de início de temporada. Bom que se diga que o Palmeiras tinha um escrete, cuja escalação é rito de passagem para aquele que se considera torcedor. Leão, no gol, Eurico, Luís Pereira, Alfredo e Zeca. Dudu, Leivinha e Ademir da Guia. Edu, César e Nei.

Os adversários eram fortes. Duríssimos. São Paulo, Santos (de Pelé), Guarani, Ponte Preta, São Bento, Ferroviária, XV de Novembro, Botafogo (de Sócrates, ainda um estudante de medicina) e outros que me escapam. Leivinha não era cria da academia. Ele surgiu no cenário do futebol jogando na Portuguesa, chamada gentilmente de Lusa e grosseiramente de ‘Burra’, porque os portugueses ora, ora, pois pois.

Tempo e bola

Com 1,75m, uma altura mediana, o meia não deveria fazer frente aos beques de fazenda de dois metros que disputavam a bola na área. Mas fazia. Ele era um mestre no tempo e na impulsão. Corria quando a bola estava no ar e era preciso no salto e no toque de cabeça.

Ninguém acreditava que ele pudesse pular desse jeito. E se o fizesse, que mudasse de ramo para o atletismo. A descrença na habilidade de Leivinha era tão ferrenha que isso viria a custar um título para o Palmeiras.

Na rodada decisiva do estadual contra o São Paulo, em 1971, Leivinha saltou e marcou de cabeça. Armando Marques, o juiz, anulou o gol, alegando que o meia usara a mão. Não a ‘Mano de Diós’, por certo.

Três anos depois, Marques, que depois viria a dirigir mal e porcamente a comissão de arbitragem da CBF, admitiu o erro e pediu desculpas ao jogador. Não adiantou. Leivinha sempre achou que Armando Marques queria mesmo era se exibir em espetáculo alheio. A título de ilustração, lembremos que foi Marques também quem fez do São Paulo campeão estadual numa disputa de pênaltis com a Lusa. Detalhe: a série de cinco cobranças de cada lado não havia sido concluída. Ele errou nas contas. No final, deu lambança e o título foi tristemente dividido.

Vicente Matheus, o folclórico

Propositadamente não citei o Corinthians nos parágrafos acima. Na fila de qualquer título – até de futebol de botão – desde 1954, o timão era um timinho. Sim, Rivelino estava lá, mas a estrela do time era Vicente Matheus, o folclórico presidente do clube. Era ele quem dizia que fulano era invendável, inegociável e imprestável. Que agradecia à Antarctica pelas Brahmas oferecidas. E que, confrontado com as cruéis dúvidas do português, resolvia tudo com uma simplicidade ímpar. Se o cheque era de sessenta (com duplo ‘s’ ou cedilha?), mandava que fizessem dois de trinta.

Afora isso, o Corinthians era uma várzea impressionante. Calhou, então, do time de Parque São Jorge, chegar à final do Paulista contra seu principal adversário no justo ano em que completaria duas décadas de fantasmagoria em sua sala de troféus.

Um Morumbi lotado – dizem, com 100 mil torcedores –, assistia a um jogo teimosamente sem gols até que Leivinha, sempre ele, recebeu um cruzamento e tocou de cabeça para Ronaldo, o centroavante, bater de sem pulo vencendo o goleiro Ado (que, naquele tempo, era rima fácil). Até os palmeirenses ficaram constrangidos, mas fazer o quê? (Pausa para risadas).

Nos anos seguintes, Leivinha brilharia na Espanha, ao lado de Luís Pereira, jogando pelo Atlético de Madri e na seleção brasileira de 1974, sob o comando de Zagallo. As contusões frequentes, porém, acabariam por abreviar sua carreira. Aos 29 anos, Leivinha ainda faria onze partidas pelo São Paulo antes de se aposentar definitivamente. A família não informa a causa de sua morte. Não importa. Leivinha está impresso na memória dos apaixonados pelo futebol. Isso basta.

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