Inaugurada no calçadão XV de Novembro, a estátua do arquiteto e urbanista Jaime Lerner presta uma homenagem merecida a quem fez de Curitiba um cartão postal do país.
O local escolhido não é mera coincidência. Até 1972, a XV era uma rua que privilegiava os carros e preteria o pedestre, obrigado a espremer-se contra as lojas em um passeio de meio metro que, de tão esquálido, violava o princípio fundamental da locomoção. Verdade, alguns iam. Verdade, outros vinham. Mas era rara a ocasião em que todos iam e vinham.
Prefeito de primeiro mandato, Lerner pôs abaixo a rua dos automóveis, onde eram frequentes os atropelamentos, e pavimentou em seu lugar um calçadão exclusivo para pedestres. Fez mais: devolveu-lhe o nome de ‘Rua das Flores’, uma herança do império. O episódio marcou a largada de uma revolução urbana depois emulada em capitais do porte de São Paulo e Florianópolis.
Cidadão do mundo
Nascido em Curitiba de uma família judia, Lerner foi em sua essência um cidadão do mundo. As soluções urbanísticas que viriam a transformar a capital em referência sobrepujaram, em muito, as suas ambições políticas.
Por isso entendeu, de maneira pragmática que, só à frente da administração municipal, conseguiria realizar os projetos urbanos que idealizou ao longo de sua vida. Foi prefeito, sim senhor, e também governador por contingência política, mas neste caso, ele mesmo admitia que o hábito não fazia o monge. Antes de tudo, Lerner era um zelador urbano.
Que agora haja vozes do baixo clero acadêmico querendo desmerecê-lo é de se lamentar. Há muito, a UFPR, alma mater de Lerner, e outras instituições de ensino público, aqui e acolá, são centros de intolerância ideológica.
Houve um tempo em que alunos e professores do tipo eram chamados de petéticos. E acho que havia uma ponta de orgulho nisso, mesmo quando os escândalos do mensalão e do petrolão deixaram de fazer marola. Mas o neologismo envelheceu. Hoje são tachados pelo que valem: patéticos.
Tristes figuras
Patéticos quando criticam a privatização das estatais, a implantação de pedágios nas rodovias e a criação de canaletas exclusivas para ônibus. Fosse pelos acadêmicos da UFPR e ainda estaríamos na fila da Telepar esperando por uma linha fixa, que agora é coisa da Idade da Pedra Discada.
Em 1995, na primeira passagem de Lerner pelo Palácio Iguaçu, o preço dos telefones caiu para singelos 25 reais, permitindo que todas as camadas da população tivessem acesso a uma linha, antes reservada a pessoas cujo mordomo atendia por Alfredo.
Obdúlio, que viria depois, jamais perdoaria essa insensatez tecnológica. Por ele, o dinheiro seria batizado de caraminguá e as cédulas exibiriam imagens de indígenas em conjunção carnal. De fato, essa estampa existiu. Mas com outro dinheiro. Cruzado, cruzeiro ou Ribamar. Alguma coisa assim.
Claro que a criação do Real não foi obra de Lerner, mas da equipe econômica de Itamar Franco. Sim, FHC colheu os frutos, mas são outros quinhentos.
Atirem a primeira tese
A respeito dos pedágios, eis um debate sobre o qual os acadêmicos deveriam estar agora debruçados. Se as rodovias são públicas, livres de pedágio, quem paga a conta é o contribuinte, seja ele usuário ou não.
O vizinho viaja, o outro fica em casa, mas a conta do pedágio é rachada. Esse é o ponto. Quem discorda que atire a primeira tese. Mas, por favor, nada que discorra sobre a importância do galho seco na relação sexual do passarinho.
Lerner dizia que o carro era o novo cigarro. Seu projeto urbano privilegiava o transporte público e a contenção da periferia.
Ele queria que as pessoas trabalhassem próximas a suas casas, era contrário aos projetos de moradias populares do tipo “Minha Casa, Meu Fim de Mundo” e defendia a criação de bairros autossuficientes com oferta de serviços e lazer.
Foi embora para Passárgada
Após cumprir dois mandatos no governo, ele se afastou da política quando era cogitado para disputar a presidência da República ou uma cadeira no Senado.
Recusou qualquer projeto nesse sentido. Foi ser urbanista na vida.
Por isso a estátua em sua homenagem. Nela não há outro propósito senão o de preservar a memória do urbanista que pensou a cidade do futuro. Um futuro que, aliás, pode não chegar, se levada em conta a ótica distorcida e, pior, desonesta de seus críticos.
Pouco antes de falecer, em 2021, aos 83 anos, Lerner afirmou em entrevista à Folha de S. Paulo: ‘Em termos políticos o que deveria existir é a boa convivência entre aqueles que não concordam, isso está difícil’.
Principalmente para os funéreos.
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