ANO IV

13/07/2026

HojePR

sergio

Literatura das minorias

23/10/2025

raoni

Um dos temas que mais causa polêmica atualmente na área da Cultura é a questão da arte produzida pelas minorias (étnicas e raciais, sexuais e de gênero, de pessoas com deficiência ou em vulnerabilidade social). Só a poucos anos começou-se a dar voz a esses grupos historicamente discriminados. Confesso que eu, como macho branco heterossexual, fiquei incomodado quando começaram a surgir cotas para minorias em editais culturais. Logo percebi que era algo perfeitamente justo, uma vez que foram claramente proibidas de ter pleno acesso à educação e cultura durante tantos séculos. Foi o mesmo que ocorreu com o advento das cotas para universidades pelo Prouni, que hoje só são combatidas por radicais de extrema direita. E agora vejo, com felicidade, o surgimento de filmes dirigidos por indígenas, toda uma forte literatura produzida por mulheres, produtos culturais dos mais variados criados por negros, etc., etc. Para comprovar a importância deste movimento, Ana Maria Gonçalves acabou de ser eleita a primeira escritora mulher negra da Academia Brasileira de Letras. Ela é autora da obra prima “Um Defeito de Cor”, eleita numa recente enquete com escritores como o melhor livro publicado no atual século.

Queria tratar aqui de dois livros recentemente lançados, que, ao dar voz a histórias de minorias, trazem novas perspectivas e temas, expandem o leque de experiências presentes na literatura, introduzem novos personagens, enriquecendo a produção artística como um todo. São eles: “Raoni – Memórias do Cacique”, trajetória de um dos mais influentes líderes indígenas contemporâneos, registrada em suas próprias palavras, e “Destemida Ferrabraz”, do poeta e jornalista Daniel Perroni Ratto, que se prepara para lançar o sétimo livro da carreira no dia 28 de outubro, no Bar Wonka, em Curitiba.

A obra de Raoni é composta de mais de oitenta horas de entrevistas com o cacique de idade desconhecida (por volta de noventa anos) na língua do povo kayapó, que foram transcritas e traduzidas ao português em parceria com outros intelectuais de povos originários, num trabalho coordenado pelo antropólogo Fernando Niemeyer. O livro abarca desde contos míticos e experiências xamânicas de Raoni até sua narrativa biográfica. O leitor conhecerá desde sua infância e juventude, antes do contato com povos ocidentais, até sua participação central na luta pela demarcação de terras indígenas, que consolidou seu reconhecimento mundial, culminando na subida da rampa do Palácio do Planalto na posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A marca mais visível de sua identidade, o grande disco labial, remete à tradição kayapó e simboliza não apenas sua posição de destaque, mas também o orgulho pela própria cultura.

É um projeto realizado com o Instituto Socioambiental, o Instituto Sociedade População e Natureza e o Instituto Raoni, que vem na esteira de parcerias semelhantes de sucesso como a entre Davi Kopenawa e Bruce Albert, que culminou no emblemático “A Queda do Céu” e no novo “O Espírito da Floresta”. A Companhia das Letras publicou os dois e transformou a trilogia de coletâneas de Ailton Krenak, que começou com “Ideias para Adiar o Fim do Mundo”, em um tremendo sucesso comercial, que resultou na sua eleição para a Academia Brasileira de Letras, primeira de um indígena, comprovando a opressão cultural sofrida por tantos anos pelas minorias.

O cacique Raoni Mẽtyktire foi cotado para o Nobel da Paz, esteve com quase todos os presidentes do Brasil desde a redemocratização —exceção a Jair Bolsonaro (PL)—, conheceu reis, conversou com papas, sobreviveu à Covid-19, lutou por demarcações de terra e se tornou a maior liderança indígena do país. Um dos marcos de sua atuação foi a parceria com o músico britânico Sting, que resultou na fundação da Rainforest Foundation. Juntos, viajaram pelo mundo, angariando apoios e recursos para fortalecer a resistência indígena e pressionar governos a reconhecer e demarcar terras tradicionais.

O cacique inicia agora seu último ato. Numa entrevista à Folha de São Paulo, que reproduzimos aqui alguns trechos, Raoni falou sobre sua despedida, a passagem de bastão à geração mais jovem e, pela primeira vez, em nomes para sucedê-lo.

“Nos meus sonhos eu os vejo [os jovens] e fico preocupado com eles. Por quê? Porque assim que eu deixar eles, no dia em que eu partir, eles não estarão bem. Eles estão mais aprendendo ritmos da cultura dos brancos —e esquecendo a nossa”, diz Raoni.

“Eu falo para eles não serem assim, para defenderem as terras, os rios, o povo. Isso que eu falo para eles”, completa, expressando sua tristeza com o que chama de desunião na sociedade atual e entre os povos.

A conversa com a Folha aconteceu em razão do lançamento de seu livro “Memórias do Cacique” e foi mediada pelo editor, Ricardo Teperman, e traduzida por Patxon Mẽtyktire, um de seus netos. A obra é um dos passos de sua preparação para seus últimos atos na terra e é repleta de mensagens às novas gerações, com um tom entre a crítica e a frustração —e inclui a promessa de ainda atuar nas eleições de 2026.

Raoni é do povo mẽbêngôkre (conhecido como kaiapó), especificamente do subgrupo mẽtyktire, quando nasceu, na região mato-grossense da Amazônia, seu povo ainda não havia feito contato com os “kubẽ”, os não indígenas, e ele não foi registrado.

Nos últimos anos, dedicou-se a construir sua sucessão, a partir de assembleias com pajés, caciques e lideranças de diversos povos, além de conversas com os espíritos que guiam sua trajetória. Raoni, pela primeira vez, menciona nomes que ele mesmo já definiu para ocuparem seu lugar e cita dois de seus netos de consideração (não sanguíneos) que também são lideranças da região do Xingu.

“Os espíritos estão sempre comigo, à noite eles vêm me visitar. Uma vez, um grupo veio me visitar, eram muitos, espíritos do céu e da terra. Eles me perguntam sobre a minha escolha de algum neto para me suceder. E eu os apontei Yabuti e Tay. Muitos apoiam eles, e eles ficaram contentes com esses netos que eu anunciei”, diz.

Centrais na cultura e na tradição mẽbêngôkre, a relação entre os mais velhos e os mais novos e a transmissão de conhecimento entre gerações são uma das espinhas dorsais do livro de Raoni —e também um dos motivos de frustração dele com as jovens lideranças. Em sua própria língua, as palavras que definem parentesco não necessariamente fazem distinção sanguínea. “Tàpdjwỳ”, por exemplo, pode se referir a filhos, sobrinhos, netos e bisnetos. Toda a tradição de seu povo é atravessada pela transmissão do conhecimento do ancião para o mais novo.

Como relata Raoni, tudo é criado pelo poder de Iprẽre, mais velho, a partir da interação com seu cunhado mais novo, Ôjropre. Desobedecer às instruções do ancião molda as características do planeta e também alguns de seus problemas.

A obra traça uma espécie de imagem que o cacique quer deixar de si como legado. Ele aconselha as novas gerações a prezarem pela paz, protegerem a floresta e cuidarem do seu povo. “Essa minha luta a nova geração não reconhece, não sabe do meu trabalho”, relata, no livro. “Ainda me sinto forte para continuar lutando, mas meus netos devem assumir essa luta”, completa.

“Destemida Ferrabraz” é outro exemplo de literatura das minorias. Seu autor, Daniel Perroni Ratto, é um homem branco, embora seja muito bem miscigenado como todo cearense, mas o tema do seu livro é o universo feminino. Ele foi contemplado pela Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura de Obra Literária Inédita no Estado de São Paulo.

Ele é poeta, jornalista, músico e editor da Editora Algaroba. Pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura pela ECA/USP, autor dos livros ‘Urbanas Poesias’ (Ed. Fiúza, 2000), ‘Marte mora em São Paulo’ (A Girafa/Escrituras, 2012), ‘Marmotas, amores e dois drinks flamejantes’ (Ed. Patuá, 2014), ‘VoZmecê’ (Ed. Patuá, 2016), ‘Alucinação’ (Algaroba, 2018), ‘Grinalda de um Poeta’ (Algaroba, 2021) e ‘Destemida Ferrabraz’ (Algaroba, 2025). Entre os prêmios vencidos por Daniel ao longo de sua carreira como escritor, destacam-se o Prêmio Guarulhos de Literatura em 2019 com o livro, ‘Alucinação’, o projeto E-Vivências – Memórias, Experiências e Teorias, da Prefeitura de São Paulo de 2020 e seu poema “Coisa Simples” foi premiado no 32° Prêmio Moutonneé de Poesias em 2024. Em sua primeira passagem por Curitiba, no ano passado, participou da Festa Neomarginal e gravou poemas para o programa radiofônico Radiocaos.

“Destemida Ferrabraz” traz consigo uma metáfora que grita resistência, força, energia e resiliência. Nele, a mulher é o centro do debate, onde suas lutas seculares são expostas como marcas que seguem em passo de batalha. Ratto traz à tona e imprime em suas páginas o feminino do seu ‘eu lírico’. Somos capazes de detectar uma voz poética que demanda as questões da nossa época e denuncia a violência de gênero. A obra é, sobretudo, um convite para os prazeres da estética, da linguagem, da liberdade criadora da vida. De página em página, a poética se constrói e se reconstrói como se fosse um caleidoscópio mágico de vertigens abissais da alma do poeta. Um ‘eu poético’ insubmisso põe a mulher como epicentro de toda a obra, dando-lhe dimensão de heroína do seu destino desde sempre. Seja como mãe, seja como avó, tia, amor ou fantasia, a mulher avulta na narrativa “poemática” densa, profunda, intrincada e visceral. “O poeta troca um lugar de masculinidade dita ‘confortável’ por um exercício de empatia, um relato onde o autor faz uma imersão no feminino e retorna à superfície, a partir de seus amores e suas ancestrais, da citada tia Mirtes, da avó Dagmar, da poeta Laís, edificando uma potente homenagem às mulheres da sua vida”, define a poeta Íris Cavalcante sobre o trabalho.

O portal de notícias Metrópole, de Brasília selecionou “Destemida Ferrabraz” como um dos quinze livros essenciais para expandir sua leitura no último mês de junho. Como diz o autor: “O livro é uma seleta dos últimos anos, pós pandemia, onde selecionei poemas com a verve do feminino e das lutas das minorias.”

Numa recente matéria do jornalista e crítico de cultura Helder Moraes Miranda, para o portal Resenhando.com, sobre ” Destemida Ferrabraz”, ele afirma que Daniel Ratto decide encarar um dos maiores riscos que um escritor homem pode correr na contemporaneidade: falar com e através da voz feminina. Mas o que poderia soar como apropriação, vira, nas mãos dele, um gesto de reverência, insubordinação e amadurecimento. Entre o épico medieval de Ferrabrás, os cordéis de Leandro Gomes de Barros e as panelas fumegantes da avó dele, Dagmar, no Ceará, o poeta compõe um caleidoscópio em que o feminino não é metáfora distante, mas presença íntima. A cada resposta, ele mostra que a “destemida” não nasceu apenas da imaginação, mas do sangue, do suor e da cabidela feita no alpendre.

Produzida pela editora Algaroba, de propriedade do próprio Daniel, a obra terá lançamentos em seis cidades, a começar por São Paulo, que ocorreu no dia 12 de junho, na Ria Livraria, com sucesso de um público de namorados. Agora chegou a vez de Curitiba, com um evento no Wonka Bar, rua Trajano Reis, 326, no dia 28 de outubro de 2025, entrada gratuita, a partir das 21 horas. Teremos um show acústico do músico e compositor Luiz Ferreira e a leitura de poemas feita pelo próprio autor.

“Espero sempre que seja uma festa da literatura por onde passar e acima de tudo, chegar cada vez mais em mais leitores.” Este é o convite imperdível de Daniel Perroni Ratto aos curitibanos.

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