ANO IV

02/07/2026

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sergio

Ludwig Wittgenstein

02/07/2026
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Na sua coluna política diária na Folha de São Paulo, Hélio Schwartsman escreveu algo que me deixou bastante curioso: “Se eu tivesse de escolher a vida de um filósofo para transformar em série da Netflix, meu eleito seria o austríaco Ludwig Wittgenstein. Mas o programa correria o risco de fracassar, já que muitos telespectadores o julgariam inverossímil demais.” A fonte de Schwartsman foi o livro “Ludwig Wittgenstein”, de Anthony Gottlieb, que se concentra nas contradições e outras incongruências que tornam Wittgenstein irremediavelmente humano. Sua lógica sem concessões entremeada por surtos de misticismo, sua sexualidade complexa (era gay, mas se apaixonou por algumas mulheres) e sua relação difícil com a herança judaica. Resolvi pesquisar a tal biografia e deu nisto aqui:

Ludwig Joseph Johann Wittgenstein (26 de Abril de 1889 — 29 de Abril de 1951) foi um filósofo austríaco, naturalizado britânico. Um dos principais autores da virada linguística na filosofia do século XX, suas principais contribuições foram feitas nos campos da lógica, filosofia da linguagem, filosofia da matemática, e filosofia da mente. Muitos o consideram o filósofo mais importante do século passado.

Wittgenstein nasceu em Viena, então parte do Império Austro-Húngaro. Filho de Karl e Leopoldine Wittgenstein, era o caçula dos oito filhos do casal. Seus avós paternos, Hermann Christian e Fanny Wittgenstein, eram de família judaica, mas, quando se mudaram da Saxônia para Viena, em meados do século XIX, converteram-se ao protestantismo e integraram-se plenamente à esta comunidade de Viena. O pai de Ludwig foi um empreendedor checo de sucesso e seus negócios na indústria de ferro e aço alçaram-no à condição de um dos homens mais ricos da Europa. A mãe austríaca-eslovena Leopoldine, mulher culta e apreciadora das artes, também era de ascendência judia pelo lado paterno da família, mas foi educada segundo as práticas da Igreja Católica, assim como seus oito filhos.

Ludwig cresceu num ambiente propício ao desenvolvimento intelectual e artístico. Sua vida parece ter sido dominada por uma obsessão com a perfeição moral e filosófica, resumida na biografia de Ray Monk, “Wittgenstein: O Dever do Gênio”. Seu pai foi colecionador de obras de arte e patrocinador de músicos e pintores. Apoiou financeiramente vários artistas de vanguarda e a construção do Edifício Secessão em Viena. A mãe de Ludwig era excepcionalmente musical e fez questão de proporcionar aos filhos uma educação musical primorosa. Além do interesse pelas artes, os pais de Ludwig organizavam com frequência apresentações de peças musicais nos luxuosos salões de sua casa. Entre os frequentadores da casa dos Wittgenstein estavam artistas como Johannes Brahms, Gustav Mahler e Richard Strauss. Em sintonia com esse ambiente, os filhos de Karl e Leopoldine respondiam com a revelação de talentos incomuns, em especial para a música. Hans, o mais velho entre os filhos homens, começou a compor aos quatro anos de idade. Paul Wittgenstein tornou-se um habilidoso pianista de renome internacional, mesmo após perder a mão direita na 1ª Guerra Mundial. O próprio Ludwig, embora não tenha escolhido a música como profissão, manifestou talentos musicais acima da média. Tocava clarinete e tinha ouvido apurado. Especialmente notável teria sido sua capacidade de reproduzir em assovios um movimento inteiro de uma sinfonia ou concerto. A música também esteve presente em seu trabalho filosófico: em seus escritos, usou-a frequentemente para construir exemplos e símiles. Ao lado dos pendores artísticos, no entanto, a família Wittgenstein apresentava também traços de intensa autocrítica, pessimismo, depressão e mesmo de tendências suicidas. Três dos quatro irmãos homens de Wittgenstein cometeram suicídio.

Até 1903, Ludwig foi educado em casa; após este período, estudou por três anos na Realschule em Linz, uma escola que dava ênfase a disciplinas técnicas. Durante um dos anos letivos, Wittgenstein foi contemporâneo de Adolf Hitler na Realschule. Embora tivessem a mesma idade, não foram colegas de classe – Hitler estava dois anos atrasado. Não há informação segura de que tenham se conhecido.

Em 1906, Wittgenstein inicia seus estudos de Engenharia Mecânica em Berlim, Alemanha, e em 1908 ingressa na Universidade de Manchester, Inglaterra. À época, Wittgenstein pretendia tomar parte nas pesquisas pioneiras em aeronáutica. Registrou-se como estudante pesquisador em um laboratório de engenharia, onde conduziu pesquisas com pipas de observação atmosférica e, mais tarde, dedicou-se à construção de um motor a jato. Durante suas pesquisas em Manchester, interessou-se por problemas de fundamentação da matemática e começou a estudar “Os princípios da matemática”, de Bertrand Russell, e o “Leis básicas da aritmética”, de Gottlob Frege. No verão de 1911, Wittgenstein visitou Frege, depois de ter se correspondido com ele por algum tempo, e Frege recomendou que ele fosse à Universidade de Cambridge estudar diretamente com Russell. A relação entre Russell e Wittgenstein foi complexa, marcada por admiração mútua e algumas divergências teóricas.

Em outubro de 1911, Wittgenstein chega – sem qualquer aviso – à sala de Russell no Trinity College e manifesta seu interesse em assistir a suas aulas de lógica matemática. Russell recebe-o em suas aulas e, diante das incertezas de Wittgenstein quanto a continuar na engenharia ou dedicar-se à filosofia, pede-lhe que escreva um ensaio filosófico durante as férias de fim de ano. Em janeiro de 1912, Wittgenstein entrega-lhe o ensaio solicitado. Russell fica profundamente impressionado e convence seu novo aluno a deixar de vez a engenharia. A partir de então, inicia-se uma intensa colaboração entre os dois, cujo foco eram as questões filosóficas suscitadas pela lógica.

Apesar de estar extremamente envolvido nos estudos e nas discussões com Russell, Wittgenstein sentia que não podia chegar à raiz dos problemas que o ocupavam enquanto estivesse em Cambridge. Em 1913, partiu para a remota Skjolden, na Noruega, em busca do sossego que julgava necessário. Posteriormente, ele escreveria sobre esse período na Noruega: “Tenho a impressão de ter conseguido trazer à luz as ondas de pensamento que estavam confinadas dentro de mim”. Enquanto lá estava, escreveu um texto ao qual deu o nome de “Logik” e no qual já se anunciavam várias ideias que, mais tarde, fariam parte do seu primeiro livro “Tractatus Logico-Philosophicus”.

Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, Wittgenstein alista-se como voluntário no exército austro-húngaro. Serve primeiro em um navio e depois numa oficina de artilharia. Em 1916, é enviado, como membro de um regimento de artilharia, ao front russo. Recebe, por seu desempenho nas batalhas, várias condecorações por bravura. Durante a guerra, Wittgenstein manteve anotações de cunho filosófico e religioso, além de anotações pessoais. Esses cadernos de anotações mostram uma profunda mudança em sua vida espiritual. Parte dessa mudança deveu-se à leitura de “O evangelho explicado”, de Liev Tolstói. Wittgenstein carregava esse livro para onde quer que fosse, e recomendava-o a todos (a ponto de ser conhecido pelos outros soldados como “o homem com os evangelhos”).

Durante a guerra, Wittgenstein passa a atribuir ao seu trabalho em lógica um significado ético e religioso. Foi nas trincheiras, em meio a bombardeios, que ele escreveu boa parte do “Tractatus Logico-Philosophicus”, a única obra que publicaria em vida. Em 1918, já no fim da guerra, Wittgenstein foi promovido a tenente e enviado ao norte da Itália, integrando um regimento de artilharia. No verão de 1918, durante uma licença das obrigações militares, Wittgenstein hospedou-se na casa de seu tio, Paul Wittgenstein, em Hallein, perto de Salzburgo. Nessa ocasião, conclui o manuscrito do Tractatus e encaminhou-o a editores de Viena, na esperança de que se interessassem em publicá-lo. A resposta, no entanto, foi negativa.

No mesmo mês, Wittgenstein retorna ao front italiano. Logo nos primeiros dias de novembro, é feito prisioneiro. Por meio de seus conhecidos em Cambridge, consegue ter acesso a livros. Prepara cópias de seus manuscritos, enviando-as à Inglaterra. Na cópia que recebeu, Russell reconheceu uma obra de grande valor filosófico, e depois que Wittgenstein foi libertado em 1919, trabalhou com ele para que o livro fosse publicado, além disso, Russell escreveu uma introdução, emprestando ao livro sua reputação de um dos filósofos mais importantes da época.

Entretanto, surgiram dificuldades. As relações de Wittgenstein e Russell ficaram estremecidas, principalmente porque Wittgenstein achava que a introdução feita por Russell ao Tractatus evidenciava uma notória falta de compreensão de teses fundamentais do livro. Wittgenstein começou a ficar cada vez mais frustrado, já que não apareciam editores dispostos a publicar seu trabalho. Os poucos que se manifestavam, pareciam mais interessados na introdução de Russell do que no próprio livro. Por fim, Wilhelm Ostwald aceitou publicá-lo no seu periódico Annalen der Naturphilosophie. O texto vem a público pela primeira vez em 1921 com o título de Logisch-philosophische Abhandlung.

Por essa época, Wittgenstein toma decisões que repercutiriam pelo resto de sua vida e das quais ele não se arrependeria. Aparentemente, as experiências da Primeira Guerra deixaram marcas indeléveis e, assim como ocorreu a vários outros ex-combatentes, Wittgenstein enfrentou dificuldades em se readaptar à vida civil. Além disso, a elaboração do Tractatus havia sido extremamente desgastante, tanto intelectual como emocionalmente. Essa obra havia transfigurado todo o seu trabalho anterior em lógica numa estrutura completamente nova que, em parte, refletia uma profunda preocupação espiritual. Ele achava, sem considerações de modéstia, que o seu Tractatus havia resolvido todos os problemas filosóficos que existiam ou que viessem a existir. Não havendo mais nada a ser feito em filosofia, só lhe restava procurar por um novo estilo de vida, mais simples e austero. Wittgenstein era herdeiro de uma das maiores fortunas da Europa, mas abriu mão de sua parte no espólio, em favor de seus irmãos, porque queria levar uma vida ascética. Depois de ter ganhado status de gênio filosófico em Cambridge, Wittgenstein decidiu se tornar professor primário na Áustria rural.

Iniciou, então, o respectivo curso de formação, onde recebeu treinamento nos métodos do Movimento de Reforma da Escola Austríaca, que defendia que o colégio, em vez de impor a simples memorização, deveria estimular a curiosidade natural da criança e a formação de pensadores independentes. Durante todo o tempo em que foi professor primário, Wittgenstein procurou colocação em áreas rurais da Áustria, mas o trabalho nessas áreas afastadas sempre esteve acompanhado de problemas e conflitos. Ele até obteve bons resultados com algumas crianças que conseguiram acompanhar os seus interesses e seu estilo de ensino, mas suas expectativas em relação a esses alunos eram absolutamente irrealistas. Seus métodos de ensino eram extremamente intensos e rigorosos, e ele tinha pouca paciência com quem não mostrava aptidão ao que era ensinado. Suas medidas disciplinares (que envolviam punições físicas) – bem como a suspeita disseminada entre os camponeses de que ele fosse meio maluco – levaram a uma série de desentendimentos entre Wittgenstein e os pais das crianças. A situação tornou-se insustentável quando, em abril de 1926, ele bateu num aluno com dificuldades de aprendizado. Dar safanões em estudantes era corriqueiro nos anos 20 do século 20, mas o filósofo foi tão veemente em seus esforços pedagógicos que o garoto de onze anos desmaiou. O pai de um dos alunos queria que Wittgenstein fosse preso; e ele, embora não tenha sofrido nenhuma condenação formal, acabou por renunciar ao cargo de professor, convencido de seu fracasso. Durante esse período, Wittgenstein escreveu um dicionário de ortografia para uso em escolas primárias, com relativa aceitação entre os professores. Esse seria o único livro, além do Tractatus, que Wittgenstein publicaria durante a sua vida.

Ele nunca mais voltou a lecionar, preferindo tornar-se jardineiro num mosteiro nas proximidades de Viena. Chegou a cogitar a possibilidade de se tornar monge, mas não levou a ideia adiante. Dois acontecimentos importantes ajudaram Wittgenstein a sair da situação desesperadora em que se encontrava. O primeiro deles foi o convite feito por sua irmã Margaret Stonborough (de quem Gustav Klimt fez um retrato em 1905) de trabalhar, junto com o arquiteto Paul Engelmann, no planejamento e construção de sua nova casa. Wittgenstein e Engelmann desenharam uma casa modernista no estilo anti decorativo de Adolf Loos. Wittgenstein dedicou atenção obsessiva a cada detalhe das dobradiças, das torneiras da cozinha, dos chuveiros, dos sanitários e dos aquecedores. No desenho das maçanetas das portas, por exemplo, despendeu um ano inteiro até chegar a um resultado que lhe parecesse satisfatório. Levava operários e fornecedores a colapsos nervosos, tal era seu perfeccionismo. Para ele, a arquitetura era uma questão ao mesmo tempo lógica e ética, não admitindo desvios. Contudo, toda essa atenção aos detalhes estava subordinada ao intento de construir um conjunto de simetria perfeita. A casa, na qualidade de obra arquitetônica modernista, foi bem recebida e despertou elogios. G. H. von Wright afirmou que “sua beleza tem o mesmo caráter simples e estático das sentenças do Tractatus”. Hermine, a irmã mais velha, escreveu: “(…)embora eu admire muito a casa, sempre soube que eu mesma jamais quereria nem poderia viver nela. Ela parece ser muito mais uma habitação para os deuses (…)”.

Um segundo episódio importante ocorreu quando os trabalhos na casa ainda estavam em andamento. Wittgenstein foi procurado por Moritz Schlick, uma das figuras proeminentes do recém-formado Círculo de Viena. O Tractatus havia se tornado muito influente no desenvolvimento do positivismo vienense e, embora Schlick não tenha conseguido levar Wittgenstein às reuniões do próprio Círculo de Viena, ele e alguns de seus companheiros, especialmente Friedrich Waismann, encontravam-se ocasionalmente com Wittgenstein para discutir tópicos filosóficos. Wittgenstein geralmente achava esses encontros frustrantes – para ele, Schlick e seus colegas não conseguiam entender pontos fundamentais do Tractatus. Boa parte das desavenças girava em torno da importância da vida religiosa e da dimensão mística; Wittgenstein considerava esses assuntos como uma espécie de fé sem palavras, ao passo que os positivistas os descartavam como coisas inúteis. Em algumas ocasiões, ele recusava-se a discutir o livro e ficava a ler em voz alta os poemas de Rabindranath Tagore com as costas voltadas para os convidados estupefatos. No entanto, o contato com o Círculo de Viena estimulou Wittgenstein intelectualmente e reacendeu seu interesse pela filosofia. Igualmente importante foi o seu contato com Frank P. Ramsey, um jovem estudioso da filosofia da matemática, que viajou algumas vezes de Cambridge até a Áustria para se encontrar com Wittgenstein. No curso de suas discussões com o Círculo de Viena e com Ramsey, Wittgenstein começou a achar que poderia haver “graves erros” em seu trabalho tal como apresentado no Tractatus – a partir daí, tem início uma segunda fase de pesquisa filosófica, que iria ocupá-lo até o fim da vida.

Em 1929, Wittgenstein voltou a Cambridge na condição de estudante avançado. A princípio, realizaria estudos preparatórios para a obtenção do grau de doutor sob a supervisão de Ramsey. Como os seus estudos anteriores em Cambridge podiam ser aproveitados, Wittgenstein apresentou o Tractatus, publicado sete anos antes, como tese de doutorado, e a defesa foi realizada em junho de 1929. Russell e Moore foram os examinadores. A defesa, na verdade, cumpria uma mera formalidade, e esteve longe de ser uma arguição rigorosa da tese apresentada. Ao fim do ritual, Wittgenstein bateu nos ombros de Russell e de Moore e acrescentou: “Não se preocupem; eu sei que vocês nunca vão entender”. Moore comentou em seu relatório sobre o exame: “É minha opinião pessoal que a tese do sr. Wittgenstein é uma obra de gênio. Assim sendo, certamente está perfeitamente à altura dos padrões exigidos para receber o grau de doutor em filosofia”. No ano seguinte, Wittgenstein tornou-se Fellow do Trinity College.

Também em 1930, começa a lecionar em Cambridge. As aulas ministradas por Wittgenstein eram pouco convencionais. Não costumava prepará-las nem usar anotações. Segundo relatos, às vezes parecia simplesmente estar expondo o que pensava naquele momento; outras vezes, ficava calado por longos períodos, e sua expressão e comportamento eram o de quem estava às voltas com problemas extremamente difíceis e buscava solucioná-los ali mesmo, diante dos alunos. Frequentemente esses encontros assumiam a forma de diálogos: Wittgenstein fazia uma pergunta, aguardava uma resposta de algum dos presentes e a partir dessa resposta tecia considerações e propunha novas questões. Às vezes, Wittgenstein perdia a paciência consigo mesmo e dizia coisas como “Sou um estúpido!”, “Este vosso professor é lamentável!”, “Hoje estou muito burro!”. O número dos estudantes que ele afugentava das aulas crescia dia após dia. No fim, havia permanecido só ele em sala de aula.

Em 1934, Wittgenstein começa a acalentar a ideia de emigrar para a União Soviética. Teve aulas de russo, e em setembro de 1935 viajou para Leningrado e Moscou com a intenção de conseguir um emprego. Ele pretendia conseguir uma vaga de trabalhador braçal, mas só lhe ofereceram postos de professor. Sem conseguir o que queria, voltou três semanas depois. Em 1936, expirou a bolsa que o Trinity College havia lhe dado em 1930. Wittgenstein parte, então, para a Noruega, a fim de se dedicar integralmente à elaboração de seu novo livro. Lá ele permanece até dezembro de 1937, após concluir parte dos textos que irão compor as Philosophische Untersuchungen (Investigações Filosóficas), em que avança sobre temas da filosofia da mente ao analisar conceitos como os de compreensão, intenção, dor e vontade. O livro só foi publicado postumamente e serve em sua base para negar sua primeira obra.

Em 1939, G. E. Moore aposenta-se, e Wittgenstein é designado para a cátedra de filosofia em Cambridge. Nesse mesmo ano, Wittgenstein ministrou um curso em que se discutiram questões de filosofia da matemática. O curso de 1939 chama a atenção porque os alunos que o frequentaram tiveram a oportunidade de testemunhar os embates entre Wittgenstein e Alan Turing, um dos matemáticos mais brilhantes do século XX, que, inclusive já mereceu uma série da Netflix. Wittgenstein defendia em suas preleções, entre outras coisas, que as contradições lógicas não seriam um problema tão nefasto quanto julgavam os matemáticos. Turing, por sua vez, defendia que a preocupação de evitar contradições num sistema formal atendia a uma questão prática: se um engenheiro empregasse um sistema formal contaminado por contradições na construção de uma ponte, a ponte cairia! Desnecessário dizer que nenhum dos dois conseguiu convencer o outro do contrário.

Após a eclosão da Segunda Guerra, Wittgenstein procura de alguma forma engajar-se no esforço de guerra. Sua intenção inicial era alistar-se na brigada de ambulâncias, como maqueiro. Mas sua origem germânica despertava desconfianças, e isso impediu que fosse aceito em qualquer atividade mais diretamente relacionada à guerra. Procurou, então, uma alternativa que não representasse ficar enclausurado numa universidade em tempos tão dramáticos, e acabou por conseguir emprego como servente de dispensário no Guy’s Hospital de Londres.

Depois da guerra, Wittgenstein voltou a lecionar em Cambridge, mas permaneceu aí apenas por dois anos letivos. Por seus comentários e pelos relatos dos que com ele conviveram, Wittgenstein nunca gostou do trabalho acadêmico nem do convívio com os profissionais da academia. Em 1947, resolve deixar Cambridge definitivamente.

Em seus últimos anos na Universidade de Cambridge, Wittgenstein dedicou-se à conclusão do tão aguardado livro em que condensaria as ideias desenvolvidas desde 1930. Embora tenha chegado a fazer um prefácio com a data de janeiro de 1945, Wittgenstein resolveu adiar a publicação e fazer novas revisões em seu texto.

A convite de Norman Malcolm, ex-aluno e professor de filosofia na Universidade Cornell, Wittgenstein vai para os Estados Unidos em julho de 1949 e fica hospedado na casa de Malcolm até outubro do mesmo ano. As discussões com o seu ex-aluno estimularam Wittgenstein a desenvolver uma série de reflexões sobre as afirmações do senso comum. Essas reflexões seriam mais tarde reunidas e publicadas postumamente no livro Über Gewissheit (Sobre a Certeza).

Nessa época, Wittgenstein já enfrentava sérios problemas de saúde. Ao retornar dos Estados Unidos, submete-se a exames médicos e descobre estar com câncer de próstata. Logo após o diagnóstico, vai para Viena passar uma temporada com a família. Embora doente, inicia nesse período as anotações inspiradas na teoria das cores de Goethe, mais tarde denominadas de “Observações sobre as cores”.

De volta à Inglaterra, Wittgenstein passa períodos nas casas de ex-alunos e amigos; e faz sua última viagem à Noruega no final de 1950. Ao retornar dessa viagem seu estado piora bastante. Seu médico em Cambridge, o Dr. Edward Bevan, hospeda-o em sua casa. Em 28 de abril de 1951, pouco antes de perder a consciência, ele pede à esposa do dr. Bevan que dê um recado a seus amigos: “Diga-lhes que tive uma vida maravilhosa”. No dia seguinte é constatada a morte de Wittgenstein. Está sepultado em Cambridge no Ascension Parish Burial Ground (também conhecido como cemitério da igreja de St. Giles). Sua lápide é notada por ser simples e ter a miniatura de uma escada.

Rico e frugal, soldado e eremita, matemático e irracional, foi o homem que disse: “Sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar”.

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