Os sonhos de Ricardo eram antes ligados aos bens materiais. Usava drogas, saía de casa na sexta-feira e voltava na segunda.
As discussões em casa eram uma constante. Mudou de religião três vezes, mas descobriu sozinho que tudo o que fazia era fútil. De dependente químico a budista, agora seu nome é Tathagata.
Se despediu dos pais e rumou para conhecer um templo no Oriente. O Samanera estava prestes a entrar de vez em uma vida nova, após seguir por três anos o Vinaya.
Avistou uma edificação monumental, um dragão a rodeava, como se estivesse subindo até o terraço. A silhueta humana se via do chão. Subiu.
A garota mais bonita que ele havia visto estava parada, parecia que o esperava:
– Sou Telma e você?
– Tathagata.
– Tens um ar elegante, atlético, alto, olhos azuis, roupas ocidentais, talvez um americano? Não, não é americano, mas gostei de você.
Um ar intenso lhe tomou. Imediatamente, mudou o semblante, melhorou a postura, olhou a garota com uma falsa tranquilidade quando percebeu que se interessava por ela. Se recompos e, quando ia se despedir, ela o abraçou e deu-lhe um beijo na boca, tão surpreendente, que a tontura lhe tomou o corpo. Arranjou forças para se afastar, pediu desculpas e saiu daquele lugar, como se estivesse fugindo de um monstro maior que o dragão em volta da edificação do qual Ricardo tentava se afastar. De repente, um monge o encontrou e pediu calma:
– Onde vai com tanta pressa?
– Eu… uma garota… desculpe. Me chamo Tathagata, sou um Samanera brasileiro e vim conhecer o templo.
– A propósito – alertou um monge – o templo é ao lado.
Tathagata falava e gesticulava, ao mesmo tempo olhava para todos os lados, tentando entender o que estava acontecendo. Quando se voltou para o monge, não havia mais ninguém. Decidiu subir correndo e não encontrou Telma. Desceu, ainda mais veloz do que subiu e se dirigiu ao templo.
Entrou. A paz voltou ao semblante.
Ainda estava ofegante, quando um rapaz aparentando sua idade veio desejar boas vindas. Tathagata sorriu e começou a contar:
– Eu estava lá no topo do prédio ao lado, quando de repente uma garota…
– Telma?
– Você a conhece?
– Não, mas muitos jovens a viram.
Tathagata foi acometido de medo, insegurança e curiosidade. Pensou: A bela garota era na verdade a maldição do templo do Dragão:
– Telma não é uma maldição – explicou o jovem monge – Telma é real somente dentro de quem duvida de si próprio. Telma é você, se perguntando a razão de tão longa viagem. Aqui, aprendemos que todos os caminhos tem volta. Seja uma longa jornada, ou um passo, não devemos ter medo de recuar, voltar e redescobrir o motivo pelo qual estamos em busca de nós mesmos. É como reaprender a andar. Caímos de novo.
Tathagata ainda não estava pronto para se tornar um monge, mas naquele instante descobriu que estava pronto para enfrentar suas próprias maldições.
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