Está no caderninho de sonhos da Vó Bahiana, famosa por errar todas as previsões da Copa até agora. O que fazer? Já não se faz mais polvo Paul como antigamente. Com cérebro de molusco — apesar de contar com nove (repito: nove!) —, ele adivinhou corretamente os resultados da seleção alemã na Copa de 2010. Outras comparações não são apropriadas.
A próxima predição da vidente deve circundar o estádio onde Brasil e Japão se enfrentam na próxima segunda-feira, às 14 horas. Não será difícil pressagiar que um disco voador, levando a bordo incas venusianos de chifres esquisitos, irá surgir das nuvens e dizimar o futebol de Igor Thiago, Neymar e, de resto, de toda a seleção.
Convenhamos: não seria uma tarefa difícil. Mas há um porém: National Kid, o herói japonês que precedeu Godzilla e Ultraman nos seriados orientais, pode surgir na hora H e salvar a todos — com a exceção de um ou outro, por conta de suas próprias predileções.
É o melhor que a Vó Bahiana, escudada pela ficção científica e pelo habitual delírio psicotrópico de profissionais dessa área, pode fazer enquanto aguarda a fase de mata-mata — às vezes favas contadas, às vezes injusta, às vezes cruel.
Kilt e gaita de fole
Admitamos que a Vó Bahiana acertou a predição, mas errou o alvo. Até prova em contrário, foram os escoceses as vítimas da abdução. Desde o primeiro minuto, ficou claro para os torcedores do país, orgulhosos do kilt e da gaita de fole, que o futebol praticado pela Escócia não estava lá. E, se estava, que Zeus nos ajude.
De longe, eles são o pior escrete da fase de classificação, apesar de Curaçao, apesar da Jordânia, apesar da Nova Zelândia. Velhos — com média de idade de 29,3 anos (maior que a do Brasil) —, gordos e, evidentemente, claudicantes.
Seria maledicência afirmar que estiveram presentes no meio da turba que bebeu, em doses industriais, a cerveja de Boston, obrigando donos de bares e restaurantes em Miami a triplicar o estoque?
Não se iluda, caro leitor: eles beberão muito mais. Primeiro, porque são, de fato, insaciáveis. Segundo, porque têm um motivo. A Escócia, orgulhosamente, ‘corre o risco’ de se classificar entre as melhores terceiras colocadas. Nada está confirmado ainda, mas isso já é motivo suficiente para comemorar bebendo. Quanto ao futebol, são outras canecas.
29 pontos do esqueleto
Se os discos voadores não assombram os torcedores, como quer a Vó Bahiana, a tecnologia da Copa do Mundo já se encarregou de fazê-lo. Para garantir que o sistema de impedimento semiautomático funcionasse às mil maravilhas, todos os jogadores que disputam a competição tiveram seus corpos escaneados em 29 pontos do esqueleto logo que chegaram aos Estados Unidos. Isso faz com que, em um átimo de segundo, o offside (ou não) seja detectado.
Há também um chip instalado na bola para controlar o movimento dos atletas dentro de campo, mapeando quando ela passa das linhas limítrofes ou flagrando infrações imperceptíveis, auxiliando as falíveis máquinas humanas.
Se os prognósticos dos especialistas em informática estiverem certos, em pouco tempo as próprias linhas do campo terão chips. E o número de câmeras instaladas, sempre crescente, será capaz de detectar irregularidades em décimos de segundo, sem depender da boa vontade do árbitro para soprar o apito.
Há quem diga que isso irá acabar com o romantismo do futebol, com o questionamento, com as mesas-redondas e com aquela pitadinha de desonestidade que alguns consideram louvável. Bobagem. Tudo aponta para mais futebol e menos embromation, inclusive se for instituído o tempo de hidratação. No vôlei e no basquete há paradas técnicas e intervalos comerciais, e o esporte só enriquece — inclusive no que diz respeito ao vil metal.
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