Depois de 40 dias de Copa do Mundo, em que a língua castelhana dominou boa parte das mídias virtuais ao redor do mundo, graças às presenças de Espanha, Argentina, Uruguai, Colômbia, Equador, Paraguai e Curaçao*, lembrei de um fato ocorrido em Isla Negra, residência de Pablo Neruda entre Santiago e Valparaiso – cidades em que ele mantinha três residências, hoje transformadas em museus.
Tínhamos acabado de almoçar e estávamos visitando as coleções do poeta ali expostas. Neruda era um acumulador de objetos, um colecionador compulsivo de diversos tipos de produtos. Na Isla Negra duas coleções de sobressaem, e de conchas e a de carrancas de barcos, trazidas dos mais diferentes países em que ele viveu. Neruda foi diplomata em, por exemplo, Colombo, no antigo Ceilão, hoje Sri Lanka.
Durante o almoço nos chamou a atenção um casal que estava em uma DR de alta octanagem duas mesas à frente da nossa. Até então, nada de grave.
Ao admirarmos as carrancas, encontramos o casal, carrancudo. Tão carrancudo que a mulher tirou uma foto de uma das peças e mostrou ao marido:
– Mira ese mascarón, es tu cara!**
O sujeito afastou o celular com um safanão, sem querer conversa.
Mais à frente chegamos às conchas, a tempo de ouvir a vingança dele, apontando para uma concha semiaberta:
– Mira esa concha, es uma copia certificada de la concha de tu madre!***
E foi saindo do ambiente. A coisa saiu do controle. A Mulher passou a esmurrá-lo nas costas, berrando “voy a matar usted”, “cretino”, “desgraciado” e por aí a fora. Entraram em seu automóvel e foram embora aos berros, deixando os circunstantes se perguntando: pela violência dos termos pareciam argentinos depois de perder a decisão de uma Copa do Mundo, pero hay dudas. Que jamais iremos dissipar.
*A língua oficial de Aruba, Curaçao e Bonaire é o papiamento, que usa a gramática castelhana, com palavras que misturam espanhol, francês, português, holandês, inglês e criole.
**Mascarón de proa é o nome das carrancas.
*** Concha é uma expressão popular que significa vulva. No caso, a da mãe da esposa.
Leia outras colunas do Ernani Buchmann aqui.



