Uma coisa é o chororô de Neymar Pai apelando, em carta aberta, para que o filho continue a jogar futebol (leia-se: continue a ganhar dinheiro). Outra, bem diferente, são as lágrimas do argentino Lionel Messi após a virada heroica sobre o Egito por 3 a 2.
Ouço especialistas afirmando, no day after, que a seleção egípcia foi prejudicada, em especial no segundo gol, anulado na origem da jogada. Conversa. Ana Paula de Carvalho, agora comentarista de arbitragem no UOL, disse que o árbitro agiu corretamente. Alguém lembrará que ela foi a primeira mulher a ganhar notoriedade como bandeirinha no Campeonato Paulista. Os recuerdos também devem incluir o famoso ensaio de Ana Paula para a revista Playboy, em 2007. E nada, absolutamente nada disso importa.
A reversão do cartão vermelho a Balogun, atacante dos EUA, é a mancha deste Mundial. Obra e graça de Trump e do presidente da Fifa, que me lembra o Lex Luthor pós-diarreia. Afora isso, esqueçam.
Os egípcios bem que tentaram “mumificar” Messi no jogo das oitavas de final, mas não conseguiram. A Argentina enfrenta a Suíça na próxima fase e parece que nem um apocalipse zumbi seria capaz de deter a equipe de Scaloni até a semifinal.
O abismo que nos olha
Brasileiro gosta de underdog, e isso tem relação direta com o complexo de vira-lata que nos acompanha, com razão, no cinema, na política, na economia, na literatura e em outros quitutes que batem com essa vidinha besta de meu Deus.
Vibramos com Cabo Verde, é verdade, e com o Egito — principalmente no segundo gol de Zico, que pareceu, no primeiro momento, reparar uma injustiça. Afora isso, nos resta o divã.
Messi e companhia têm uma força mental que precisa ser estudada. A maneira como a Argentina virou o jogo em menos de 15 minutos é impressionante: aos 78, Cuti Romero; aos 83, Messi; aos 92, Enzo Fernández. E olha que Messi ainda perdeu um pênalti no primeiro tempo, quando o placar era de 1 a 0 para o Egito. É um indicativo de que, salvo um apocalipse zumbi, a única seleção sul-americana que restou caminha para fazer uma final contra quem vier do outro lado da chave: França, Espanha, Marrocos ou Bélgica.
Enquanto olhamos para um abismo que, antes, já nos olhava, Messi segue adiante. Aos 39 anos, ele parece mesmo interminável. Um maestro que joga e manda jogar, mas com requintes de drama, melancolia e êxtase. O sofrimento que a equipe impõe aos torcedores durante o jogo é o adagietto de Mahler; o fim nos presenteia com a ode à alegria de Beethoven.
Ontem, a notícia era a de que Danilo, lateral reserva do Flamengo (e titular na seleção), foi o único jogador a desembarcar no avião fretado da CBF que pousou no Galeão. Se trouxe muamba ou não, pouco importa. Esse tipo de concessão alfandegária causou escândalo em 1994, ano do tetra. O dinheiro na cueca, nas meias, na mala e na esgotosfera nas décadas seguintes, entretanto, nos tornou imunes.
Hoje, dia 8, é o aniversário do 7 a 1, a goleada imposta pela Alemanha em pleno Mineirão. Saudoso tempo em que a seleção ainda disputava uma semifinal. Não mais.
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